Danijel Subasic havia protagonizado um feito raríssimo em Copas do Mundo. Contra a Dinamarca, ele se tornou apenas o segundo goleiro na história dos Mundiais a defender três chutes em uma disputa por pênaltis, igualando o que fez o português Ricardo contra a Inglaterra em 2006. Tornava-se um claro herói, o goleiro confiável que a Croácia não teve em boa parte de sua trajetória. E confiança acabou sendo um sentimento fundamental aos seus companheiros durante o confronto com a Rússia. Mais do que nunca, os jogadores croatas precisaram confiar no camisa 1, que sentiu uma lesão na coxa durante o final do segundo tempo e foi para o sacrifício. Subasic não apenas se segurou por mais 30 minutos, como também voltou a atrair os holofotes. Com mais um pênalti defendido, se igualou a Harald Schumacher e Sergio Goycochea como os arqueiros que mais defenderam penais em Copas.

Ao longo dos últimos anos, Subasic se tornou uma boa notícia ao futebol croata. O goleiro surgiu no Zadar, mas explodiria mesmo com a camisa do Hajduk Split, um dos maiores clubes do país. Nesta época, começava a ganhar as suas primeiras convocações à seleção. E uma decisão que poderia ser questionável, em janeiro de 2012, se transformou no grande acerto da carreira. O camisa 1 aceitou uma proposta do Monaco e acreditou no novo projeto do clube, então na segunda divisão do Campeonato Francês, que semanas antes havia sido comprado pelo milionário russo Dimitri Rybolovlev. Um ano e meio depois, os monegascos já comemoravam o acesso. O arqueiro se tornaria peça fundamental na abastada ascensão vivida desde então.

Dono do gol do Monaco e um dos melhores goleiros da Ligue 1, Subasic naturalmente conquistou a posição na seleção. Reserva de Stipe Pletikosa na Copa do Mundo de 2014, ganhou a titularidade após o torneio. Desde então, tornou-se uma certeza na equipe, ainda mais pelo alto nível que apresentava no principado. A temporada 2016/17, quando conquistou o título nacional, representou sua afirmação. E ainda que não tenha se saído tão bem no clube durante os últimos meses, nada abalava suas condições na equipe nacional. Bem no futebol belga, Lovre Kalinic não se tornou sombra suficiente, mesmo fazendo um bom jogo contra a Islândia na fase de grupos.

Subasic não precisou trabalhar tanto contra Nigéria e Argentina. Diante da Dinamarca, alguns podem até avaliar uma falha sua no gol dos adversários, em bola que veio em sua direção, mas de repente. A atuação maiúscula nos pênaltis perdoou qualquer pecado. E, afinal, expôs ainda mais as motivações do veterano de 33 anos em seu trabalho. A cada jogo, o goleiro usa por baixo de seu uniforme a camisa com o retrato de Hrvoje Custic, seu companheiro nos tempos de Zadar. O ex-atacante faleceu em 2008, durante uma partida pela equipe, quando se chocou com um adversário e, na beira do campo, bateu a cabeça em uma parede de concreto separando as arquibancadas. A lembrança e a homenagem são perenes.

Aclamado, Subasic não seria muito desafiado contra a Rússia de início. Não teve o que fazer quando Denis Cheryshev acertou o seu chutaço para abrir o placar no primeiro tempo. E mesmo na segunda etapa, no momento em que Artem Dzyuba assustou, o camisa 1 defendeu firme. Seu sacrifício começaria já nos acréscimos, logo depois que a Croácia realizou sua terceira substituição. Subasic deveria encaixar uma bola fácil na linha de fundo, mas sentiu uma lesão muscular na parte posterior da coxa. Não parecia ser mera cera. Todavia, sem possibilidades de mudança, ou continuaria, ou um jogador de linha iria para a posição. O veterano seguiu em frente e até mostrou que estava bem, ao defender uma bomba sem ângulo de Fyodor Smolov.

A prorrogação veio e a Croácia poderia substituir Subasic logo de cara. Entre a adrenalina e o calor do jogo, o goleiro ficou, o que se provaria vital, diante da contusão de Sime Vrsaljko. E, sabendo das condições do arqueiro, a Rússia tentou se aproveitar disso. Passou a cruzar bolas na área. O camisa 1 segurava como podia, mesmo sentindo novamente a coxa. Sequer batia os tiros de meta. No segundo tempo extra, com a vantagem aberta por Domagoj Vida, Subasic segurava a vitória parcial. Fez ótima defesa em bomba de Daler Kuzyaev e dominava o espaço aéreo nos cruzamentos. Só não teve como reagir quando Mário Fernandes subiu no meio de dois marcadores, livre de contestação, para decretar o empate. Mas, no final, em meio à pressão incessante da Rússia, suas mãos seguras evitaram um lamento maior, em chute perigosíssimo de Roman Zobnin na entrada da área. De novo, os pênaltis botariam Subasic à prova.

Na marca da cal, aliás, dois goleiros que se consagraram como pegadores de penais nas oitavas de final. Igor Akinfeev estava inteiro. Subasic precisaria exigir de sua coxa mais cinco saltos. E como ficaria sua impulsão? A perna direita, a baleada, prejudicaria os seus movimentos. Seria mais seguro pular apenas à esquerda? Talvez Fyodor Smolov tenha pensado nisso quando decidiu bater de cavadinha, para o lado direito do goleiro, confiando que o músculo o prejudicaria. O camisa 1 foi mais inteligente. Escolheu exigir a perna machucada logo de cara e, diante da cobrança ridícula do camisa 10 russo, não teve trabalho em apenas parar o braço e barrar a bola. Sua quarta penalidade defendida nesta Copa.

Subasic pulou o segundo pênalti à direita, sem a explosão vista contra a Dinamarca, e viu a bola entrar no outro canto. Preferiu esperar Mário Fernandes bater e, parado no centro, se aliviou pela maneira como o lateral pegou muito mal na bola, mandando para fora. Comemorou as cobranças dos companheiros, principalmente a de Luka Modric, que Akinfeev ficou a um triz de salvar. Por fim, dois saltos à esquerda, em que assistiu à bola entrar, mas não o impediram de trotar até Ivan Rakitic após o chute decisivo. Classificado de novo, o heroísmo tinha outro sabor.

A cada treinamento da Croácia, Subasic tem dois bons exemplos. Drazen Ladic e Marjan Mrmic, goleiros da seleção na Copa do Mundo de 1998, são os seus treinadores. Pela importância que possui nesta nova campanha às semifinais, o atual camisa 1 está à frente de seus antecessores. É a história que se renova e, quem sabe, pode se ampliar contra a Inglaterra. A contusão do arqueiro será uma questão importante aos croatas, por mais que Lovre Kalinic possa ser um bom substituto. Neste momento, Subasic é uma figura que impõe respeito no Mundial.