SALVADOR - Quase nada diferencia o Café Gourmet, um restaurante na Praça da Sé, a algumas centenas de metros do Pelourinho, de outros estabelecimentos comerciais que vendem comida e bebida para os turistas que visitam o centro histórico de Salvador. Há mesas de mármore, cadeiras de madeira e a decoração tradicional de época de Copa do Mundo: bandeiras e fitas verde e amarelas que se misturam com as cores da parede e das portas. Ao fundo, as prateleiras suportam itens de cozinha, santinhos religiosos, uma estátua de Jesus Cristo e garrafas de whisky. Nas paredes, quadros com mulheres completamente nuas.

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Quase nada diferencia o Café Gourmet de outros restaurantes, exceto a decoração. São sete quadros, de autoria do pintor Reginaldo Bonfim, retratando prostitutas em bordéis, deitadas na rede ou no colo de marinheiros. Como o principal deles, uma representação da Monalisa de Da Vinci, com seios muito maiores, descobertos, e um charuto na boca, soltando fumaça. O proprietário Alberto Prado, comerciante da região há 40 anos, quis representar o que era o centro de Salvador naquela época.

“Estou aqui há 40 anos. Desde quando eu me entendo por gente, aqui é uma área de meretrizes. O Pelourinho era assim”, conta, com um avental pendurado no pescoço, um boné amarelo e um bigode que poderia muito bem confundi-lo com os portugueses que estão prestes a chegar à cidade para a segunda rodada da Copa do Mundo, na próxima segunda-feira, contra a Alemanha.

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Não era comum as meretrizes ficarem totalmente nuas no meio da rua, mas, em nome da arte, o pintor decidiu representá-las desta forma. Talvez para chocar, certamente para chamar mais a atenção. E consegue, mas também escandaliza. Alguns clientes não têm a sensibilidade necessária para apreciar um Malassado, especialidade da casa, sob o olhar de prostitutas nuas. “Quem não entende de arte, reclama, mas a maioria tira fotos, especialmente os estrangeiros”, afirma.

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O jogo na televisão era Colômbia e Grécia, mas as cadeiras de madeira estavam ocupadas com torcedores de várias nacionalidades, da Coreia do Sul à Guatemala e, no geral, ninguém tem problema com os quadros. “Eu gostei, eu não colocaria um deles na minha casa, mas, para um bar, fica bonito”, diz o holandês Paul van Draaig, dividindo garrafinhas de cerveja com a esposa, comemorando a vitória da sua seleção sobre a Espanha, no dia anterior.

Comerciante por natureza, Alberto teve uma livraria, uma tabacaria e agora toca o restaurante há três anos. “Descobri que tenho o dom da comida”, explica. O grande trunfo do seu Malassado é um molho especial, secreto, segundo ele, que leva cebola, pimentão, salsa e cebolinha. Depois se mistura com o filé mignon e tudo vai para a chapa. Sai por R$ 39 para uma pessoa e R$ 52 para uma dupla. Outro prato que sai muito é a moqueca de carne, comida típica da Bahia.

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Sabe o que também vende¿ Os quadros. Recentemente, Alberto negociou, por um preço entre R$ 4 mil e R$ 4,5 mil a peça, dois com um vice-presidente da Mercedes e outro com um senador de Portugal. “Recebi até uma carta de agradecimento dele”, afirma, orgulhoso, antes de mostrar uma foto com a Regina Duarte, ilustre visitante do restaurante na semana passada, que gostou das pinturas e aproveitou a ocasião para fotografá-las.

Alberto foi embora. Entrou na cozinha. Precisa continuar preparando as refeições dos seus clientes. Mas sem pressa, como avisa com papéis sulfites colados na parede, porque “a magia de degustar um bom prato é respeitar o tempo de preparo”. E se o tempo de preparo for longo demais, tem jogo de Copa do Mundo na televisão e o passado de Salvador nas paredes.


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