A torcida brasileira tem alguns meios de pressionar a CBF (Foto: AP)

O que você pode fazer para mudar a CBF e o futebol brasileiro

Difícil dizer o que o torcedor da seleção brasileira sentiu ao ver tantas bolas chutadas por alemães passarem por Júlio César e morrerem no fundo das redes do Mineirão. Um misto de revolta com tristeza e choque, talvez, mas, principalmente, impotência. Porque aquele que realmente sofre com as derrotas e as humilhações do Brasil tem muito pouco poder para consertar os problemas visíveis do futebol brasileiro. Aparentemente são ignorados, pois as escolhas para tocarem o próximo ciclo da Copa do Mundo foram Gilmar Rinaldi e Dunga. Goste ou não dos nomes, independente da competência e do nível de preparação deles, a questão é que tudo parece um enorme mais do mesmo.

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Quem tem esse poder é a CBF, uma entidade privada que não utiliza dinheiro público para operar e, portanto, não está sujeita à intervenção governamental. Administra, é verdade, um patrimônio cultural dos brasileiros, mas essa é outra discussão. Os votos que elegem os representantes vêm das 20 equipes da primeira divisão e das 27 federações. No máximo, o torcedor influencia na escolha do presidente do clube, nos casos em que há eleições diretas (a maioria dos grandes). Uma influência muito distante e diluída. Efetivamente, a participação popular na escolha do presidente da entidade não é muito maior que a de uma borboleta na formação de um furacão. “O presidente da CBF deveria ser escolhido pelo povo”, disse o ex-jogador Paulo César Caju ao jornal O Globo. “O país está atravessando um período de mudanças profundas. Além de cobrarmos saúde, educação, dignidade e igualdade social, também devemos brigar por mudanças no comando do futebol, esporte idolatrado pelo povo.”

Mesmo sem o poder voto, há algumas coisas que o povo pode fazer. Em 2011, cerca de seis meses antes da renúncia do então presidente Ricardo Teixeira, centenas de pessoas foram às ruas com cartazes e faixas pedindo a saída dele. Eram 400 no vão do Masp em São Paulo e outros tantos em Belo Horizonte, Porto Alegre e Rio de Janeiro, até no sorteio do grupo das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2014. Não foi definitivo, mas contribuiu, junto com as denúncias de corrupção da ISL, para que o cerco se fechasse em torno de Teixeira.

Manifestações contra Ricardo Teixeira foram às ruas em 2011 (Foto: AP)

Manifestações contra Ricardo Teixeira foram às ruas em 2011 (Foto: AP)

“Você se lembra do que Marco Polo falou? Não deu a menor bola para manifestações. Esses caras não temem isso, o jogo é na esfera política”, pondera Fernando Ferreira, especialista em gestão e marketing esportivo e diretor da Pluri Consultoria. Marco Polo Del Nero, presidente da CBF a partir de 2015, disse que as manifestações de junho do ano passado foram realizadas por uma minoria e que “199 milhões estão trabalhando”. Estava realmente mais preocupado com os impactos que isso poderia trazer para o turismo durante a Copa do Mundo do que com qualquer mudança significativa.

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Mas, naturalmente, a CBF não era o foco dos protestos, que reclamavam mais da Fifa. Seria diferente se milhares de pessoas acrescentassem os nomes de Marin ou de Del Nero aos gritos que exigiam mais recursos para saúde e educação. Os insatisfeitos também poderiam, como pediu o Bom Senso FC em um comunicado (veja box abaixo) levar faixas irritadas aos estádios durante os jogos do Campeonato Brasileiro – se não forem censurados, como os torcedores do Náutico – pedindo mais democracia na CBF.

“Você, torcedor brasileiro, que tem perguntado como ajudar, como participar da construção do nosso próprio legado da Copa, vá ao estádio nesta quarta-feira quando recomeça o Brasileirão – e leve um cartaz ou uma faixa pedindo: Democracia na CBF, já!”

Assim como o movimento, Ferreira também quer o colégio eleitoral seja ampliado, para abranger também os jogadores, os técnicos e outras pessoas que fazem parte do negócio. Quanto mais eleitores, mais diversos são os interesses e o lobby político de bastidores fica mais difícil. Mas ele sabe, e o Bom Senso também, que o único homem capaz de fazer isso, neste momento, seria José Maria Marin, historicamente pouco afeito à democracia. De qualquer forma, teria que ser o presidente da CBF alterando o estatuto para contrariar os próprios interesses.

A solução seria alguém de oposição – realmente de oposição – começar a trabalhar para derrubar o grupo de Marin, que está no poder desde 1989. Nas eleições deste ano, Andrés Sánchez esboçou um movimento nesse sentido. O candidato seria Francisco Noveletto, da Federação Gaúcha. A chapa foi anunciada no final de janeiro e diluída no começo de fevereiro porque não conseguiu angariar o mínimo de assinaturas necessárias para ser o adversário de Del Nero. São necessários os apoios de oito federações e cinco clubes. A tentativa durou quinze dias.

