O Sevilla atravessa uma temporada bastante particular. Sofreu goleadas no Campeonato Espanhol, mas a campanha geral nem é tão ruim, ocupando a quinta colocação. Paralelamente no âmbito doméstico, mira a decisão da Copa do Rei. E tenta a sorte na Liga dos Campeões. Em um grupo não tão difícil, alternou bons e maus momentos, mas acabou avançado com a menor pontuação entre os 16 classificados às oitavas de final. Até enfrentar o Manchester United. Até viver o seu ápice na competição continental em décadas. Se o poderio dos Red Devils intimida no papel, não foi isso que aconteceu dentro de campo. Os andaluzes já tinham sido melhores no Estádio Ramón Sánchez-Pizjuán. Nesta terça, mais contundentes, fizeram o crime em Old Trafford. Mais maduros coletivamente, os visitantes contaram com a entrada providencial de Wissam Ben Yedder. O atacante anotou os dois gols dos rojiblancos, que contiveram o desespero dos ingleses e, com a vitória por 2 a 1, celebraram a classificação. Enquanto isso, os mancunianos lidavam com as vaias de sua própria torcida.

O empate por 0 a 0 na Espanha já tinha saído no lucro ao Manchester United. Salvo por David de Gea, o time precisava de mais atitude para o reencontro na Inglaterra. Mas não se sentiu isso. Com Paul Pogba voltando de lesão, Mourinho não ousou e confiou em Marouane Fellaini na cabeça de área, ao lado de Nemanja Matic. Já na linha de frente, o trio formado por Marcus Rashford, Alexis Sánchez e Jesse Lingard apoiava Romelu Lukaku. Vincenzo Montella, por sua vez, confiou em sua base principal, encorpando um pouco mais a linha defensiva com o retorno de Simon Kjaer e Gabriel Mercado na lateral. Veio com Ever Banega e Steven N’Zonzi na cabeça de área; Pablo Sarabia, Franco Vázquez e Joaquín Correa na trinca de meias; e o elétrico Luis Muriel como homem de referência.

Fato é que o primeiro tempo permaneceu um marasmo. O Manchester United começou com a iniciativa, graças às incursões de Rashford e aos pivôs de Lukaku. Ambos comandavam as ações ofensivas. Mas isso não passou de alguns minutos. Logo depois, o Sevilla controlou a posse de bola e tentou pressionar um pouco mais os ingleses. Forçava os erros e travava o meio-campo, em atuação gigantesca de N’Zonzi. Contudo, faltava capacidade para abrir a defesa adversária, com muitos chutes de fora da área e sem direção. David De Gea mal sujou o uniforme desta vez. Já do outro lado, aos poucos os mancunianos passaram a insistir nas ligações diretas com Fellaini ou Lukaku, sem criatividade alguma. Sergio Rico seria exigido apenas em chute do belga, em cima do goleiro, pouco antes do intervalo. Alexis Sánchez, por mais que tentasse, era um dos mais limitados.

O cenário se abriu mais no segundo tempo. Bastante preciso em suas ações defensivas, Eric Bailly ia frustrando as boas chegadas do Sevilla em velocidade. E o Manchester United passou a ter mais atitude. Sergio Rico outra vez evitou o pior, desviando bom chute de Lingard. Mourinho tentou melhorar a criação do time, dando minutos a Pogba no lugar de Fellaini. O problema é que se escancarava a falta de coesão dos Red Devils. Parecia existir um grande buraco entre os meio-campistas e o quarteto de frente, como se não houvesse qualquer entrosamento entre os jogadores, alheios entre si. Rashford acabava sendo o principal responsável por encurtar as distâncias.

