Quando os times saíram a campo e o Monumental de Núñez entrou em combustão, o único pensamento que vinha à mente era: “Não há como o River Plate ser eliminado na Libertadores”. Logo no primeiro lance, a primeira chance de gol. A consciência outra vez dizia: “A remontada virá”. Veio, minuto a minuto. Aos oito, o primeiro gol; aos 19, a derrota na ida já tinha troco; aos 36, a virada estava consumada. E o que se viu no segundo tempo foi um massacre dos Millonarios sem qualquer piedade, dobrando o placar que precisavam no início da noite. Se o time de Marcelo Gallardo não teve ímpeto e muito menos sorte na visita ao Jorge Wilstermann, nesta quinta-feira os alvirrubros jogaram com o sangue que se espera de um gigante. Com a alma do tamanho do Monumental e dos 60 mil torcedores que não perderam sua fé, esgotando os ingressos com seis dias de antecedência. A goleada por 8 a 0 é condizente por tudo o que se viveu em Núñez, colocando com todos os méritos o River nas semifinais.

Depenado na visita a Cochabamba, com a derrota por 3 a 0 em partidaça do Jorge Wilstermann, o River Plate mudou para o reencontro em Buenos Aires. Gallardo montou o time em um 3-4-3 bastante ofensivo, apostando em Ignacio Scocco no comando do ataque. Se o veterano tinha perdido dois gols feitos na Bolívia, mantinha o moral com o treinador. Era o homem para liderar a reação dos Millonarios. Assim o fez, com cinco tentos – maior marca da história dos mata-matas da Libertadores – e ainda uma assistência. Partida para a história do veterano.

O próprio Monumental de Núñez parecia disposto a se colocar como um ser vivo, mitológico. O sentimento de muitos torcedores estava ferido, não apenas pela derrota no Félix Capriles, mas também pela escolha da Bombonera para o último compromisso da Argentina nas Eliminatórias. Falta calor da torcida em Núñez? Os Millonarios mostraram o contrário desde antes do início do jogo. O gigante de concreto parecia pronto para se desprender do chão, para pular junto com o restante de sua torcida. Uma força que seria fundamental para os jogadores devorarem os adversários logo nos primeiros minutos, e não perderem a agressividade jamais.

Obviamente, esperava-se muito mais do Jorge Wilstermann, até por aquilo que a equipe tinha feito antes na Libertadores. Claramente era um time mais forte em seu estádio, mas que sabia se fechar e segurar o resultado longe de seus domínios. Não foi o que se viu em Buenos Aires. O River Plate parecia enfrentar adversários do jardim de infância. Não demoraram para colocar os visitantes na roda, com a defesa rival totalmente perdida. Alex Silva, de ótima partida em Cochabamba, era um daqueles que pareciam com a cabeça em outro planeta, muito distante do Monumental. Tudo o que os Millonarios queriam para golear.

As chances de gol iam surgindo por osmose, desde os primeiros instantes, ameaçando a meta de Olivares. E o primeiro gol, aos oito minutos, já deixou clara como seria a partida. Scocco fez o que quis contra a defesa boliviana. Leo Ponzio deu excelente passe em profundidade para o atacante, que aplicou uma caneta desmoralizadora no marcador, antes de driblar o goleiro e bater para a meta vazia. Esqueça qualquer retranca que pudesse se esboçar no Jorge Wilstermann. A equipe não demonstrava a mínima concentração no jogo. Scocco ia doutrinando. O segundo do veterano sairia aos 13, com extrema liberdade. Já aos 19, até sua tentativa de cruzamento acabou nas redes, em bola com curva que Olivares só viu entrar no cantinho.

Neste momento, o Monumental já começava a derreter em meio à comemoração. Ouviam-se os primeiros gritos de olé. Não havia possibilidade de um outro resultado que não fosse uma goleada humilhante. Contavam-se os minutos para que o quarto gol saísse, com as chances pipocando. A defesa boliviana se segurava como podia, a confiança dos anfitriões estava tão alta que arriscavam as finalizações sem qualquer cerimônia. Aos 36, por fim, Scocco atuou como garçom, com uma enfiada de bola na medida para Enzo Pérez mandar às redes.

Mal o juiz apitou o reinício do jogo e a torcida já voltou a gritar olé. Em 40 segundos da etapa complementar, veio o quinto gol, o quarto de Scocco. A tabela envolvente transformou os jogadores do Jorge Wilstermann em cones, até que o artilheiro da noite completasse na pequena área. Aos sete, Nacho Fernández fez o sexto, após cruzamento. O sétimo saiu aos 12, em cobrança de escanteio que Olivares bateu roupa, dando de bandeja a “manita” de Scocco. Por fim, mais uma pintura aos 21, para fechar a conta. Enzo Pérez arrancou do campo de defesa, passou por três adversários e tocou na saída do goleiro. Coroava também sua grande atuação.

Gallardo aproveitou os minutos seguintes para substituir Scocco e Enzo Pérez. Os dois medalhões, trazidos na última janela de transferências, receberam uma ovação completamente arrepiante da torcida. Depois, seria a vez de gritar pelo ‘Muñeco’, o apelido do técnico. Já na reta final da partida, o River Plate não forçava tanto o jogo, mas poderia ter chegado aos dois dígitos se acertasse um pouco mais o pé. Entregue, o Jorge Wilstermann aguardava o apito final. E ele veio logo aos 45, sob piedade da arbitragem.

Crescendo na competição, o River Plate possui um elenco experiente. Tem um técnico excepcional e a rodagem de grandes campanhas internacionais recentes. Predicados que ganham mais força pela maneira como o time reverteu o quadro contra o Jorge Wilstermann. A derrota em Cochabamba não deve ser esquecida. Ainda assim, os oito gols no Monumental de Núñez são muito mais sonoros, ecoados por 60 mil vozes. San Lorenzo ou Lanús sabem que enfrentarão um gigante nas semifinais. Que, depois desta quinta, ganhou feições de monstro nesta Libertadores. Se o coro de “galinhas” veio à tona após o tropeço na Bolívia, os Millonarios ressurgem como fênix, e muito mais amedrontadores do que isso.