O Swansea lamenta o rebaixamento, mas não reclama do período que atravessou na Premier League. A um clube sem tanta projeção, de um mercado relativamente pequeno, permanecer sete temporadas consecutivas na primeira divisão foi um feito e tanto. Um feito a quem, ao longo de sua história, tinha apenas uma efêmera passagem pela elite entre 1981 e 1983, quando até alcançou um honroso sexto lugar, após emendar três acessos em quatro anos. Um feito a quem beirara a falência no início deste século e, de novo, escalou três divisões em somente sete anos para se colocar entre os maiores. O descenso consumado neste domingo é uma pena pela campanha pobre feita em 2017/18. No entanto, ainda pinta um orgulho por aquilo que os galeses aprontaram neste tempo todo. Daqueles pequenos que realmente serão lembrados por sua trajetória.

O Swansea que cai, e que já vinha flertando com o rebaixamento desde a temporada retrasada, é diferente do Swansea de seus primeiros anos na Premier League. Os galeses subiram sob a aura do ‘Swansealona’, que priorizava a posse de bola e deslumbrava com seu jogo bastante técnico, trabalhando os passes. Era uma quebra dentro das divisões de acesso e que deu certo, primeiro sob as ordens de Roberto Martínez, depois com a chegada de Brendan Rodgers. O retorno à elite, aliás, foi seguro e passou distante da zona de rebaixamento. Até que o ápice da forma viesse em 2012/13, sob as ordens de Michael Laudrup. Tempos dos milagres de Vorm, da liderança de Ashley Williams, da entrega de Ángel Rangel, da distribuição de Leon Britton, da inspiração de Michu, dos gols de Danny Graham. Tempos nos quais, além de terminarem a liga em nono, os Swans também conquistaram a Copa da Liga e participaram da Liga Europa.

O sucesso com Laudrup não se manteve tanto quanto se esperava. Mas logo veio Garry Monk e outros personagens para abrilhantar o caminho – Wilfred Bony, Jonjo Shelvey, Ki Sung-Yueng, Lukasz Fabianski. Sobretudo, Gylfi Sigurdsson, que tinha arrebentado em breve empréstimo pelo clube em 2012, mas fracassara quando do Hoffenheim vendido ao Tottenham. Não era mais um Swansea tão fluído, embora o estilo proposto pelo novo treinador desse os seus resultados. O oitavo lugar na Premier League 2014/15 provou isso.

O problema é que o Swansea não aturou uma sequência ruim com Monk. E então, passou a mudar de treinador com alta frequência, procurando uma nova identidade que nunca mais encontrou. Francesco Guidolin evitou o risco de queda com uma boa arrancada em 2015/16, mas acabou demitido quando os resultados oscilaram na temporada seguinte. Bob Bradley foi uma baita escolha equivocada, que só aumentou o desespero em 2016/17. Caberia a Paul Clement o milagre que evitou a queda, com quatro vitórias nas últimas cinco rodadas.

Então, quando a coisa começou a degringolar em 2017/18, o que aconteceu? Clement saiu, Carlos Carvalhal chegou e renovou o ambiente. O jeito afável de tratar a imprensa e a consistência do time elevaram seu moral, enquanto os Swans fugiam da lanterna e apontavam ao meio da tabela. Mas desta vez, a reação ocorreu cedo demais. A queda de desempenho a partir de março, combinada à recuperação da concorrência, provocou o canto do cisne. Foram nove rodadas sem vencer. O descenso praticamente se confirmou no meio da semana, com a derrota no confronto direto contra o Southampton, combinada ao empate que salvou o Huddersfield em Stamford Bridge. Desta maneira, o Estádio Liberty recebeu apenas o velório neste domingo, com a derrota para o Stoke City em meio a um clima de desânimo e protestos contra a diretoria.

A montanha russa do Swansea nos últimos anos evidencia os problemas internos. De um clube que sabia fazer boas apostas no mercado de transferências, os Swans passaram a confiar em jogadores pouco efetivos e medalhões que não vingaram. As perdas sentidas de Gylfi Sigurdsson e Fernando Llorente, dois caras que carregaram o time durante suas passagens pelo Estádio Liberty, não tiveram reposições à altura. E na falta de uma linha condutora, as mudanças constantes de técnico só contribuíram para o descontrole da situação. Talvez a queda para a Championship possa ajudar a diretoria a ousar mais e a encontrar um foco que delimite uma nova identidade.

O símbolo maior da passagem do bastão, aliás, está no próprio elenco. Depois de 16 anos de clube, interrompidos apenas por uma breve passagem pelo Sheffield United, Leon Britton deixará o Swansea. O veterano de 35 anos, motor do time nos tempos de Swansealona, já vinha sofrendo com problemas físicas e mal entrava em campo. Mesmo assim, há um significado na aposentadoria do velho ídolo. E o meio-campista não será o único figurão a se despedir do Estádio Liberty. Ángel Rangel é outro que defende os Swans desde a terceira divisão, há 11 temporadas no clube. O espanhol permaneceu como liderança evidente nos últimos tempos, portando a braçadeira de capitão. Contudo, com o fim de seu contrato, deixará Gales à procura de uma nova equipe.

Sem os medalhões, restarão poucos remanescentes da epopeia do Swansea. Nathan Dyer e Wayne Routledge serão os únicos que permanecem desde o início da jornada na Premier League. E os temores são de que outros protagonistas possam partir, em especial Fabianski, que evitou decepções maiores aos Swans nos últimos anos e tem qualidade para se manter na primeira divisão. De qualquer forma, até pelos problemas recorrentes nestes últimos anos, uma renovação do grupo parece bem-vinda a esta altura, para adequar a folha de pagamentos à Championship e garantir um planejamento duradouro, que evite quedas abruptas como a ocorrida recentemente com o Sunderland.

É difícil dizer quando o Swansea voltará à Premier League. Embora tenha uma gestão de mais virtudes que defeitos, não é daqueles clubes com um mecenas ou um impulso extra por trás. O retorno à elite dependerá basicamente de algo diferente, de um tempero a mais, como aconteceu naquela já longínqua temporada de 2010/11. E enquanto a promoção não vier, fica o reconhecimento por aquilo que os galeses construíram durante estes sete anos. Que não tenha sido um time arrasador, certamente deixou a sua marca no campeonato. As vitórias relativamente frequentes sobre Arsenal, Liverpool e Manchester United, ou a classificação contra o Chelsea nas semifinais da Copa da Liga de 2012/13, se tornam capítulos de relevo nesta grande história. Uma pena que tenha chegado ao final, e de maneira tão cabisbaixa.