Os leitores da coluna estão acostumados a verem aqui sobre campanhas históricas de equipes de menor porte, sejam clubes ou seleções. Equipes que desafiaram gigantes e protagonizaram grandes feitos, ainda que não tenham levantado taças. O tema de hoje, entretanto, passou longe da glória. Em momento algum no período retratado andou próximo de qualquer conquista – embora tivesse ambições consideráveis. Mas, de qualquer modo, obteve grande repercussão em seu tempo graças a uma boa dose de folclore envolvido, ainda que tenha se dissolvido em amargura. Lembramos aqui o Valladolid “dos colombianos”, estrelado pelo trio formado por Carlos Valderrama, René Higuita e Leonel Álvarez e dirigido por Francisco “Pacho” Maturana, que esteve no centro das atenções na temporada 1991/92 de La Liga.

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Desde o início da década de 1980, quando retornou à elite espanhola após longa ausência, o Valladolid já mantinha uma longa tradição de apostar em nomes um tanto, digamos, “lado B” do futebol latino-americano. O meia Gilberto Yearwood, um dos mais comentados da seleção de Honduras que disputou a Copa do Mundo de 1982 em solo espanhol, defendeu as cores do clube entre 1980 e 1983. Tempos depois, foi a vez de outro jogador que atuou naquele Mundial por uma seleção centro-americana, o atacante salvadorenho Jorge “Mágico” González, um verdadeiro cigano da bola. Houve ainda o goleiro argentino Carlos Fenoy, que se naturalizou espanhol e manteve-se como titular por quase uma década, entre 1980 e 1988, sendo lembrado como um dos cobradores oficiais de pênaltis da equipe.

Um pouco menos exóticos foram o chileno Patrício “Pato” Yáñez (outro que jogou a Copa de 82) e o uruguaio Jorge da Silva, que deixaram boas lembranças aos torcedores. A principal delas foi a participação no único título da história dos pucelanos: a Copa da Liga espanhola na temporada 1983/84. Para levantar a taça do efêmero torneio – do qual apenas quatro edições foram realizadas, entre 1983 e 1986 – os vallisoletanos despacharam, em partidas de ida e volta, o Zaragoza, o Sevilla e o Bétis, antes de baterem o Atlético de Madrid na decisão, com um implacável 3 a 0 na prorrogação no estádio José Zorrilla, após dois empates em 0 a 0 nos 180 minutos anteriores.

O título valeu ao clube sua primeira classificação para um torneio europeu (ainda que tenha caído logo na primeira fase da Copa da Uefa, diante do Rijeka), e impulsionou seu crescimento. Na virada dos anos 80 para os 90, o Valladolid era um clube ascendente no bloco intermediário do futebol espanhol. Seu auge veio na temporada 1988/89, quando terminou em sexto na liga e foi finalista da Copa do Rei, perdendo para o Real Madrid. Treinava aquela equipe o argentino Vicente Cantatore, cuja carreira se desenvolvera no futebol chileno, incluindo uma passagem pela seleção, mas que teve seu maior momento à frente do Cobreloa, por duas vezes vice-campeão da Copa Libertadores da América, em 1981 e 1982.

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Naquela época, o Valladolid também costumava revelar talentos. Em 1986, o meia Eusébio Sacristán debutaria na seleção espanhola, sendo negociado no ano seguinte com o Atlético de Madrid, juntamente com o lateral-esquerdo Juan Carlos (ambos mais tarde defenderiam ainda o Barcelona). O ponta Gabriel Moya também seguiria para os colchoneros em 1991, antes de passar por Sevilla, Valencia e Mallorca. Mas a joia da coroa seria o zagueiro Fernando Hierro, contratado pelo Real Madrid logo após a temporada mítica. De contrapeso, no entanto, chegaria um outro jovem promissor da cantera madridista, que se desenvolveria entre os vallisoletanos: um meia chamado José Luís Caminero.

A temporada 1989/90, porém, foi um tanto caótica: Cantatore saíra para o Sevilla, e o Valladolid acabaria comandado por três técnicos diferentes ao longo da campanha (entre eles, o iugoslavo Josip Skoblar, que ficou apenas nove rodadas no cargo). Na liga, o jeito foi brigar contra a degola. Menos mal, no entanto, que o doblete madridista do ano anterior havia valido aos pucelanos uma vaga na Recopa. Após não ter trabalho para despachar o Hamrun Spartans maltês e o Djurgardens sueco, o time cairia nas quartas de final, nos pênaltis, diante do Monaco dirigido por Arsène Wenger e que contava com, entre outros, os franceses Jean-Luc Ettori e Emmanuel Petit, o argentino Ramón Díaz e um liberiano recém-chegado ao principado chamado George Weah.

