O gol de Fabio Borini e o de Yaya Touré foram separados por 45 minutos. Ignorando o intervalo, o sonho do Sunderland durou exatamente um tempo de um jogo de futebol. Quando parecia que o Manchester City seria mais uma vítima da Copa da Liga Inglesa, um inesperado, preciso e espetacular chute do meia que se especializou em tirar o seu time de apuros empatou a final, em Wembley. A partir de então, foi tudo uma questão de tempo para o título ser definido a favor da equipe de azul.

A primeira metade do duelo parecia seguir à risca um roteiro bem comum do torneio que era patrocinado por uma cerveja e e atualmente leva o nome de um banco. As zebras são comuns na Copa da Liga Inglesa, nem sempre na final. Ano passado, os grandes permitiram que Swansea e Bradford City decidissem o título. Em 2011, o Birmingham impediu que o Arsenal superasse um incômodo jejum de títulos que perdura até hoje. Apenas alguns exemplos.

Foi Fabio Borini quem escreveu as primeiras linhas dessa história, que sofreria uma reviravolta. Aos 10 minutos, acelerou pela ponta direita para vencer a marcação implacável de Vincent Kompany, quase levou um chute no rosto e bateu cruzado, com o lado de fora do pé direito. Flashes da final da Copa da Inglaterra – também um pouco afeita a surpresas – do ano passado, na qual o City foi derrotado pelo Wigan, pipocaram nas mentes dos jogadores comandados por Manuel Pellegrini.

O Sunderland não admitia ser ameaçado. Se na bola era impossível igualar os talentos que o dinheiro comprou, a raça e o coração estavam alguns níveis acima. Não porque o City estava desinteressado ou arrogante, mas Pellegrini precisa manter a concentração dos seus jogadores em quatro competições diferentes. Gus Poyet, de expressões e reações cômicas, não gastou muitos argumentos para convencer os seus comandados de que aquele era o jogo da vida deles.

Talvez o final da história fosse diferente se Kompany não tivesse decidido se vingar. Borini apareceu, desta vez pela esquerda, em mais um contra-ataque e carregou a perna direita para um chute colocado. O capitão saiu muito atrás na corrida, mas não quis se dar por vencido. Compensou a distância com um carrinho perfeito e bloqueou o arremate do italiano.

No segundo tempo, a partida ficou mais parecida com o que esperávamos desde o início. O Manchester City tomou conta do campo de ataque e encurralou o Sunderland na sua própria área. Ainda assim, estava difícil furar o bloqueio. Foi necessária toda a qualidade de Yaya Touré para abrir a porteira. O jogador que saiu da cabeça de área para se tornar um dos melhores meias ofensivos do futebol acertou uma tacada de sinuca ou uma cestra de três pontos, dependendo da preferência do leitor. Trocou passes e, quando menos se esperava, bateu colocado, no ângulo oposto de Vito Mannone.

O gol de Touré quebrou o espírito do Sunderland, que suspeitou que não teria pernas para aguentar uma prorrogação e nem qualidade para voltar à frente no placar. Não demorou nada para esses temores serem confirmados. Cerca de um minuto, na verdade. Kolarov foi à ponta esquerda e cruzou para a área. A bola desviou e caiu na frente de Samir Nasri. A bola morreu mansa nas redes de Mannone, após um chute, parecido com o de Borini, com o lado de fora do pé direito.

O Sunderland ainda tentou. Saiu de trás, ficou mais solto. O hexacampeão inglês buscou o empate para tentar conquistar o seu primeiro título importante desde 1973. Tinha, a seu favor, as lembranças das fases anteriores, nas quais eliminou Chelsea e Manchester United, mas esbarrou na limitação de quem está em 18° lugar no Campeonato Inglês e briga com todas as forças contra o rebaixamento. A ilustração disso foi a chance que Steven Fletcher perdeu. A bola pingou no bico da pequena área para o camisa 9 encher o pé com a perna direita, mas ele preferiu tentar ajeitar para a esquerda. Apanhou da redonda, que saiu pela linha de fundo, junto com a esperança da torcida que veste vermelho e branco.

O golpe de misericórdia veio em seguida, em um contra-ataque. Quatro contra três, Jesus Navas, que substituiu um apagado Sergio Agüero, voltando de mais uma lesão, saiu nas costas da defesa e fez o terceiro. Selou o primeiro título do Manchester City na temporada, que continua vivo na Copa da Inglaterra, na Premier League e na Liga dos Campeões. E também o primeiro na Europa do chileno Manuel Pellegrini, ex-técnico de Real Madrid, Villarreal e Málaga. Tudo graças a Yaya Touré, protagonista dessa fase vitoriosa do clube, que mais uma vez abriu o caminho para os seus companheiros.