Fernando Ferreira quer um ex-jogador de futebol. Alguém com legitimidade, como Zico ou Raí, comparando com os europeus, que elegeram Michel Platini presidente da Uefa. Alguém que consiga, de fato, amarrar os apoios das federações, vencer os situacionistas e executar uma profunda mudança de estatuto. Projeto que deveria estar começando a ser preparado para 2018. “O poder constituído em federações só é rompido por ex-atletas. Eles conseguem sentar com alguns desses eleitores e prometer uma mudança estatutária que destinaria ‘x’ para as federações em contrapartida a um plano de metas que desenvolva o futebol regional”, exemplifica. “Não pode ficar fora do ringue, dizendo que não dá para lutar porque ele morde e puxa o cabelo. Está na hora de desenvolver uma estratégia”.

Sugere que a responsabilidade de fazer isso caberia bem ao Bom Senso, que sequer cogitou seriamente um candidato para as eleições de 2014. A Trivela entrou em contato com a assessoria de imprensa do movimento para descobrir os planos em relação ao pleito de 2018, mas não foi respondida até o fechamento desta reportagem.

Até lá, é necessário que a pressão cresça para cima da CBF. No Palácio do Planalto, a presidenta Dilma Rousseff reuniu-se com o Bom Senso FC na última segunda-feira e um dos assuntos foi justamente o descompromisso da entidade com o futebol brasileiro, exceto a Seleção. Em maio, conversou com alguns jornalistas esportivos e simpatizou com a ideia de os clubes romperem com a CBF e formarem uma liga. Acima de tudo, como militante contra a ditadura militar, sente muita antipatia por Marin, governador biônico de São Paulo e com ligações muito íntimas com o regime.

Dilma Rousseff, presidenta do Brasil, reuniu-se com o Bom Senso (Foto: AP)

Dilma Rousseff, presidenta do Brasil, reuniu-se com o Bom Senso (Foto: AP)

Outras figuras importantes e influentes – na realidade, talvez mais do que todas as outras – são aqueles que assinam os cheques. Principalmente a emissora de televisão dona dos direitos de transmissão. Não interessa à Rede Globo que a seleção brasileira passe tantos anos sem um título mundial, nem que os clubes definhem. Ela pode exigir mudanças, mas é difícil saber qual será a sua estratégia. “A Rede Globo certamente tem um poder”, começa Fernando Ferreira. “Mas ela é um ator privado. Pode simplesmente dizer: compro o produto e estou vendendo e daqui a pouco quero desconto. Ela tem poder como maior investidora do futebol brasileiro? Tem. Ela quer exercer esse poder? Não sei”.

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Há também os patrocinadores, que contribuíram para um faturamento de R$ 436,5 milhões em 2013. São 14 empresas, facilmente identificadas ao pé da página oficial da CBF. Essa também pode ser uma arena fértil para o torcedor comum influenciar as mudanças que o futebol brasileiro precisa. Por que não pressionar os parceiros comerciais da entidade até que eles se reúnam com a cúpula da entidade e cobrem por mudanças efetivas? “O que posso garantir é que há uma movimentação dos patrocinadores. Está todo mundo incomodado com a situação a que chegamos. Quando chega a um ponto desse, a chance de mudança aumenta. Se tem alguma coisa que faz diferença nesse jogo, é quando quem assina o cheque está disposto a chamar os caras para sentar. Nada traz tanta racionalidade para o sistema”, afirma Fernando.

A CBF não aparenta se preocupar tanto com a manutenção da continuidade, mas sabe que as circunstâncias são importantes. Tanto que o último ato de Ricardo Teixeira no poder foi antecipar as últimas eleições – que elegeram Del Nero a partir de 2015 – para abril deste ano, antes da Copa do Mundo. Sabia que uma catástrofe poderia fazer a diferença a favor de um grupo de oposição. Foi uma medida quase premonitória.

A verdade é que a Copa do Mundo, por melhor que tenha sido dentro e fora de campo, também escancarou várias deficiências. Mais do que a goleada que a Alemanha aplicou, o torcedor brasileiro consciente sabe que não consegue assistir a partidas tão boas quanto as do torneio – nem perto disso – e percebeu que a Seleção está, há algum tempo, sendo comandada por ideias e pessoas atrasadas e retrógradas. Gostaria, como todo apaixonado, que a tristeza transformasse-se em felicidade o mais rápido possível e fica angustiado com a ausência de boas notícias. O lado bom é que dá para fazer alguma coisa para aplacar o nervosismo e contribuir, nem que seja minimamente, com as mudanças necessárias.