Nesta terça, a torcida do Atlético Mineiro ganhou um motivo para elevar sua consideração por Otero, pouco depois da eliminação do time na Copa Sul-Americana. O venezuelano concedeu uma entrevista com os olhos cheios de lágrimas, prontas a desaguar, enquanto deixou bem claro que não estava para papo naquele momento, por mais que o repórter insistisse nas perguntas. Era natural que a frustração se evidenciasse. O Galo lutou até o último minuto pela classificação no Estádio Independência. Após a derrota por 1 a 0 na Argentina, contudo, o empate por 0 a 0 em BH acabou determinando a queda diante do San Lorenzo. Uma despedida que é sentida de diferentes maneiras entre os próprios atleticanos, de torcedores a membros da diretoria.

O comando do Atlético, desde o princípio, tinha sua avaliação particular sobre a importância do jogo. O técnico Thiago Larghi escalou uma equipe repleta de reservas, independentemente das necessidades após o revés em Buenos Aires. Quando a bola rolou, porém, o Galo não deixou de brigar. Foi mais time que o San Lorenzo, criando as melhores oportunidades desde o primeiro tempo. O jovem atacante Alerrandro, sobretudo, incorporava o espírito de uma equipe que não afrouxou sua postura. Os mineiros iam buscando o gol, embora faltasse um pouco mais de capricho nas conclusões, também com boas defesas do goleiro Nicolás Navarro.

Aos 25 minutos do segundo tempo, um lance capital. Erik (que perdera um bom número de gols) cruzou e a bola bateu no braço aberto do zagueiro Fabricio Coloccini, em reclamação de pênalti não acatada pela arbitragem. De qualquer maneira, o Galo seguiu sufocando. Nos minutos finais, até mesmo Victor subiu ao ataque para tentar o milagre, e duas vezes. As cobranças de falta de Otero, entretanto, não resultaram no gol que forçaria a disputa por pênaltis. Restava apenas aceitar a eliminação precoce na competição continental.

Falta de vontade não foi um problema do Atlético na noite. Isso se escancarou na intensidade do time, que mesmo com tantos reservas poderia ter avançado. A vontade aflorada, aliás, também se viu em tantos outros momentos. No princípio de confusão, que gerou empurra-empurra na lateral do campo; no desespero de Victor e de seus companheiros durante os minutos finais; nas reclamações acaloradas com o árbitro pelo pênalti negligenciado, já depois do apito derradeiro; nas lágimas de Otero, abatido pela queda.

Na saída do estádio, outros personagens relevantes tomaram os microfones. O técnico Thiago Larghi justificou sua opção pelos reservas como uma maneira de evitar o desgaste do elenco e viu sinais positivos na atitude dos escolhidos. Uma análise compreensível, ainda que seja passível a discordância. A entrevista de Sette Câmara ao Fox Sports, por outro lado, causa um ruído bem maior. O dirigente praticamente celebrou o adeus na Sul-Americana, chamando o certame de “segunda divisão da Libertadores”. Disse que a decisão de escalar os reservas foi a melhor, pois “é um torneio que paga pior e dá mais trabalho de logística”, além de indicar que a despedida diminui a maratona de jogos ao Galo. “Estes que estão protestando vão ser os mesmos que gritarão meu nome quando formos campeões e vão dizer que eu estava certo”, arrematou, pontuando que o time está jogando bem – uma visão distante da unanimidade.

Parte dos argumentos de Sette Câmara têm sua validade. De fato, a exigência física sobre o Atlético será menor e a Conmebol não ajuda a cobrir gastos em deslocamentos na competição. Todavia, há também uma dose de oportunismo que irrita parte dos torcedores atleticanos. Neste momento, o Galo não está em condições de desprezar qualquer chance de título. Não sabe como será a sua sequência no Brasileiro e não se afirmou na Copa do Brasil, diante das exibições oscilantes. Em uma temporada que soa como incógnita, até pela austeridade maior, confiar nos reservas durante um compromisso tão importante não pegou bem.

Afinal, a Sul-Americana segue sendo uma copa internacional, que pode agregar à imagem do clube além das fronteiras e que se valoriza a cada ano, até por oferecer uma vaga na Copa Libertadores. Seria uma taça bem-vinda aos mineiros. Em contrapartida, a direção mostra ser preferível se jogar na incerteza a manter uma oportunidade a mais de buscar um troféu – e numa época da temporada na qual não teria impactos mais evidentes se deixasse para poupar na Série A. Considerando que a competição continental incha o calendário a conta gotas, fase após fase, as consequências de valorizá-la um pouco a mais a esta altura não parecem tão penosas.

A conversa do dirigente, de qualquer forma, gera alguns questionamentos em relação às outras pessoas que fazem o Galo. De que valeu então empenho dos jogadores durante aqueles 90 minutos, se a Sul-Americana não importava? Ou por que os 13,5 mil pagantes se deslocaram ao Independência e gastaram o seu dinheiro para apoiar o time? Existem adeptos das colocações de Sette Câmara, o que é normal. Ainda assim, elas soam como se tentassem convencer quem discorda do mandatário – o que não colou, em meio a uma boa dose de prepotência. Isso tudo aumenta a cobrança ao redor dos atleticanos. É ver como o time corresponderá ao longo do Brasileirão e da Copa do Brasil, onde não há margem de manobra.