Fabio Carille foi de longe o técnico que começou o ano com menos prestígio entre os quatro grandes paulistas.  As críticas as seu trabalho vieram com o time conseguindo apresentar pouco futebol, mesmo sendo seguro defensivamente. Derrotas como a contra o Santo André, em casa, levantaram dúvidas e suscitaram críticas à falta de gols do time. Mas os grandes jogos, os clássicos, mostraram que o Corinthians era um time em construção. Vitórias contra Palmeiras e Santos, em casa, e empate com o São Paulo fora. Neste fim de semana, a vitória sobre o São Paulo no Morumbi por 2 a 0 na semifinal do Campeonato Paulista é só mais um passo nesse sentido, com melhora de desempenho.

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Que o Corinthians é defensivamente muito seguro não é novidade. Mais do que isso, era o esperado. O que Carille queria entregar era justamente isso. Não se cria um time de um dia para o outro e, por ter o nome menos badalado que os outros técnicos, teve que conviver com as críticas – algumas justas, outras nem tanto – sobre o desempenho pouco atrativo, ofensivamente insuficiente em alguns casos. Era esperado.

Justamente por ter menos nome, menos respaldo da diretoria e da torcida, precisava arrumar a casa a partir da defesa, perder poucos jogos. E esta é, também, a sua especialidade. Carille conseguiu fazer do Corinthians um time, aos poucos, fazendo funcionar melhor à medida que os jogos foram passando. E parece atingir o melhor nível desde o início do ano justamente no primeiro mês que tem jogos realmente decisivos na temporada.

A melhora de desempenho fica clara quando se olha um dos itens mais criticados do time – e admitidos tanto por jogadores quanto pelo técnico –, os passes errados. Nos últimos jogos, o time tinha errado mais de 50 passes. Contra o São Paulo, foram 37. Ainda há trabalho a se fazer, mas diminuir o número de erros de passe era fundamental. O time foi mais eficiente nos seus passes e também na criação de jogadas. A estratégia de dar campo ao São Paulo era clara, mas com a bola, só um dos dois times sabia o que fazer. E esse time era o Corinthians. Foi muito mais perigoso em seus ataques.

Os 2 a 0 que o Corinthians conseguiu no primeiro tempo não foram por acaso, em bolas esporádicas. O Corinthians era melhor no jogo. O São Paulo, com a bola, rodava de um lado para o outro sem saber o que fazer. Teve a chance com Pratto, em um cruzamento. Aliás, este foi o principal recurso do São Paulo na partida. Foram 37 durante o jogo, a maior parte, claro, sem levar nenhum perigo. Com menos posse de bola e menos chutes a gol, o Corinthians teve o mesmo número de chutes que acertaram o gol: quatro.

O Corinthians de Carille tende a crescer. Não é um time brilhante, assim como não era o de Tite em 2015, que teve um primeiro turno do Campeonato Brasileiro muito mais baseado na defesa do que no ataque. Era o time do 1 a 0, magro, mas eficiente. Aos poucos, o time ganhou consistência e se tornou, no segundo turno, o melhor ataque do Campeonato. Foi uma evolução. Claro que isso não quer dizer que o Corinthians de Carille será igual. Mas o trabalho dele segue essa linha: arrumar a defesa para, aos poucos, conseguir também melhorar no ataque. O time tem mostrado boas qualidades. Até onde o time pode ir é difícil de saber, mas o time mostrou força em jogos grandes e isso é importante pensando no ano todo, com Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil e nos desafios que esta equipe deve enfrentar.

Carille já mostrou que não é teimoso. Quando Jô não esteve bem, foi para o banco. Kazim ganhou a vaga. Não conseguiu manter o desempenho? Perdeu a posição. Fellipe Bastos foi trazido como um reforço. Jogou, não foi bem, foi para o banco e mal tem entrado. Maycon entrou, foi muito bem e não saiu mais. Carille não teve medo de mudar. Dá chance aos jogadores e os mantém se o desempenho é bom. Se não é, troca. Não fica insistindo na ideia se está dando errado. O seu trabalho é promissor. O time do Corinthians não é estrelado como alguns rivais nacionais como Flamengo e Atlético Mineiro, nem como o rival local Palmeiras. Mas Carille tem feito o time ser competitivo. Seu desafio será manter assim durante o ano e, mais do que isso, evoluir ofensivamente. Até aqui, os sinais são bons.

