A seleção brasileira tem sido um arremedo coletivo. Há quem diga, com alguma razão, que o esquema tático é 4-2-3-bola-no-Neymar. De fato, o craque do Barcelona assume a responsabilidade, decidiu contra a Croácia e contra Camarões quando o Brasil estava se complicando. Por isso, é justificável o desânimo do País após a notícia de que o craque fraturou uma vértebra e perderá o resto do Mundial.

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Por isso, veja o impacto dessa contusão em diferentes aspectos, e até como é possível reduzir esse problema.

Técnico

A perda é enorme, até porque, ao contrário do que ocorreu com o Brasil ao perdeu Pelé em 1962, a Seleção não tem um Garrincha para assumir a responsabilidade e um reserva como Amarildo. Neymar é o único jogador ofensivo acima da média, o jogador responsável por decidir a partida em um dia inspirado.

Não há como substituir. O Brasil tem bons jogadores no banco, mas nenhum fez uma Copa particularmente boa quando teve oportunidade e nenhum com a característica de pegar a bola e avançar por conta própria para quebrar a marcação adversária e criar espaços (o atacante brasileiro com características mais parecidas, ainda que com qualidade inferior, é Lucas Moura, que não foi convocado).

A tendência é a Seleção abraçar um estilo mais guerreiro e lutador, deixando as esperanças de praticar um futebol bonito ainda menores.

Tático

Há várias possibilidades. O mais tradicional seria colocar Willian no lugar de Neymar, mas o ex-corintiano poderia cair para a esquerda, onde foi bem no Shakhtar Donetsk. Isso deslocaria Oscar para o centro e Hulk para a direita. Nesse aspecto, os jogadores até ficariam em posições em que se sentem melhor (Hulk está perdido na esquerda, pois não consegue cortar para dentro e arrematar com a canhota).

Bernard seria uma opção para deixar o time menos criativo e mais rápido. O ex-atleticano fica pela esquerda, Oscar no meio e Hulk na direita. O time perderia capacidade de armação, mas seria uma formação para apostar em contra-ataques.

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Se Felipão achar mais prudente mudar o estilo de jogo para proteger mais a defesa e tentar ganhar por placares apertados, uma possibilidade seria colocar três volantes. Luiz Gustavo ficaria mais atrás e Paulinho e Fernandinho sairiam mais. O time ficaria muito pesado, lento, mas melhoraria a marcação no meio. Com Hernanes no lugar de Paulinho, haveria até um pouco mais de saída de bola.

Ah, e a chance de o Brasil jogar sem centroavante praticamente morre. Neymar é o jogador de meio com mais capacidade de se transformar em um atacante móvel com potencial de decidir. Sem criatividade no meio, tentar usar a altura de Fred para as bolas paradas se torna uma estratégia mais importante do que já é.

Psicológico

É difícil prever como a ausência de Neymar será digerida pelo elenco brasileiro e Felipão terá de trabalhar para direcionar de forma positiva a notícia. O impacto imediato tende a ser ruim, a sensação de que o cara que decidiria o título em favor do Brasil não estará mais em campo. Mas há alguns pontos a se trabalhar, para ao menos reduzir o impacto técnico e tático:

1) Reduz o risco de Maracanazo (ou Mineirazo).

Perdendo seu melhor jogador por uma entrada desleal de um adversário, o grupo deixa de ter uma responsabilidade tão grande. Há, digamos, uma desculpa bastante convincente para o caso de derrota para a Alemanha nas semifinais ou para Holanda ou Argentina na final. A Seleção virou vítima das circunstâncias. A torcida e a imprensa entenderão isso e, se o Brasil perder seu segundo título em casa, o bode expiatório da vez provavelmente será um lateral colombiano. A chance de algum jogador atual ser estigmatizado é bem menor e uma derrota não deve levar a imagem de tragédia e fracasso como em 1950.

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2) A responsabilidade é dos outros

O Brasil já vem cambaleando na Copa, mas ainda tinha nas costas a responsabilidade de conquistar o título que lhe escapou em 1950. Agora, alemães, holandeses e argentinos passam a ter a obrigação de vencer os brasileiros. Afinal, a Seleção já vinha mal com Neymar, sem ele passa a ser visto como um time mediano. Talvez nem seja, mas essa será a percepção geral e Felipão terá de trabalhar para jogar o favoritismo para os outros.

3) “Jogar pelo companheiro”

É uma das coisas mais batidas do universo (e os filmes de esporte de Hollywood sempre nos fazem lembrar disso), mas sempre acontece e serve para motivar um time. Quando algum companheiro ou alguém próximo à equipe tem algum problema, os colegas se motivam para dedicar uma campanha gloriosa a ele. É algo mais periférico, mas certamente haverá algum comentário nessa linha.

O que a história diz?

É difícil fazer projeção do que o Brasil pode fazer sem Neymar com base no passado. Desde a estreia do atacante pela Seleção, em amistoso contra os Estados Unidos em 2010, ele ficou de fora de apenas cinco partidas, todas sob o comando de Mano Menezes e apenas uma contra um adversário forte.

07/out/2010 – Irã 0×3 Brasil
11/out/2010 – Brasil 2×0 Ucrânia
09/fev/2011 – França 1×0 Brasil
10/nov/2011 – Gabão 0×2 Brasil
14/nov/2011 – Brasil 2×0 Egito