A fraca e decepcionante temporada do Milan foi encerrada com a confirmação da ausência dos rossoneri de competições europeias pela primeira vez desde a temporada 1998/99. O time entrou na última rodada ainda com chance de ir à Liga Europa, mas quem ficou com a última vaga para o torneio continental foi o Parma. A campanha do time de Milão foi inegavelmente um fracasso, mas o trabalho de Roberto Donadoni no surpreendente Parma coloca o time na Liga Europa de maneira muito justa.

Apesar da relativa queda de rendimento nas reta final da Serie A, revertida com três vitórias e um empate nos últimos quatro jogos, a campanha do Parma deve ser exaltada. O que garantiu de verdade a equipe na Liga Europa não foram os gols de Amauri nesta última rodada. Não fosse a incrível sequência invicta no meio do campeonato, de nada teriam adiantado os tentos do atacante ítalo-brasileiro neste domingo. A vaga foi mesmo assegurada quando o Parma ficou da 12ª à 28ª rodada sem sofrer um revés sequer, vencendo nove desses jogos. Mostrar equilíbrio nesse momento mostrou-se vital para o resultado final do time na temporada.

Donadoni conseguiu fazer a equipe render mais que o esperado antes do início do campeonato. O principal destaque, que ilustra melhor a surpresa que foi a temporada dos crociati, foi o ressurgimento de Antonio Cassano. Após passagens apagadas por Milan e Internazionale, o atacante chegou ao Parma envolvido na negociação que levou Belfodil à Inter e foi tão bem no time que passou a ser exigido na seleção italiana por muita gente, mesmo sem jogar na Azzurra desde a Eurocopa de 2012.

Como futebol não se explica apenas com análises de trabalho a médio e longo prazo, mas também com a questão de momento, vale ressaltar que toda a competência do Parma não teria adiantado nada se Alessio Cerci tivesse convertido seu pênalti nesta rodada. Aos 49 minutos do segundo tempo, o Torino empatava em 2 a 2 com a Fiorentina, e o jogador desperdiçou a penalidade máxima que colocaria o time de Turim na Liga Europa, em vez dos crociati. Que hora para se perder um pênalti, hein? Pena para os grenás, que também fizeram uma temporada muito acima do esperado.

Do lado do Milan, que agora passará pelo menos uma temporada inteira sem disputar algum torneio europeu, coisa que não acontecia desde 1998/99, os erros que resultaram nessa campanha pífia foram diversos. Na primeira metade do campeonato, a equipe não contava com boas opções para o setor ofensivo, e a zaga era uma verdadeira tragédia. As primeiras 13 rodadas dos rossoneri tiveram cinco derrotas, cinco empates e apenas três derrotas. Massimiliano Allegri não resistiu, e Clarence Seedorf, já com um elenco um pouco melhor para a segunda metade do torneio, assumiu o comando.

Em seu primeiro trabalho como técnico, Seedorf não conseguiu salvar a temporada do Milan (AP Photo/Luca Bruno)

Em seu primeiro trabalho como técnico, Seedorf não conseguiu salvar a temporada do Milan (AP Photo/Luca Bruno)

Se o holandês tivesse conseguido salvar a temporada do Milan, com uma classificação a um dos torneios europeus, seria algo a se comemorar muito, sobretudo pelo tamanho do risco que o time correu ao ir atrás de um novo técnico que nunca havia tido tal experiência antes. Entretanto, o que era mais provável aconteceu, e “Cidão” não conseguiu chacoalhar as coisas como precisava ser feito, embora a melhora no desempenho tenha sido considerável. Apesar das chegadas de Keisuke Honda e Adel Taarabt para este ano, o holandês não conseguiu dar a um time um padrão de jogo efetivo e bem definido, para tirar o melhor possível desses atletas. Além disso, fracassou na missão de aproveitar ao máximo o talento de Mario Balotelli lá na frente. Kaká, em seu retorno a San Siro, não foi mal, mas esteve longe de ser tão espetacular quanto na primeira passagem.

É evidente que a falta de rendimento desses quatro não deve ser atribuída somente a Seedorf. Os próprios jogadores são os maiores responsáveis por isso. Mas, talvez, um técnico com maior (ou alguma) bagagem teria conseguido melhores resultados com esse setor ofensivo. Ao mesmo tempo em que o ataque não funcionou como precisaria ter funcionado, os problemas da zaga, embora bastante amenizados, não puderam ser completamente sanados, já que o material humano para isso era escasso. Afinal, Philippe Mexès, Daniele Bonera, Adil Rami, Matías Silvestre e companhia não são capazes de fazer muita coisa.

Fora toda a parte técnica, o Milan precisa corrigir seus problemas estruturais, que vêm de cima para baixo. Todo o atrito entre Barbara Berlusconi e Adriano Galliani não fizeram nada bem à equipe, que já não era lá essas coisas. O clube precisa de mais organização para que os assuntos de dentro das quatro linhas comecem a ser resolvidos. E, no meio de tantas turbulências, quem começa a ser fritado é o próprio Seedorf, cotado para perder o emprego já nesta pré-temporada.

Quanto ao Parma, resta celebrar o ótimo trabalho desta temporada. Ser eficiente com pouco à disposição funcionou muito bem para Donadoni, o que torna difícil imaginar que a qualidade dessa campanha não seja mantida após a Copa do Mundo. Pelo menos motivação para isso haverá. Duas vezes campeão da Liga Europa, ainda nos tempos de Copa da Uefa, a equipe certamente nutre um carinho especial pelo torneio, que normalmente é preterido pelos italianos. E, convenhamos: entrar para uma galeria ilustrada por atletas como Gianluigi Buffon, Lilian Thuram, Juan Sebastián Verón e Hernán Crespo, campeões em 1999, não seria uma má ideia para Cassano e companhia.