O Wembley é um patrimônio do futebol inglês. O estádio em sua versão original foi inaugurado em 1923, para a Exposição do Império Britânico, e recebeu uma série de eventos históricos ao longo das décadas. Foi palco de Copas do Mundo (de futebol e de rúgbi), Olimpíadas, Eurocopa, Liga dos Campeões e tantas finais nacionais – sem contar os concertos musicais ou o que mais fosse além dos esportes. A reforma na década passada mudou a cara da “catedral”, mas ela continuou santificada à Inglaterra. Aos clubes, chegar a Wembley representa o máximo, seja para disputar as decisões de copas ou os playoffs de acesso, enquanto permanece como a casa da seleção. E o terreno sagrado pode ganhar um novo dono. Nesta quinta, a imprensa local revelou que a Football Association recebeu uma proposta para vender o estádio, avaliada entre £800 e £900 milhões.

A oferta foi feita por Shahid Khan, velho conhecido do futebol inglês. O bilionário paquistanês, dono da 217ª maior fortuna do mundo, controla o Fulham desde 2013. No entanto, suas áreas de investimento são amplas. Nascido em uma família de classe média, o magnata construiu sua fortuna a partir de seus próprios empreendimentos, após se formar em engenharia na Universidade de Illinois. Hoje, possui um império na indústria automotiva, assim como administra o Jacksonville Jaguars, da NFL. E o seu principal interesse se concentra no uso de Wembley para o futebol americano.

Em nota publicada pelo site do Fulham, Khan esclarece a questão. “Os Jaguars jogaram em Wembley nas últimas cinco temporadas da NFL e continuarão ao menos até 2020. Os jogos no estádio são essenciais à estabilidade financeira dos Jaguars em Jacksonville, um dos menores mercados da liga. Meus interesses são para proteger a posição dos Jaguars em Londres, quando outras franquias da NFL se tornam mais interessadas na cidade. E quanto mais fortes estiverem os Jaguars em Londres, mais estável e promissor será o futuro em Jacksonville”, escreveu.

Khan também afirma que a venda trará benefícios à Football Association, responsável pelos cuidados de Wembley. Segundo o paquistanês, a fortuna paga no estádio servirá para que a entidade foque em sua missão de desenvolver jogadores e técnicos. Além disso, o magnata indica que a seleção inglesa poderá continuar mandando os seus jogos no velho templo.

Não fica claro se a FA terá que pagar uma taxa por isso ou mesmo pelas decisões das copas e dos acessos. Todavia, o empresário demonstra uma compreensão sobre a maneira como a continuidade destas partidas manterá a aura (e o valor) de Wembley aos ingleses. Especialmente as finais dos clubes, que acontecem em um momento prévio à temporada da NFL, não devem sofrer interferência. Já os jogos da seleção no segundo semestre tendem a rodar por outros estádios do país, uma novidade sinalizada anteriormente pela FA.

O negócio de Khan será independente, sem ligação com o Fulham. O staff interno dos londrinos já estava ciente das intenções do presidente há meses. Segundo o empresário, isso não irá interferir nos investimentos sobre o clube. Além disso, os Whites continuarão jogando em Craven Cottage – o estádio com o setor de arquibancadas mais antigo da Football League e que costuma dar um charme especial às partidas da equipe. Neste momento, o Fulham briga pelo acesso à Premier League. Está na terceira colocação da Championship, a um ponto da zona de acesso direto, restando duas rodadas para o final da competição. A promoção dos Cottagers poderia até mesmo reforçar as credenciais do paquistanês.

A BBC afirma que Khan poderia pagar £500 milhões por Wembley, enquanto a Football Association seguiria cuidando de camarotes, instalações comerciais e outros negócios de hospitalidade do estádio, avaliados em £300 milhões. De acordo com os últimos resultados financeiros da entidade, ela ainda deve £113 milhões a entidades públicas do Reino Unido e de Londres, relativos à construção do estádio. Em janeiro, a FA declarou que o pagamento total das obras está previsto a 2024. O negócio com o paquistanês poderia acelerar o processo.

A partir de agora, a Football Association tem uma decisão enorme a tomar. Sem dúvidas, o dinheiro poderia auxiliar o desenvolvimento do futebol de base no país, se bem usado. Além disso, livraria a FA das preocupações com a manutenção de Wembley, um estádio que costuma ficar inativo durante a maior parte do ano – exceção feita a esta temporada, com a locação do Tottenham. Cabe lembrar que, no passado, a reforma do estádio gerou diversos entraves à federação, sobretudo quanto ao custeamento das obras. Os atuais programas comerciais ajudam a contornar os gastos, mas a venda poderia impulsionar o fim das dívidas – e, consequentemente, o aumento dos juros. Talvez a maior resistência quanto à venda de Wembley está no “patriotismo” que o templo suscita. Mas em um momento no qual o futebol inglês está tomado por investidores estrangeiros, o estado enxuga investimentos públicos na área esportiva e o próprio Estádio Olímpico de Londres representa outro desafio, não parece má ideia cedê-lo a Khan e à NFL. Seria uma maneira de tornar a catedral universal a novas crenças esportivas.