Serão três edições consecutivas de Copa do Mundo. Apesar de toda a tradição da seleção uruguaia, emendar uma sequência tão grande de Mundiais vinha sendo um obstáculo para a Celeste desde 1974. De 1978 a 2006, os charruas mais se ausentaram da fase final do que participaram do torneio, com apenas três participações neste intervalo. Por isso mesmo, o feito alcançado nesta terça é tão expressivo, se garantindo em 2018 depois das presenças em 2010 e 2014. Demonstra a estabilidade que voltou a ser desfrutada pelo Uruguai. A solidez do trabalho de Óscar Tabárez. Em 11 anos à frente da equipe nacional, o Maestro formou uma base forte e, em um país no qual o material humano é limitado, vai colhendo frutos também nas categorias de base. Mantém o ‘Paisito’ na elite do futebol mundial de maneira irrefutável.

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Desde antes da última rodada, o Uruguai já tinha registrado sua melhor campanha desde que as Eliminatórias Sul-Americanas passaram a ser disputadas no formato de pontos corridos. Talvez a Celeste não tenha impressionado tanto quanto em outros momentos. Ainda assim, manteve um ritmo forte, superando os próprios entraves, como a suspensão de Luis Suárez e os problemas de saúde de Tabárez. O ótimo primeiro turno, aliás, valeu bastante ao sucesso da Celeste. Foram seis vitórias nas primeiras nove rodadas, além do empate contra o Brasil na Arena Pernambuco. O rendimento caiu na metade final da competição, mas a arrancada inicial já valeu bastante em uma disputa bastante equilibrada. E quando a pressão aumentou um pouco mais, os charruas responderam, especialmente no triunfo sobre o Paraguai no Defensores del Chaco.

Nesta terça, a situação do Uruguai era extremamente tranquila, por mais que a vaga direta não estivesse matematicamente garantida. A Celeste poderia até mesmo perder no Estádio Centenario diante da Bolívia, desde que três dos quatro times logo abaixo na tabela não vencessem, sendo que Peru e Argentina ainda precisavam tirar a diferença no saldo de gols. Não ia acontecer. Ao final, até rolou um susto, mas o triunfo por 4 a 2 sobre La Verde carimbou o passaporte. Gastón Silva deixou os andinos em vantagem graças a um gol contra bisonho. A virada saiu ainda no primeiro tempo, com Martín Cáceres e Edinson Cavani – graças a duas assistências do redimido Gastón Silva. Já na etapa complementar, Luis Suárez balançou as redes mais duas vezes, enquanto Diego Godín fechou a conta com mais um gol contra.

A classificação direta ainda livra o Uruguai de um risco recorrente ao longo deste século. Desde 2002, os charruas sempre haviam terminado na quinta colocação na tabela, disputando a repescagem. Tiveram sucesso em três das quatro tentativas, caindo apenas para a Austrália em 2006. De qualquer forma, havia um desgaste maior em planejamento e viagens aos uruguaios. Desta vez, a bomba acaba nas mãos do Peru, que precisará enfrentar a Nova Zelândia para se confirmar no Mundial.

Ao longo da campanha, uma das marcas do Uruguai foi a força no Centenario. Sete das nove vitórias foram conquistadas do templo do futebol charrua. E, se desconsiderarmos a goleada do Brasil, os uruguaios sofreram apenas três gols em seus outros oito jogos como mandantes. Neste sentido, o equilíbrio entre ataque e defesa se fez primordial na maior parte das partidas. Coesa sem a bola, para tentar proteger a meta de Fernando Muslera, a Celeste não costuma massacrar no ataque, mas sabe aproveitar suas chances. Se as referências no setor são óbvias, outro trunfo da equipe de Maestro Tabárez é a qualidade nas bolas paradas. As jogadas ensaiadas e o poderio aéreo renderam pontos importantes nestas Eliminatórias.

Já projetando o elenco para 2018, a seleção uruguaia vai em um momento de passagem de bastão. Os remanescentes das semifinais de 2010 talvez estejam em sua última Copa do Mundo. Dentre os protagonistas, os mais jovens são justamente Luis Suárez e Edinson Cavani. As duas armas letais do ataque anotaram 15 gols nesta campanha, mas o desgaste físico começa a cobrar seu preço, principalmente ao Pistoleiro. Sem dúvidas, os artilheiros impõem um respeito imenso nos adversários, mas cada vez mais os charruas precisam encontrar alternativas para não depender tanto das individualidades. Já na defesa, o capitão Diego Godín também é imprescindível. Outro que já possui idade avançada, aos 31 anos, e que talvez viva seu último Mundial. Contudo, há uma nova geração sendo preparada. E a simbiose entre os medalhões e as promessas deve orientar o trabalho de Tabárez durante os próximos meses.

Dono de ótimos desempenhos recentes nas categorias de base, sobretudo nos Mundiais Sub-20, o Uruguai realiza o processo de transição com alguns destes talentos. O nome mais experimentado desta “jovem guarda” é o de José María Giménez, importante na defesa ao longo do ciclo. Além do zagueiro, há outros nomes que despontam, inclusive no meio-campo. Maxi Gómez, Gastón Pereiro, Rodrigo Bentancur, Federico Valverde e Nahitan Nández vêm ganhando cada vez mais oportunidades. Opções necessárias, ainda mais considerando os questionamentos sobre alguns decanos que permanecem convocados por Tabárez. A maior dúvida fica para o nível de amadurecimento, diante de uma competição tão exigente como a Copa do Mundo. Tarimba também costuma ser um fator fundamental, e a Celeste já se beneficiou disso em diversos momentos.

Comparando com 2014, no último Mundial o Uruguai contava com astros em melhor fase, mas talvez o conjunto atual seja mais completo. E a chave para os charruas confiarem no sucesso quase sempre vem do trabalho coletivo forte, agraciado com a inspiração de seus homens de frente para sonhar alto. A Celeste não deve figurar entre os favoritos. Ainda assim, deve ser respeitada por qualquer um. A camisa pesa. E, mais do que isso, pesa também o comprometimento do elenco e o que faz Tabárez ao longo de uma década no comando da seleção.