O jovem Townsend ganhou espaço nesse Totteham em construção (Foto: AP)

O sofrimento do Tottenham tem muito a ver com o mercado, o treinador e o presidente

Como o presidente do Tottenham, Daniel Levy, fez questão de lembrar, o clube do norte de Londres, após 32 rodadas, tem apenas dois pontos a menos em relação à temporada passada. A frieza dos números não mostra uma derrocada tão grande, mas também não considera a expectativa criada em torno do investimento realizado depois da venda de Gareth Bale, meses de muitos problemas e algumas humilhações. Os reforços não corresponderam, o interino efetivado não justificou a (pouca) confiança depositada nele e o fim de campanha tem um ar melancólico.

O Tottenham gastou € 120 milhões de euros em sete reforços e não conseguiu vencer nenhum dos quatro primeiros colocados do Campeonato Inglês. Mais do que isso: sofreu goleadas constrangedoras de Liverpool, Manchester City e Chelsea – esse último, o único time contra o qual conseguiu ao menos um empate, no primeiro turno. A defesa levou 27 gols nessas oito partidas e o ataque marcou apenas dois.

“Estamos em sexto lugar na Premier League e foi outra temporada em que os quatro primeiros lugares foram muito disputados por pelo menos sete equipes”, ponderou Levy, passando a impressão de que realmente houve uma briga cabeça a cabeça pelas vagas na próxima Liga dos Campeões. Porque se é fato que a campanha do Tottenham deve apenas dois pontos à passada, também é incontestável que desde a 20ª rodada as quatro primeiras posições são ocupadas pelos mesmos clubes: Manchester City, Chelsea, Liverpool e Arsenal.

O Tottenham passou seis das dez primeiras rodadas na zona de classificação à Champions League e nunca mais retornou. O mais próximo que conseguiu foi, na 22ª jornada, empatar em pontos com o Liverpool. Com as reformulações de Manchester City, United e Chelsea, perdeu a chance de aproveitar uma Premier League que nasceu sem dono. E, depois de quatro temporadas no top 5, corre o risco de terminar em sexto ou sétimo. O quinto colocado Everton tem quatro pontos a mais e um jogo a menos.

Não é à toa que a torcida anda meio irritada com a cúpula do Tottenham que, além de Levy, conta com o diretor técnico Franco Baldini. O italiano está sendo apontado como o principal responsável pelas contratações do mercado de verão. Aparentemente, eram boas compras, muitos jovens talentosos, mas nenhuma delas deu o resultado esperado e algumas foram inflacionadas pelo jogo que Levy conduziu na compra de Bale.

Há discrepâncias nos valores, mas é irrelevante se o galês custou € 90 milhões ou € 100 milhões. O Tottenham conseguiu um valor muito acima do mercado pelo seu principal jogador, porém também avisou para todos os potenciais vendedores que estava com os cofres cheios. O negócio foi concluído quase no fim da janela de transferências e o desespero também ajudou a atrapalhar as movimentações dos ingleses. Por isso, Érik Lamela, com apenas duas temporadas relevantes na Europa nas costas, custou € 30 milhões. E todo esse dinheiro foi gasto em um jogador que foi titular apenas três vezes pelo Campeonato Inglês antes de se machucar, em janeiro.

Daniel Levy poderia ter conduzido melhor a questão do treinador (Foto: AP)

Daniel Levy poderia ter conduzido melhor a questão do treinador (Foto: AP)

O clube também gastou bastante dinheiro no começo da janela, como  € 19 milhões em Paulinho, que não deu sequência ao seu bom começo de carreira europeia. Foi titular apenas uma vez nas últimas seis partidas, contra o Benfica, pela Liga Europa. Roberto Soldado é o maior fracasso. Também custou € 30 milhões para ser o homem-gol do Tottenham e não poderia ter passado mais longe de atingir as expectativas. Balançou as redes seis vezes em 26 partidas do Campeonato Inglês. Apenas 11 em toda a temporada e seis com a bola rolando. Converteu cinco pênaltis. O melhor custo-benefício, por enquanto, é Christian Eriksen (€ 13,5 milhões), de 22 anos, autor de oito gols e várias boas atuações ao longo da temporada.

“São todos jogadores de seleção, mas é que nem consertar uma máquina de lavar com a caixa de ferramentas de outra pessoa”, justificou Tim Sherwood, o substituto de André Villas-Boas. As ferramentas também não eram totalmente do português. A responsabilidade está nas costas de Baldini, seriamente ameaçado de perder o emprego ao fim da temporada, principalmente se o holandês Louis van Gaal for contratado.

E esse foi o outro pecado capital do Tottenham. Era possível ter um pouco mais de paciência com André Villas-Boas, por causa de toda essa reformulação do elenco, mas o discípulo de Mourinho contribuiu bastante para a sua demissão com outras atitudes. Levy não conseguiu concluir a negociação com Van Gaal em dezembro, Sherwood ganhou do Southampton e foi efetivado.

A ligação do treinador com o clube e a satisfação que mostrou por estar à frente dele convenceram a diretoria a dar uma chance para um profissional sem nenhuma experiência. Sherwood recuperou Adebayor e deu mais chances para Bentaleb, por exemplo, e conseguiu bons resultados no começo. Depois da efetivação, engatou uma invencibilidade de seis jogos pela Premier League, que incluiu uma vitória sobre o Manchester United – nesse período, perdeu do Arsenal, pela Copa da Inglaterra.

Por outro lado, nunca conseguiu afastar o rótulo de técnico tampão. Os boatos de negociações com outros treinadores sempre foram muito fortes, de Van Gaal a Fabio Capello. O ex-jogador Ruud Gullit chegou a relatar que o negócio está “praticamente fechado” com o holandês. Por que, então, Levy ofereceu contrato a Sherwood até 2014/15? Acreditava no treinador, foi um tiro no escuro ou só esquentou o banco?

Dependendo da resposta, Levy pode ter feito uma avaliação equivocada, uma aposta muito arriscada ou jogado meia temporada no lixo. De qualquer forma, dificilmente Sherwood cumpre o contrato até o fim. “Nós evoluímos muito na última década. Elevamos nossas expectativas de um clube tentando ficar na parte de cima da tabela para um que joga competições europeias todo ano, ao ponto de ficarmos decepcionados se não disputarmos a Liga dos Campeões”, disse o presidente do clube.

E ele tem razão. O Tottenham mudou de patamar nos últimos anos. Agora, precisa separar o joio do trigo de um elenco numeroso, reforçar posições carentes, como a defesa, e escolher com sabedoria o próximo comandante – Mauricio Pochettino, do Southampton, e Frank De Boer, do Ajax, também são candidatos – para não continuar decepcionando a torcida.