Está na hora de Rogério Ceni admitir que os adversários foram melhores

Mostrar estatísticas de posse de bola e finalizações nem sempre explica o jogo e foi o caso das derrotas do São Paulo diante de Corinthians e Cruzeiro. “O que o Cruzeiro fez para vencer a gente?”, questionou Rogério Ceni na coletiva de imprensa depois do jogo contra o Corinthians, antes de justificar, também, a derrota no Paulista: “Hoje, além de um chute bonito do Jadson, o que mais foi feito?”. Bom, nos dois casos, foram dois gols do adversário e poucas chances de gol do São Paulo. Isso é algo muito relevante, não só porque são o placar, mas porque o desempenho do São Paulo não foi bom, não importa a estatística que se use.

Com 61% de posse de bola, poderia se esperar que o São Paulo tivesse criado mais chances de gols. Não foi isso que aconteceu. O São Paulo tinha uma posse de bola improdutiva. Rogério trouxe de novo o argumento sobre ter mais posse contra times que vem ao Morumbi para se defender. O que isso mostra é só que o São Paulo fez exatamente o que o adversário esperava que fizesse. Cruzeiro e Corinthians deram a bola ao São Paulo, porque o tricolor de Rogério pouco consegue criar quando não tem espaços para jogar. E isso é o relevante na estatística.

É preciso admitir que o adversário foi melhor, inclusive, sim, em chances de gol. Além do chute de Jadson, o Corinthians levou perigo em outros lances também. Sem falar dos dois gols. E o São Paulo? Pouco. Quase nada. Chutes de fora e uma infinidade de cruzamentos – foram 37, como já citado. Destes, 22 no segundo tempo, com 17 da intermediária, risca da área e sem jogada trabalhada. Maicon, zagueiro, cruzou cinco vezes da intermediária. Do total de 37, sete certos. Apenas sete. Esta é uma estatística relevante.

O São Paulo parece sofrer para criar jogadas e não tem conseguido mostrar força sem ter espaço para jogar. E isso não significa que os times só se defendem. Só que tiram os espaços do time do Morumbi e aproveitam o que a defesa deixa. Admitir que o time adversário jogou melhor não é só uma questão de dar o braço a torcer. É de analisar e pensar em como resolver. É preciso mais variação de jogadas, mais formas de se chegar ao gol adversário. As formas que o time tem tentado não estão resolvendo.

Quando perguntado sobre estar satisfeito com o repertório ofensivo do time, disse que a pergunta era injusta depois de duas derrotas em casa por 2 a 0. Lembrou o ataque do time, o melhor do Paulista. Será que esse era o ponto relevante? O São Paulo não soube o que fazer com a bola. Sim, teve a posse. Foi afobado, desorganizado, precipitado. A ideia de jogo do São Paulo é interessante, mas é só uma ideia. É difícil ser implantada, sem dúvida, precisa de tempo e treino, mas isso era algo que Rogério e sua comissão já sabiam. Todos têm pouco tempo para treinar. Por enquanto, é só uma ideia. Mal executada, até aqui, contra os times grandes. Curiosamente, o clássico que o São Paulo venceu, contra o Santos, foi em um jogo que o tricolor de Rogério teve menos posse de bola e marcou seus gols em contra-ataques.

Talvez o São Paulo precise de tempo, talvez precise de mais treino e tudo isso é relevante, porque o São Paulo teve uma, apenas uma, semana livre até aqui. Assim como o Corinthians. Só que o Corinthians tem uma ideia de jogo que é mais baseada na defesa e, por isso, mais simples de ser implantada. Mesmo assim, o que se vê do São Paulo é uma ideia ainda com muitos problemas. Talvez problemas que custem duas eliminações, que estão muito próximas, na Copa do Brasil e no Paulista. Só que a análise do trabalho de Rogério tem que ser feita no fim do ano. Se até lá o time continuar com estes mesmos problemas, aí é caso de repensar.

O que não quer dizer que está tudo bem. Está na hora de Rogério Ceni olhar para estes problemas. Já que admiti-los parece demais para ele, que ao menos os reconheça internamente e comece a mudar e melhorar. Talvez seja o caso de uma adaptação de ideias. Isso é algo que ele terá que avaliar. O que é certo é que o time precisa resolver os problemas. E são muitos.