“Um campeonato que se chama Abdón Porte só podia ser vencido pelo Nacional”. A frase de um torcedor veterano, próximo ao ônibus do clube esperando os seus heróis, demonstra bem o significado da conquista do Torneio Apertura do Campeonato Uruguaio. A taça foi batizada em homenagem de Abdón Porte, antigo capitão do Nacional que se matou há 100 anos, com um tiro no peito bem no gramado do Parque Central. E para honrar seu mártir, o Bolso fez uma campanha soberana. Apesar da perseguição insistente do rival Peñarol, os tricolores mantiveram um aproveitamento altíssimo, que desembocou na consumação do triunfo neste final de semana. Ainda não são “campeões nacionais” propriamente ditos, mas garantem um troféu, um motivo para comemorar e a presença na fase final do campeonato.

O Nacional foi praticamente perfeito no Apertura. Exceção feita a uma derrota inesperada para o Progreso, o Bolso não perdeu mais na competição. Venceu 12 de seus 15 compromissos. E mesmo que o Peñarol tenha conquistado 11 triunfos ao longo da campanha, os dois pontos de distância se mantiveram na reta final. Há duas semanas, aconteceu o clássico decisivo. Jogando melhor, os tricolores confirmaram o empate, que encaminhava a conquista. Então, bastou superar Atenas e Danubio para o título se concretizar. Apesar das dificuldades enfrentadas contra o Danubio neste sábado, dentro do Estádio Jardines del Hipódromo, o Nacional buscou a virada por 2 a 1. Sebastián Fernández anotou o gol do título já aos 39 do segundo tempo.

Partida encerrada, era hora de comemorar. E o gramado se tornou palco de uma grande festa. A memória de Abdón Porte permanecia firme, mas longe da tristeza que a cruel história pode sugerir. O senhor que relembrou o mártir próximo ao ônibus, inclusive, era um daqueles que haviam invadido o campo, de mãos dadas com o neto, querendo que ele se aproximasse dos jogadores. Que vivesse o sonho de ser tricolor, carregando a lembrança ao lado do avô por muito tempo. Já no alambrado, o elenco praticamente inteiro escalava para se unir ao setor visitante. Uma pena que, ao longo da noite, os relatos tenham dado conta de episódios de violência entre torcidas, com seguidores do Bolso ameaçando até mesmo crianças e mulheres com camisas do Peñarol.

O título vem em um momento importante ao Nacional. É uma motivação a mais para que o time, com boas chances de conquistar a classificação na Copa Libertadores, confirmando seu lugar nos mata-matas. Além disso, referenda o bom trabalho desempenhado pelo técnico Alexander Medina. Novato na profissão, em seu primeiro trabalho no elenco principal após comandar as categorias de base, o antigo atacante tricolor gerou um impacto positivo. Soube montar uma equipe bem protegida na defesa e que aproveitou as características de seus jogadores. Apesar de algumas dificuldades pontuais, o elenco superou os percalços para seguir sempre à frente do Peñarol.

O início da campanha, aliás, não prometia tanto assim. O Peñarol vinha cheio de medalhões, havia conquistado o título no torneio anterior e bateu os rivais na Supercopa em janeiro. Pior do que isso, o próprio Nacional demorou a se reforçar, com novas opções que chegaram em cima da hora nas preliminares da Libertadores. O encaixe não demorou a acontecer e, depois de superar embates difíceis contra Chapecoense e Banfield no torneio continental, a equipe concentrou suas forças no Apertura. Não é um time primoroso tecnicamente, mas se mostra competitivo, ao menos diante dos desafios que surgiram até o momento. Tem experiência e alguns nomes a se prestar atenção, como Christian Oliva, grande revelação da liga.

Por ter conquistado o Apertura, o Nacional se classifica à semifinal da “definição” do Campeonato Uruguaio, que será disputada no final do ano. Além disso, pela pontuação acumulada, está um passo à frente rumo à decisão. Depois do último título do Peñarol, há uma chance de dar o troco. E motivos não faltam, embora a manutenção do ritmo rumo ao segundo semestre seja um desafio notável. Por “la sangre de Abdón”, consumar a taça que realmente entra para os anais é o mais importante.