No começo, a música foi retomada como uma auto-ironia, o esporte mais praticado na Inglaterra, até mais do que o futebol. A torcida inglesa cantava “It’s coming home, football it’s coming home” (tradução: Está voltando para casa), letra composta para a Eurocopa de 1996 que brincava com os diversos fracassos do país em competições internacionais, com uma boa dose de sarcasmo. Mas, pouco a pouco, esse sarcasmo acabou virando esperança, e a música passou da auto-depreciação a um símbolo de uma relação renovada entre o povo e sua seleção. Os Três Leões comandados por Gareth Southgate não conseguiram passar da Croácia e chegar à final Copa do Mundo da Rússia. Mas alcançaram um feito até mais difícil: devolveram à torcida o direito de sonhar, o orgulho de torcer pelo seu time nacional.

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A Inglaterra demorou para participar dos torneios internacionais. Com muita arrogância, acreditava-se melhor do que os outros países sem precisar enfrentar viagens cansativas para provar o que considerava ser óbvio. Estreou em Copas do Mundo em 1950 levando uma paulada dolorosa do time semi-amador dos Estados Unidos. Três anos depois, foi humilhada em Wembley pela Hungria. Com exceção do Mundial que sediou, em 1966, e da boa campanha de 1990, a história inglesa em campeonatos de seleções é uma coleção de fracassos retumbantes, tanto que a semifinal na Rússia foi apenas a terceira do país e, na Eurocopa, o time sequer disputou uma final.

Com o tempo, os ingleses pararam de se decepcionar com a seleção simplesmente porque pararam de acreditar. Era uma relação cruel, jocosa, baseada em piadas, no descrédito e, por vezes, na mais profunda indiferença. Como um episódio repetido de uma série: a campanha começava com altas expectativas, aquela aura de “agora vai, apenas para terminar do mesmo jeito. Não foi muito diferente no aquecimento para a Copa do Mundo de 2018. Se com craques da estirpe de David Beckham, Steven Gerrard e Wayne Rooney nada tinha acontecido, qual chance teriam os jovens comandados por Gareth Southgate?

O nível de exigência foi menor, e isso talvez tenha feito toda a diferença. Na esteira de boas campanhas em torneios de base, e com um elenco muito jovem, dava para comprar o discurso de que esta geração estava sendo preparada para a Copa do Mundo de 2022. Isso geralmente é um pouco de cascata porque sempre exige um padrão mínimo de desempenho mais imediato. Mas, de fato, não se esperava muita coisa desta seleção inglesa na Rússia, além de um torneio digno. E os moleques acabaram entregando muito mais do que isso.

A começar pelo treinador. Southgate foi alçado quase por acaso ao cargo. Chegou a recusá-lo. Assumiu depois do escândalo de Sam Allardyce e foi ficando. Ele tem um perfil completamente distinto daquele a que a torcida inglesa se acostumou. Não é um medalhão, não é um nome desgastado da Premier League, não acumula rejeição e, mesmo entre ex-jogadores que comandaram a seleção, não tem o tamanho de um Bobby Robson ou de um Kevin Keegan. É jovem, discreto e tem boas ideias. Como resgatar um pouco do DNA antigo do futebol inglês, com um estilo forte na defesa e no jogo aéreo. A bola parada foi a grande arma da sua equipe na Rússia.

O elenco conta com alguns ótimos nomes, potenciais craques, mas ninguém é o jogador-celebridade que tantas vezes conturbou o ambiente da seleção inglesa. É mais fácil simpatizar com eles. O maior de todos é Harry Kane, muito mais discreto e avesso aos holofotes do que meros coadjuvantes de gerações anteriores. Esse foi o primeiro tabu a ser quebrado na Rússia. Outros viriam nas oitavas de final contra a Colômbia, quando os ingleses venceram a primeira disputa de pênaltis da sua história em Copas do Mundo e apenas a segunda contando também a Eurocopa.

Outro trauma superado foi o do goleiro. Jordan Pickford fez uma grande Copa do Mundo e concorre ao prêmio de melhor da posição. Fez uma defesa salvadora nos minutos finais contra a Colômbia e defendeu um pênalti. Acrescentou três intervenções providenciais contra a Suécia, nas quartas de final, e, contra a Croácia, abafou Mandzukic no mano a mano, evitando que o gol da derrota saísse mais cedo. Ele tem apenas 24 anos e muito tempo pela frente para construir uma carreira de sucesso na seleção inglesa.

A Inglaterra levou uma equipe jovem demais para a Rússia. Apenas Ashley Young e Jamie Vardy tinham mais do que 30 anos. A mensagem era clara: o melhor deste time viria no futuro. Mas esse tipo de mensagem sempre soa meio vazia, uma platitude para dirigentes se isentarem de responsabilidade. No entanto, o desempenho inglês na Copa do Mundo de 2018 corrobora o discurso, junto com as recentes vitórias em torneios de base. Esta seleção já tem alguns frutos desse trabalho, mais notoriamente o próprio Southgate, ex-treinador do sub-20. Mais nomes serão integrados no futuro, e a torcida tem razão em ficar otimista.

Mais importante do que isso, a torcida inglesa quer ficar otimista, e isso não é pouca coisa. A relação com a seleção que tantas vezes beirou o desprezo foi transformada pela campanha dos jovens de Southgate na Rússia. Muitos que começaram o torneio indiferentes e fazendo as mesmas piadas de sempre encontraram-se torcendo com afinco pela boa oportunidade que apareceu, graças ao formato das chaves, de voltar a disputar uma final de Copa do Mundo, de enfrentar a França, a grande rival França. E se decepcionaram com a derrota para a Croácia. Mas se decepcionaram apenas porque finalmente voltaram a acreditar.