E quando Montella renovou as energias ofensivas do Sevilla, conseguiu causar estrago. Aos 27 minutos, Ben Yedder substituiu Luis Muriel. Pouco depois, já chegou pela primeira vez com perigo, travado. E na segunda, não desperdiçou. Recebeu de Sarabia, ajeitou o chute e acertou o cantinho de De Gea. A pressão sobre o Manchester United aumentava. Mourinho colocou Anthony Martial e Juan Mata nos lugares de Antonio Valencia e Lingard. Mas não existia velocidade na saída de bola, com os andaluzes congestionando a cabeça de área dos mancunianos. Assim, o desastre se consumou aos 33. Joaquín Correa cobrou escanteio, Ashley Young vacilou na marcação e Ben Yedder desviou de cabeça. De Gea tentou salvar, mas a bola pegou um efeito estranho e entrou.

Naquele momento, o Manchester United precisava de três gols. E por aquilo que (não) fez nas mais de duas horas e meia anteriores de confronto, parecia impossível buscar o prejuízo menos de 15 minutos. Os Red Devils partiram para o tudo ou nada. Mas é fato que o Sevilla teve várias chances claras de anotar o terceiro, inclusive com De Gea impedindo a tripleta de Ben Yedder no mano a mano. Do outro lado, Lukaku representava o maior perigo. Após mandar uma bola por cima do travessão, diminuiu a diferença aos 38, em cobrança de escanteio que arrematou na marra dentro da pequena área. De qualquer forma, o United ficou devendo. Tirando uma reclamação de recuo e uma cabeçada de Rashford, não criou mais. Os andaluzes administraram o desespero dos oponentes e festejaram, em ótima noite defensiva. Clément Lenglet, sobretudo, foi um leão. Já nas arquibancadas, os gritos andaluzes ecoavam muito mais.

O saldo é trágico ao Manchester United. Pelo investimento do clube, não dá para admitir um futebol tão pobre. E nem mesmo a presença de tantos astros fez a diferença, quando não se apresentou um plano de jogo, uma aproximação mais funcional. Tirando poucas exceções, a avaliação negativa é ampla. José Mourinho terá muito que trabalhar para escapar das críticas. Agora, resta se contentar com a Copa da Inglaterra e a briga pela vice-liderança na Premier League. Pouco, a quem espera tanto.

O Sevilla, por sua vez, merece muitos aplausos. Jogou melhor em ambas as partidas e soube executar o seu plano de jogo. Mais do que isso, aproveitou as suas peças. E se refez de todos os traumas defensivos dos últimos meses, com muita maturidade. A quem tomou goleadas acachapantes de adversários medianos, não é nada mal sair com a classificação em Old Trafford, sem sofrer tantos apuros. Nas quartas de final, certamente, será um time desejado pelos oponentes no sorteio. Mas pode desfrutar da grande história que, aos trancos e barrancos, consegue escrever. Como não acontecia desde 1957/58, os andaluzes figuram entre os oito melhores da Champions. Contarão à posteridade o feito no Teatro dos Sonhos.

Ficha técnica

Manchester United 1×2 Sevilla

Local: Old Trafford, em Manchester
Árbitro: Danny Makkelie (HOL)
Gols: Ben Yedder, aos 29’/2T e aos 33’/2T; Lukaku, aos 39’/2T
Cartões amarelos: Rashford (United); Banega, Sarabia, Correa, Ben Yedder (Sevilla)
Cartões vermelhos: Nenhum

Manchester United
David de Gea, Antonio Valencia (Juan Mata, aos 32’/2T), Eric Bailly, Chris Smalling, Ashley Young; Nemanja Matic, Marouane Fellaini (Paul Pogba, aos 15’/2T); Marcus Rashford, Jesse Lingard (Anthony Martial, aos 32’/2T), Alexis Sánchez; Romelu Lukaku. Técnico: José Mourinho.

Sevilla
Sergio Rico, Gabriel Mercado, Simon Kjaer, Clément Lenglet, Sergio Escudero; Ever Banega, Steven N’Zonzi; Pablo Sarabia, Franco Vázquez (Guido Pizarro, 42’/2T), Joaquín Correa (Johannes Geis, 44’/2T); Luis Muriel (Wissam Ben Yedder, 27’/2T). Técnico: Vincenzo Montella.