O cruzamento de Ferrari foi feito no desespero, sem pensar muito. O zagueiro fazia as vezes de lateral e recebeu na intermediária e mandou um balão para a área do Vicenza. A bola passou por cima de todo mundo até cair nos pés de Rômulo. O brasileiro, de primeira, acertou um voleio no canto de Vigorito. Era o 50º minuto do jogo e o Verona virava de forma dramática em cima do Vicenza.

Os três pontos não eram obrigatórios porque o time lutava pela promoção e atuava em casa contra uma equipe que estava na zona de rebaixamento. Eram obrigatórios porque esse era o jogo, o clássico. Um dérbi que teve sabor especial para o Verona pela definição dramática, e com um resultado que ajudava a afundar ainda mais o grande rival. Pode perguntar a qualquer torcedor veronês ou vicentino: esse foi o melhor ou pior (depende da preferência clubística, claro) momento de 2017.

A edição mais recente do Dérbi do Vêneto ocorreu em 1º de maio de 2017. Semanas depois, o Verona confirmou o retorno à Serie A e o Vicenza foi rebaixado. Para um helladino, não havia como ter uma celebração mais completa. Afinal, torcer para um clube significa querer que ele vença tudo e que seu rival seja alvo de todas as desgraças dentro de campo. Posso dizer com alguma convicção que todo torcedor já chegou a sonhar com o dia em que seu maior rival simplesmente deixasse de existir. Afinal, seria a humilhação final, a derrota definitiva na disputa. Será mesmo?

Nesta semana, o Vicenza não conseguiu quitar os salários atrasados de seu elenco. Os jogadores já anunciaram que pedirão a rescisão imediata de seus contratos para buscar outros clubes na janela de janeiro. Sem atletas, o Vicenza não terá como entrar em campo neste sábado para enfrentar o Padova pela Coppa Italia Serie C. Exceto por algum milagre, como a descoberta que algum vencedor da Mega Sena da Virada é vicentino fanático e usará seu prêmio para salvar o clube no que resta desta semana, a falência do clube é uma questão de dias.

Festa em Verona? Longe disso. Como torcedor brasileiro do clube auriazul, tenho vários amigos veroneses em redes sociais. E a reação está longe de ser de celebração. O amigo Matteo Fontana, torcedor e autor do livro ‘La maglia gialloblù – storia dell’Hellas Verona attraverso le sue casacche” (“A Camisa Gialloblù – a história do Hellas Verona através de seus uniformes”), resumiu o sentimento em uma postagem no Facebook:

“Reflexão noturna sobre o que aconteceu ao Vicenza: quando desaparece um clube, é sempre uma dor. Porque, não importa se é a equipe pela qual você torce ou seu grande rival, ela deu um sentido a sua vida. Tive tantos esplêndidos amigos torcedores do ‘Lane’, pessoas com as quais dividi emoções, provocações e sorrisos, e posso compreender, ainda que apenas em parte, o sofrimento que estão sentindo agora. O último dérbi do Bentegodi [estádio do Verona], o 3 a 2 para o Verona em 1º de maio passado, foi um hino ao futebol, na alegria dos vencedores e na tristeza dos derrotados. Porque isso é do jogo, ele dá e ele tira. Mas desaparecer, isso não, não é aceitável. Volte logo, Vicenza!”

Sim, volte logo. Eu não tenho conhecidos vicentinos, não tive a experiência básica da rivalidade que é a troca de provocações antes e depois de cada encontro. Minha questão com o Vicenza é mais pragmática, na linha do “quando eles ganham do Verona, a gente entra em crise. E eu não quero meu time em crise. E quando a gente ganha, pega embalo para as próximas partidas”. Esse efeito só o Vicenza realmente tem no Verona.

O Chievo ainda é o clube de bairro que está começando a incomodar. O Vicenza é o grande rival. Até porque, a despeito de um século 21 bastante apagado do clube aurirrubro, os vicentinos têm belíssima história na disputa pelo posto de principal clube do Vêneto. A começar pelo primeiro dérbi, que calhou de ser o primeiro jogo da história do Hellas Verona: vitória do Lane por 1 a 0.

A rivalidade entre as cidades de Vicenza e Verona já era antiga. Vai da relevância regional e envolve até o fato de que William Shakespeare se inspirou em um romance do vicentino Luigi Da Porto para escrever um de seus maiores clássicos, Romeu e Julieta, ambientado em Verona. Naquele primeiro dérbi, ela passou para o futebol.

O Vicenza estreou na primeira divisão em 1910/11, após vencer o Campeonato Vêneto da segunda divisão. Logo em sua primeira temporada, os alvirrubros assombraram. Fizeram 2 a 0 e 7 a 2 no Verona, 6 a 1 e 4 a 0 no Bologna e conquistou o grupo vêneto-emiliano, que valia um lugar na final. Na decisão, os vicentinos perderam para o Pro Vercelli, uma potência da época. Dois anos depois, bateram os rivais veroneses no jogo-extra pelo título do grupo nordeste, mas ficaram em quinto no hexagonal final (à frente apenas do Verona, diga-se). O Pro Vercelli foi novamente o campeão.

As décadas de 1920 e 30 foram duras em Vicenza, com o time caindo até para a terceira divisão. Em 1953, o clube foi comprado pela Lanerossi, uma das maiores empresas têxteis da Itália na época. Com isso, o nome mudou para Associazione di Calcio Lanerossi Vicenza (o nome corporativo caiu em 1990, mas o apelido “Lane” é usado até hoje). Em 1955, com a Serie A já formada em grupo único e pontos corridos, o Vicenza retornou à elite e lá ficou por 20 anos.

