SALVADOR - Na calçada à direita da rua Inácio Acciole, nos arredores do Pelourinho, um chileno ajoelhou-se para reverenciar um quadro, que estava encostado na parede de uma loja de arte contemporânea. Não prestou homenagem ao artista, nem à obra, mas à seleção brasileira tricampeã do mundo de 1970, no México. Quem conta a história é Washington Arléo, que tentou captar a genialidade e a mágica daquele time na sua obra, na qual o futebol é tão presente quanto a paixão pelas mulheres, que dita os seus movimentos e inspira as suas criações.

A técnica de Washington é misturar tudo com qualquer coisa. Seus quadros têm mensagens de política, futebol, sexo e crítica. Esse da seleção traz o contraste da seleção de 1970 que, em suas palavras, “tinha um Rei e seus súditos”, com a de 1982, “quando só havia egos”. Ao redor, artistas como Cazuza e personagens como João Saldanha e Nelson Rodrigues. “Se estou pensando na genialidade de Rivellino, cabe Picasso e cabe Cazuza”, diz. “Nelson era um fluminense doente, um carioca fantástico e arrogante”, completa, comprovando a arrogância do dramaturgo ao apontar à frase “não há solidão pior que a companhia de um paulista” no canto superior esquerdo da obra. Custa R$ 10 mil, mas não está disponível imediatamente. Viaja para Nova York em breve para participar de uma exposição e lá custará U$ 10 mil.

Outra obra dele com temática futebolística foi um quadro de três metros, com Neymar como destaque, que foi vendido por R$ 65 mil para um italiano dono de indústria. O comprador disse que era amigo de Marcelo Mastroianni e de Ayrton Senna, tão amigo que encomendou um quadro do ex-piloto morto em 1994, que Washington já está planejando. “Eu tenho uma imagem dele, tirada de baixo para cima, como se ele fosse um Deus”, explica. “Ele estava acima dos normais”.

Para ele, flamenguista nascido em Ituberá e criado em Salvador, o futebol pode ser comparado ao balé, pelos movimentos. “Pense em câmera lenta, o jogador dominando a bola no peito, deixando cair, preparando o chute, batendo de trivela. É um balé perfeito”, explica. E também se destaca a picardia. “São todos homens fortes, preparados, e de repente um moleque como Neymar mete a bola entre as pernas de um deles, humilha”, acrescenta.

Washington também construiu um quadro com Paolo Maldini, pedido de um cliente suíço apaixonado pelo Milan. Mas nele, aproveitou para inserir duas mensagens importantes. Uma crítica aos “artistas medíocres”, dos quais está cansado. “Quando Marcel Duchamp colocou um vaso sanitário em uma galeria de arte, deu liberdade para merda virar arte. Tem que desmistificar o artista. Tem artista que não faz piada, que não se expõe. Você precisa se desconstruir para aprender a criar”, diz.

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A outra é um desabafo. Acabou de se ter uma desilusão amorosa, está de coração partido e colocou esse sentimento na pintura. Acredita que toda grande arte advém da paixão. “Coloquei ‘e as havaianas ficaram guardadas debaixo da cama’, porque ela as deixou lá, e ‘é difícil viver sem você’”, admite. A paixão pelas mulheres fez de Washington um artista e ao mesmo tempo complicou a sua vida. Subiu em um coqueiro, um dia, para pegar um coco para a mãe e a namorada e caiu no chão. Teve fratura exposta e uma vértebra pressionada. Há a chance de um dia ainda ficar paraplégico, por isso, decidiu levar a vida com uma ocupação que pudesse executar sentado.

Mas há alguns anos, apaixonou-se pela mulher de um homem poderoso do comércio de Salvador e mais uma vez sentiu muita dor. “Bateram em mim com soco inglês, quebraram meu rosto, tive que me mudar. Fui embora para Portugal”, conta. E na Europa, adivinhem? “Eu me apaixonei pela filha de um ministro de Estado. Fiz uma exposição para ela, com quadros e poesias. Coloquei a frase ‘amei Inês (o nome dela) como se fosse a Inês de Castro’. Tive problemas e voltei para cá”, completa.

Washington tenta, na verdade, expressar o que acha de si mesmo em suas obras. Como na de Maldini, que contrasta a pureza de uma família de índios à esquerda com a autoridade e a arrogância de uma mulher nua, de saltos altos, à direita. Com o cigarro na mão e óculos escuros nos olhos, entre cabelos grisalhos, uma camisa branca, cuja estampa ele imprime sozinho, e calças jeans surradas e empoeiradas, considera-se “um conjunto de defeitos que harmonizam-se entre si”. Desde que uma mulher bonita não apareça na cena e quebre a harmonia com um soco inglês.