Tom Broadbent passou cinco meses no Afeganistão defendendo o exército britânico. Não ficava na linha de frente. Comandava um pequeno avião espião e chegou em 2014, quando a guerra já havia esfriado. Mas se lembra de estar ouvindo Scar Tissue, música do Red Hot Chilli Peppers, quando o caminhão em que estava começou a receber fogo do inimigo. Não houve muitos outros sustos, e Broadbent voltou ileso, com seus 90 quilos e 1,92 metros, para perseguir o seu sonho: tornar-se um jogador de futebol profissional.

LEIA MAIS: Não existem limites ao futebol, e a história deste jovem goleiro resume bem isso

Zagueiro de 25 anos daqueles cujo porte físico deixa qualquer um com medo de fazer graça, Broadbent já tinha experiência em equipes semi-profissionais non-league, da quinta divisão para baixo. Dois anos atrás, acertou com o Farnborough, do sétimo degrau da Inglaterra, e defendia o time do exército em competições e em partidas especiais. Foi convidado por Roy Hodgson para viajar ao Brasil com a delegação inglesa e participou do amistoso de comemoração da trégua do Natal, na Primeira Guerra Mundial, entre o seu país e a Alemanha.

O porte físico exuberante, que motivou elogios dos jogadores do Chelsea na final da Copa da Inglaterra, quando ele foi convidado para entregar as medalhas dos vice-campeões, é uma novidade para ele, que era pequeno e gordinho na juventude. Trabalhou como carpinteiro e em supermercados antes de entrar no exército, em 2012. Construiu uma boa carreira entre os militares e seguiria sendo soldado da Artilharia Real até 4 de setembro, mas conseguiu uma baixa antecipada para disputar a terceira divisão do futebol inglês pelo Bristol Rovers.

A oportunidade veio por meio de uma rede de contatos. O técnico do time do exército conhece um cara que jogou com um empresário de Bristol, que entrou em contato com o treinador dos Rovers, Darell Clarke, e conseguiu um teste para Broadbent. “Nick me pediu para enviar um vídeo”, disse, em entrevista ao Guardian. “Eu tinha as imagens dos jogos então eu montei o vídeo sozinho. Tinha 13 minutos, básico, mas direto ao ponto. Na manhã seguinte, ele me telefonou e disse: ‘Você conseguiu um teste'”.

O soldado juntou-se ao elenco em 3 de julho. Passou por dez dias de treinamento e dois amistosos. Conseguiu impressionar o bastante para conseguir um contrato, de extensão ainda indefinida. “Apesar de ele nunca ter jogado futebol deste nível antes, Tom tem muita experiência no nível non-league e representando o Exército”, afirmou Clarke, ao site do Bristol Rovers. “Ele impressionou durante a pré-temporada e se provará uma excelente aquisição para nossa equipe, fornecendo competição para a zaga.

Broadbent nunca teve a ambição de servir o exército, mas pareceu uma boa ideia para fugir dos trabalhos que ele não gostava muito de fazer. Passou um bom tempo sem chutar bolas, enquanto melhorava o porte físico para defender a rainha, e, pouco a pouco, retomou o futebol, em peladas e no exército. “Eu lembro que o técnico do Farnborough não tinha certeza se me contrataria. Ele me pesquisou no Google e disse: ‘Você nunca jogou em lugar nenhum'”, relembra. Em fevereiro deste ano, tomou a decisão de perseguir o sonho de pagar as contas jogando futebol.

“Foi uma decisão importante porque, quando você está no exército, você meio que pensa que não tem mais nada para você fazer. Por outro lado, há tantas opções que você não consegue realmente decidir, então acaba ficando. Mas eu fui falar com o comandante da minha tropa e disse: ‘quero sair’. Eles ficaram surpresos porque estava indo bem no exército. Mas eu disse: ‘Eu vou tentar. Eu quero jogar futebol profissional'”, contou.

E Broadbent está no caminho certo. Terá a chance de demonstrar suas habilidades no Bristol Rovers, apenas dois níveis abaixo da Premier League. Oportunidade para poucos. “Obviamente, houve bons e maus momentos no exército. Sair de lá para jogar futebol… tenho 25 anos, e eu quase cheguei ao ponto em que pensei que isso não aconteceria para mim. Agora, obviamente aconteceu, e estou muito grato pela chance”, encerrou.