Quase 26 mil torcedores lotaram o Stade de la Meinau neste domingo. Não era uma questão de ver apenas o duelo entre Strasbourg e Lille pelo Campeonato Francês. Era a oportunidade de celebrar o ressurgimento de um dos clubes mais tradicionais do futebol local. Depois de nove anos, o centenário estádio – palco da Copa do Mundo de 1938 e da Eurocopa de 1984 – voltava a receber um jogo da elite nacional. Neste intervalo, o gramado abrigou partidas até mesmo da quinta divisão francesa. Mas os fiéis às arquibancadas testemunharam uma das reconstruções mais marcantes das últimas décadas, com os alsacianos conquistando o título de cada um dos quatro níveis inferiores até se recolocarem na Ligue 1, da qual já foram campeões em 1979. O lugar ao qual realmente pertencem.

A trajetória do Strasbourg nos últimos anos não se diferencia do calvário vivido por vários times tradicionais ao redor da Europa. Dono de 56 participações na primeira divisão, o clube da Alsácia foi figurante costumeiro nas copas europeias, chegando a desbancar adversários como Milan, Barcelona, Liverpool e Rangers. Já o seu declínio se acentuou desde o início do século, entre as muitas mudanças de donos, que aumentavam o rombo nas finanças – mesmo com a conquista da Copa da França em 2001, tempos nos quais José Luis Chilavert brilhava na meta alviazul e conduziu a glória no Stade de France contra o Amiens.

A crise financeira tornou o Strasbourg mais suscetível aos rebaixamentos. A última aparição nos torneios continentais veio em 2005/06, chegando às oitavas de final da antiga Copa da Uefa. O sobe e desce aumentou a bola de neve, culminando na queda livre a partir de 2008. Rebaixado na Ligue 1, o clube caiu também na Ligue 2 duas temporadas depois. Não ficaria um ano na terceirona. Declarou falência em 2011, perdeu o status profissional e precisou recomeçar na quinta divisão, o último nível nacional da pirâmide do Campeonato Francês. A ascensão, todavia, conseguiu ser ainda mais meteórica.

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Apesar do drama, a torcida não deixou de acompanhar o Strasbourg. O público não era tão bom quanto em outros tempos, mas os alsacianos iam quebrando recordes. Chegaram a levar 11 mil pessoas em um jogo da quinta divisão, enfrentaram times de vilarejos cuja população poderia caber inteira no Stade de la Meinau. E o primeiro acesso veio com sobras, somando 100 pontos na liga regionalizada. No ano seguinte, mais uma campanha massiva na quarta divisão, embora sem a mesma folga. Mais um acesso. Torcer para os alviazuis, mais do que uma questão de respeitar o coração, era uma maneira de exaltar o orgulho local. Por todo o histórico da Alsácia, fundamental para a geopolítica local, apoiar a redenção tinha um significado além.

Já a partir de 2013/14, a vida do Strasbourg na terceirona esteve longe de ser simples. Na primeira temporada, o time terminou a duas posições na lanterna e só foi salvo do rebaixamento pela bancarrota de outro integrante do campeonato. Depois, na segunda tentativa, a crueldade seria diferente: o acesso não aconteceu por um ponto. Somente na terceira empreitada na terceirona é que os alviazuis puderam comemorar. Consumaram o retorno à segunda divisão, outra vez campeões.

O líder do feito era ninguém menos do que Jacky Duguépéroux, capitão no título nacional de 1979. O antigo meio-campista já tinha passado outras duas vezes como técnico no Stade de la Meinau e, em ambos os períodos, saiu campeão. Conquistou a Copa da França e a Copa da Liga nos anos 1990, além de repetir o feito na Copa da Liga em 2005, o último título de primeira grandeza dos alviazuis. Apesar do pragmatismo visto em campo, o velho ídolo transformava mais uma vez o empenho em medalha de ouro no peito. E a devoção se convertia nas arquibancadas, com média na casa dos 15 mil presentes por partida. A torcida abraçava, com programas de incentivo também à presença de mulheres e de crianças no estádio.

A partir volta à segunda divisão apontava para um planejamento passo a passo. Mais do que uma nova etapa na escalada, a Ligue 2 representava o retorno do Strasbourg aos níveis profissionais do país, o que demandava um planejamento minucioso. Contudo, o sucesso na competição antecipou a ambição. O time passou as 30 primeiras rodadas na parte superior da tabela, rondando a zona de acesso. E os alsacianos conseguiram ir além com sua arrancada na reta final da competição. Em uma liga extremamente equilibrada, as sete vitórias e três empates nas últimas dez rodadas impulsionaram os alviazuis ao topo da tabela.

Na insana noite decisiva, que fechou a temporada da Ligue 2, o triunfo sobre o Bourg-en-Bresse valeu não apenas o acesso e a celebração no Stade de la Meinau, como também o quarto título nacional em seis anos. Que fossem pouco condizentes ao passado glorioso do Strasbourg, não diminuíam em nada a sua história. Pelo contrário, apenas exaltavam a capacidade do clube em ressurgir das cinzas, quando muitos temiam um longo período de ostracismo nos níveis inferiores. A recuperação foi absolutamente sensacional.

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Para 2017/18, o Strasbourg fez o seu planejamento com os pés no chão. O time não cometeu grandes apostas no mercado de transferências e mantém basicamente o elenco que conquistou a Ligue 2. Sabe que seu objetivo é permanecer na elite, mas que a diferença tende a ser abissal, até pela ascensão acelerada que atravessou nos últimos anos. E, apesar da goleada sofrida para o Lyon na primeira rodada, a reestreia do Stade de la Meinau não poderia ser mais emblemática. Em um jogo completamente maluco contra o Lille, os alviazuis venceram por 3 a 0. A apaixonada torcida extravasou o seu fanatismo nas arquibancadas, principalmente na chamada ‘The Kop’, onde ficam os Ultra Boys 90, principal grupo de uniformizados dos alsacianos. Festejavam os heróis especiais da ocasião.

Os dois últimos gols do Strasbourg foram anotados por Dimitri Liénard e Jérémy Grimm. Exatamente os dois membros mais antigos do elenco, presentes no clube desde a primeira temporada na terceira divisão, em 2013/14, e que vivenciaram a ameaça do rebaixamento naqueles meses. Grimm, aliás, caiu ainda mais nas graças da torcida ao pedir sua namorada em casamento durante a cerimônia de premiação pela conquista da segundona. Desejo de vida nova que ganha mais um episódio na redenção emblemática, balançando as redes da Ligue 1. Ambos simbolizam a ressurreição de um clube que precisa receber o devido respeito por sua volta por cima. E que, por seus torcedores, merece se restabelecer como foi praxe durante tantas décadas.