Falar em dinastias parecia coisa do passado no futebol europeu. Dava para se lembrar do Real Madrid pentacampeão da então Copa dos Campeões entre 1955/56, a temporada inicial do torneio, e 1959/60. Dava para se lembrar do Ajax tricampeão, entre 1970/71 e 1972/73 – seguido imediatamente pelos três títulos do Bayern de Munique, entre 1973/74 e 1975/76. Em menor escala, era possível até citar dois bicampeonatos ingleses em sequência (Liverpool, em 1977 e 1978, e Nottingham Forest, nas duas temporadas seguintes), mais o Milan soberano em 1989 e 1990. E nada indicava que isso voltaria a acontecer, a curto e até a médio prazo. Até este Real Madrid de agora, o primeiro tricampeão continental desde 1992, quando começou a fase moderna da Liga dos Campeões.

Mas esse tricampeonato europeu dos Merengues talvez tenha algo de diferente em relação aos outros: o questionamento sobre a capacidade e os motivos dele ter acontecido. Até pela falta de registros históricos acessíveis, os outros grandes campeões continentais da Europa costumam ser exaltados ao longo dos tempos. Do Real campeoníssimo dos primeiros anos da Copa Europeia, fala-se dos grandes nomes e de como jogavam: José Santamaría, Raymond Kopa, Alfredo di Stéfano, Francisco “Paco” Gento e, nos últimos dois anos, Ferenc Puskas.

Depois, no Ajax, desnecessário lembrar todos os jogadores que, comandados pelo primus inter pares Johan Cruyff, começaram a fazer o futebol olhar para a Holanda – e que tiveram numa das finais europeias, contra a Internazionale, no 2 a 0 do título em 1971/72, uma das melhores atuações do chamado Futebol Total. Lembrar do Bayern de Munique tricampeão é lembrar de Franz Beckenbauer, de Sepp Maier, de Hans-Georg Schwarzenbeck, de Gerd Müller, do Karl-Heinz Rummenigge que surgia. Merecem lembrança Phil Neal, Terry McDermott, Kevin Keegan e os nomes que levaram o Liverpool ao bi, comandados por Bob Paisley – técnico histórico, assim como Brian Clough e seus métodos ortodoxos de comandar o Nottingham Forest do bicampeonato que se sucedeu ao dos Reds, com nomes como Peter Shilton e Trevor Francis. Finalmente, da dinastia europeia derradeira – o Milan bicampeão -, ficaram as atuações assombrosas do trio de holandeses, a capacidade técnica de Roberto Donadoni, a classe de Franco Baresi, o refinamento da marcação por pressão no estilo tático de Arrigo Sacchi. Poucos questionamentos eram ouvidos. Só havia e há elogios. Não se fala que tais multicampeões deixavam o futebol “sem graça”. As falhas que eles tinham ficavam em segundo plano.

Não é o caso deste Real Madrid, seguido de muito perto por torcedores, imprensa, com jogos transmitidos pela tevê e comentados mídias sociais afora. Muito se desdenha dele. Muito se duvida dele. Que as arbitragens o ajudam. Que Sergio Ramos segue à risca o “ensinamento” do ex-zagueiro francês Basile Boli: “Bata antes que te batam, mas bata discretamente”. Que Karim Benzema já não é o que um dia foi. Que Zinedine Zidane ainda não convenceu as pessoas de suas capacidades táticas. Que o próprio Real Madrid fez campanha irregular, no Campeonato Espanhol desta temporada. Que jogadores capazes de serem titulares em qualquer outro graúdo europeu, como Marco Asensio, ainda são relegados a “opções de elenco”.

De certa forma, tudo isso é verdade. Ainda assim, o tricampeonato conquistado neste sábado em Kiev mostrou que está de volta ao Real Madrid algo que pareceu afastado pelos 32 anos sem conquistas europeias, entre 1966 e 1998, ou pelas sucessivas eliminações da década passada (quem ainda lembra da “maldição das oitavas”?): o “espírito de Champions”. Certo, é algo impalpável demais para ser debatido. Mas… ele está lá. E é auxiliado pelo mais fundamental dos fatores: a técnica. É pela técnica que Cristiano Ronaldo, já um dos símbolos do futebol de nossa era, é capaz de crescer tanto nas fases decisivas da Liga dos Campeões. É por ela que Casemiro é um dos discretos mais eficientes do futebol mundial – ele não joga, o marcado por ele também não. É por ela que Toni Kroos e Luka Modric são apontados como dois dos melhores meio-campistas do mundo na atualidade – certo, Kroos errou alguns passes nesta decisão. É por causa da técnica que se aposta que Gareth Bale ainda pode, a despeito da queda de produção, fazer coisas como as que fez no segundo gol madridista. É por causa da técnica que Marcelo, cada vez mais, justifica os aplausos por sua habilidade na lateral esquerda.

Mas além dos fatores “externos” e da técnica, este Real parece ter uma outra qualidade que justifica a dinastia conquistada: por incrível que pareça, os jogadores menos capazes são humildes o bastante para fazerem apenas o que sabem, sem ousadias. Se a época dos “Galácticos” começou prescindindo imediatamente de Fernando Hierro e do técnico Vicente del Bosque para achar que importava mais deixar o planeta mesmerizado pelas atuações de Roberto Carlos, Zidane, Luis Figo e Ronaldo, agora Florentino Pérez, o mesmo presidente da época, parece enfim ter aprendido a lição. E traz jogadores que, se não são excelentes, cumprem seu papel, sabem ser os “coadjuvantes” de que todo time histórico precisa.

É, é isto: faltavam os “cumpridores”, na década passada. Não faltam agora, com Keylor Navas, Dani Carvajal, Raphaël Varane, Nacho, Theo Hernández, Lucas Vázquez, Mateo Kovacic. De quebra, se Zidane não é um estrategista (mas tem evoluído), vai mostrando habilidade em outra grande qualidade exigida dos técnicos atuais: conter crises, manter o ambiente nas condições aceitáveis. Claro: poucos arranjariam briga contra um símbolo de sua época no futebol, contra aquele que começa a se aproximar de Di Stéfano no papel de estandarte da história madridista, contra aquele que é o primeiro técnico tricampeão europeu em sequência.

Agora, os tempos são outros. As críticas ecoam mais do que os aplausos, talvez até com justiça – Sergio Ramos que o diga. Mas daqui a algum tempo, pode se firmar a imagem que ficará: enfim, de novo, a Liga dos Campeões vive uma dinastia. Para os que acham dinastias chatas, fica o consolo: elas sempre acabam, mesmo nesta encruzilhada em que o futebol parece brinquedo de poucos.