Em um país no qual diversos times investem pesado, o Tigres consegue construir uma hegemonia marcante. Neste domingo, os felinos conquistaram o seu terceiro título em três anos no Campeonato Mexicano. Depois de faturarem o Apertura em 2015 e 2016, repetiram a dose também em 2017, e de maneira histórica. A decisão possuía um peso incomparável, reunindo não só os dois melhores times da fase de classificação, mas também os dois maiores rivais do norte do país. E os auriazuis se impuseram contra o Monterrey, em vitória para ser recontada durante décadas. Após o empate por 1 a 1 na ida, o Tigres bateu os Rayados por 2 a 1 dentro do Estádio BBVA Bancomer, de virada, e com os anfitriões desperdiçando um pênalti aos 38 do segundo tempo. Façanha com a assinatura de Tuca Ferretti, lenda no México, e de um elenco bastante forte para os padrões locais.

Bancado pela Cemex, uma das maiores multinacionais mexicanas, o Tigres atravessa o momento mais glorioso de sua história. A aposta na continuidade de Tuca Ferretti é um dos grandes trunfos do clube, com o treinador mantido no cargo desde julho de 2010. E, por mais que tenha vivido uma seca de quatro anos após a conquista do Apertura em 2011, o veterano foi capaz de conduzir os felinos a uma série de grandes campanhas. A força costumeira dos auriazuis no segundo semestre é impressionante, sempre fechando o ano com a taça nacional nas mãos.

Segundo colocado na fase de classificação do Apertura, o Tigres eliminou o León com dois resultados iguais nas quartas de final da liguilla, antes de passar por cima do América na semifinal, com duas vitórias. Então, seria a vez de encarar o Monterrey, outro clube que não tem economizado em contratações e foi o primeiro colocado na fase anterior da competição. Dentro do Estádio Universitario, diante de 41 mil torcedores, os felinos precisaram se contentar com o empate por 1 a 1 no primeiro jogo da final. Nicolás Sánchez abriu o placar aos Rayados, enquanto os anfitriões buscaram a igualdade com Enner Valencia. O equatoriano, aliás, viveu uma noite heroica ao ir para o sacrifício. Mesmo gripado e com 39 de febre, ele atuou num frio intenso e ainda balançou as redes com um pênalti de cavadinha. Prévia para o momento grandioso desfrutado neste domingo.

A pressão no Estádio BBVA Bancomer era grande. O Monterrey colocou 52 mil nas arquibancadas da arena que possui a maior média de público do país – com 48 mil por jogo durante a fase de classificação do Apertura. Além disso, os Rayados abriram o placar com apenas dois minutos, em belo chute de Dorlan Pabón de fora da área. Bastava segurar o resultado para que a taça viesse. Entretanto, o Tigres esteve longe de se entregar. E reagiu ainda na primeira etapa. Aos 30, Eduardo Vargas recebeu na entrada da área e bateu de primeira, empatando graças à colaboração do goleiro Hugo González. E a virada saiu aos 35, em cabeçada do zagueiro colombiano Francisco Meza.

Durante o segundo tempo, o Tigres precisou aguentar a tortura. Um time cujas principais referências estão no ataque se desdobrou na defesa. A pressão do Monterrey foi intensa ao longo dos 45 minutos finais, e o sacrifício dos felinos teve recompensa. Meza e o brasileiro Rafael Carioca, sobretudo, atuaram de maneira soberba para evitar que os Rayados tirassem a diferença. Já aos 38, aconteceu o momento definitivo da noite. Os anfitriões tiveram uma penalidade marcada a seu favor. Na cobrança, estava Áviles Hurtado, um dos melhores atacantes da temporada mexicana. Pois o colombiano sequer acertou a meta de Nahuel Guzmán, batendo para fora. Depois disso, coube aos auriazuis se tranquilizarem diante do abafa e gastarem o tempo para arrancar os aplausos dos torcedores nas arquibancadas.

A entrega da taça, por fim, guardou uma grande emoção. Embora o capitão do time seja o zagueiro Juninho, o gosto de receber o troféu acabou concedido ao ponta Damián Álvarez. Aos 38 anos, o argentino se despediu do futebol da melhor maneira possível, depois de sete anos vestindo a camisa do Tigres. Não conteve a emoção, indo às lágrimas ao ganhar a braçadeira do brasileiro e ser colocado pelos companheiros em um palanque para levantar a taça. Para ficar marcado, depois de tanta dedicação.

Entre os protagonistas da campanha do Tigres, alguns jogadores que simbolizam esta era histórica em Nuevo León. Guzmán, Juninho, Jorge Torres Nilo, Hugo Ayala e Jesús Dueñas seguem compondo a espinha dorsal. Javier Aquino e Jürgen Damm são outras peças importantes, especialmente pela velocidade oferecida nas pontas. Já a maior estrela do período, André-Pierre Gignac, não tem sido tão efetivo. Foram apenas seis gols no Apertura, sua menor marca desde que chegou ao México. Ainda assim, conseguiu desequilibrar nos mata-matas, deixando o seu nos confrontos com León e América.

De qualquer maneira, um dos méritos do Tigres é também saber se reinventar. E investir para seguir forte. Neste sentido, algumas contratações desde o ano passado foram importantes. Meza e Rafael Carioca deram boas alternativas ao sistema defensivo. Ismael Sosa é uma opção tarimbada ao ataque, embora tenha ficado boa parte da campanha como reserva. Eduardo Vargas, se não é o atacante implacável que se vê na seleção, aparece em momentos importantes e cresceu de produção. Além disso, Enner Valencia se tornou a nova referência. Oportunista e dono de grande vigor físico, o equatoriano não rendeu muito na Premier League, mas certamente é um dos melhores homens de frente em atividade no continente. Foi o artilheiro dos felinos, com 12 gols na campanha.

Já no banco de reservas, Tuca Ferretti merece ser ainda mais aclamado por aquilo que constrói de legado ao futebol mexicano. Que o gênio tempestuoso não agrade a todos, é um grande personagem. E, acima de tudo, um treinador excepcional. São seis conquistas do Campeonato Mexicano em seu currículo, quatro delas pelo Tigres. Seu lugar na história do clube é irretocável, mas ele segue almejando mais.

Sem dúvidas, o Tigres tem totais capacidades de permanecer no topo da Liga MX por mais um bom tempo. Possui um elenco ótimo, um treinador de primeira linha, recursos para se renovar. Mas o seu horizonte vai além. Depois de três vice-campeonatos continentais desde 2015, a expectativa recai sobre a conquista da Concachampions. O favoritismo permanece na próxima campanha, apesar do novo formato da competição, disputada apenas em mata-matas. O ponto está na maneira como os felinos lidarão com as situações adversas, já que qualidade não falta ao time. Mas depois de tudo o que se viveu neste domingo, é possível confiar que os auriazuis superem seus traumas e levem a taça sonhada à Universidade Autônoma de Nuevo León. O momento referenda.