Na segunda metade do século passado, o Vicenza foi um dos times mais consistentes entre os pequenos regionais. Não apenas pela assiduidade na divisão principal, mas também por montar alguns bons times e apresentar bons jogadores. Em 1965, o brasileiro Luís Vinícius (ex-Botafogo) foi o artilheiro do Campeonato Italiano com 25 gols, marca superada apenas em 1991 por Marco van Basten.

Após uma rápida queda na década de 1970, o LR Vicenza voltou forte. Em 1976-77, foi campeão da Serie B tendo como artilheiro um garoto de 21 anos: Paolo Rossi. Até aquele momento, Rossi jogava mais pelos lados, posição em que atuou na base da Juventus e em uma temporada como reserva do Como. No Vicenza, o técnico Giovan Battista Fabbri percebeu que ele rendia mais como centroavante, e o jogador decolou.

Na temporada seguinte, Rossi foi artilheiro da Serie A e comandou os vicentinos a um ano espetacular, que terminou com o vice-campeonato italiano. Até hoje, é a melhor campanha de um caçula na Serie A (nem Juventus e Milan foram tão bem quando retornaram à elite) e igualou o desempenho do próprio Vicenza de 1911 como o melhor de um clube do Vêneto na história (marca que caiu com o título do Verona em 1984/85).

A queda, porém, veio rápido. Apenas um ano após o vice-campeonato, os alvirrubros foram rebaixados à Série B. Depois disso, foram quase duas décadas de ostracismo, com a Lanerossi deixando de investir, duas quedas para a Série C1 e quase uma queda para a Serie C2 (salvou-se na repescagem). Ainda assim, o Vicenza ainda teve um motivo de orgulho. Em 1982, o time lançou um jovem de 15 anos saído de sua categoria de base: Roberto Baggio. O meia não teve chance de defender o clube na Serie A, algo que conseguiu apenas em 1985, quando foi vendido à Fiorentina, mas se juntou a Rossi como dois dos maiores nomes do futebol italiano que foram lançados pelos vicentinos.

O cenário só mudou na segunda metade dos anos 90, com uma nova fase de glórias em Vicenza. Sob o comando de Francesco Guidolin, o clube retornou à elite em 1995/96, terminando em um competente nono lugar. Mas os grandes momentos vieram na temporada seguinte.

Na abertura da Serie A 1996/97, o Vicenza fez 4 a 2 na Fiorentina de Batistuta com um pôquer (quatro gols) do uruguaio Marcelo Otero. Depois, vieram vitórias sobre Juventus e Lazio e, na décima rodada, uma vitória sobre a Reggiana colocou o clube na primeira posição. A liderança não durou muito, mas o bom futebol, sim. Na segunda metade da temporada, os vicentinos venceram Internazionale e Milan e talvez terminassem melhor no Campeonato Italiano (ficaram em oitavo) se não se dividissem atenções com a Copa da Itália.

Foi no mata-mata que veio a maior conquista dos alvirrubros. O Vicenza chegou às quartas de final após superar Lucchese e Genoa. Até aí, nada demais. Nas quartas de final, a eliminação contra o Milan era esperada, mas os vicentinos aguentaram dois empates e passaram nos gols fora de casa (1 a 1 no San Siro e 0 a 0 no Euganeo). Na semifinal, um gol de Cornacchini no último minuto valeu o empate no jogo de volta contra o Bologna (1 a 1) e a vaga na final depois do 1 a 0 no Vêneto.

O adversário da decisão foi o Napoli, mandante do jogo de ida. Cada time venceu por 1 a 0 sob seus domínios. Na prorrogação, a torcida vicentina empurrou os alvirrubros, que conseguiram dois gols nos últimos três minutos. Foi o único título de um clube do Vêneto na Copa da Itália.

A conquista valeu uma vaga na Recopa, também conhecida como Copa das Copas. O torneio estava em sua penúltima edição, mas ainda era visto como a segunda competição interclubes mais importante da Europa. O Vicenza passou por Legia Varsóvia (POL), Shakhtar Donetsk (UCR) e Roda JC (HOL) para chegar às semifinais contra o Chelsea de Vialli, Zola, Flo, Poyet e Petrescu. No jogo de ida, na Itália, vitória vicentina por 1 a 0. Em Londres, os Blues se recuperaram e, com o 3 a 1, conquistaram o lugar na decisão (venceram o Stuttgart).

Foi o último suspiro de um grande Vicenza. Na temporada seguinte, os alvirrubros foram rebaixados para a Serie B. Não voltaram mais à elite e viveram crises técnicas e financeiras em sequência. Como o Verona não esteve muito melhor em boa parte desse tempo, os dérbis eram os momentos mais importantes do ano para as duas equipes. Pouco pelo que essas duas agremiações já fizeram pelo futebol vêneto.

Por isso, a provável falência do Vicenza deve ser vista com tristeza. Abandonar uma temporada no meio é melancólico, e ter de renascer de divisões amadoras é ainda pior. Se o legado esportivo não for salvo e o refundado Vicenza for efetivamente um clube iniciado do zero, a história do futebol de uma cidade e uma região será perdido. E isso dói no coração de qualquer pessoa que ama futebol. Mesmo que esse coração vibre pelo principal rival.