A aposta para recolocar o time nos trilhos na temporada seguinte recaiu sobre o colombiano Francisco Maturana, badalado pela revolução que havia feito na seleção de seu país e pelos títulos que havia conquistado em seu trabalho em paralelo no Atlético Nacional. “Pacho” Maturana assumira a Colômbia em junho de 1987, imediatamente obtendo um resultado histórico: o terceiro lugar na Copa América daquele ano, derrotando nada menos que a Argentina campeã do mundo, dona da casa e que contava com Diego Maradona. Dois anos depois, classificara o país para a Copa do Mundo da Itália, apenas a segunda disputada pelos cafeteros, então ausentes há 28 anos. No Mundial, levara ainda a seleção às oitavas de final, sendo derrotada na prorrogação pelo não menos surpreendente time de Camarões.

Enquanto isso, o técnico também levara o Nacional – o qual adotaria como base da seleção – a um patamar que os clubes colombianos nunca haviam chegado: partindo de um vice-campeonato nacional em 1988, perdendo para o Millonarios, os Verdolagas levantaram no ano seguinte a primeira Copa Libertadores para o país, batendo o Olimpia nos pênaltis na decisão. Em dezembro, em Tóquio, enfrentariam o fabuloso esquadrão do Milan de Arrigo Sacchi pelo Mundial Interclubes e segurariam o 0 a 0 até os 14 minutos do segundo tempo da prorrogação, quando um gol de falta de Alberigo Evani deu o caneco aos italianos. O currículo respeitável, especialmente para um treinador com pouco mais de quatro anos de carreira, levou “Pacho” Maturana ao futebol europeu, embarcando nos planos ambiciosos do Valladolid.

O elenco que Maturana encontrou ao chegar trazia bons nomes. Os destaques eram o zagueiro Andoni Ayarza (revelado pelo Athletic Bilbao), o armador Caminero, o meia e capitão Luís Mariano Minguela (há mais de uma década no clube e com passagem pela seleção), o ponta Moya e o centroavante Gregorio Fonseca. Curiosamente, incluía também dois brasileiros, recém-contratados do Grêmio: o zagueiro Luís Eduardo e o meia-atacante Cuca. O primeiro ficaria até o fim da temporada, retornando ao Brasil na metade de 1991, emprestado ao Palmeiras. Já o segundo faria as malas para voltar logo na virada do ano, e por ironia rumando para o Internacional, rival de seu ex-clube, também por empréstimo.

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Enquanto Cuca saía por uma porta, reclamando de quatro meses de salários atrasados, o primeiro reforço estrangeiro indicado por Maturana chegava por outra: o volante Leonel Álvarez, velho conhecido do treinador dos tempos de Atlético Nacional, titular da seleção colombiana, jogador de muita luta e fôlego, marcador vigoroso – às vezes um tanto demais: em sua primeira temporada, recebeu nada menos que 12 cartões amarelos em 21 jogos. Por ele, o clube desembolsou seis milhões de pesetas aos verdolagas.

Sua estreia seria no penúltimo dia de 1990, num empate em 0 a 0 contra o Bétis, no Benito Villamarín pela 16ª rodada. Os vallisoletanos ocupavam então um fraco 17º lugar, mas indicavam uma recuperação. No jogo anterior, haviam conseguido sua segunda vitória na liga, batendo o Valencia por 3 a 1 em casa. E na virada do ano, emendariam três triunfos: dois triunfos fora de casa sobre o Burgos e o Athletic Bilbao (ambos por 1 a 0) e, entre elas, uma goleada de 6 a 2 sobre um bom Tenerife.

Na segunda metade da temporada, o Valladolid faria campanha de recuperação. Da vitória sobre o Tenerife em diante, o clube venceria sete e empataria quatro de suas 12 partidas restantes no José Zorrilla – a única derrota seria um 5 a 1 para um Barcelona em estado de graça. Mesmo fora de casa foi possível beliscar alguns pontos importantes (venceu também o Logroñés e empatou com o Mallorca e o Cádiz). Na última rodada, o gol de Gregorio Fonseca que garantiu o triunfo pelo placar mínimo contra o Athletic Bilbao firmou os blanquivioletas em um bom nono lugar.

Com o promissor encerramento da campanha, era natural que a meta para a temporada 1991/92 fosse a de subir alguns degraus e conquistar a vaga na Copa da Uefa. Para isso, e com o apoio do presidente do clube, Gonzalo Gonzalo (sim, o nome é esse mesmo), Maturana recrutou outros dois compatriotas, já familiarizados com seu trabalho, que formariam a espinha dorsal da equipe: o goleiro René Higuita, também oriundo do Atlético Nacional de Medellín, e o meia Carlos Alberto Valderrama, que já atuava no futebol europeu, defendendo o Montpellier. Com o treinador e os dois reforços somados a Leonel Álvarez e ao auxiliar técnico e preparador físico Diego Barragán, que havia chegado junto com Maturana, a “conexão colombiana” em Valladolid já formava um quinteto.

Por pouco, entretanto, o grupo quase não se reuniu. Em maio daquele ano de 1991, “Pacho” Maturana foi fortemente especulado para assumir o posto de treinador do Real Madrid, que havia feito campanha turbulenta na primeira temporada após o pentacampeonato levantado pela Quinta del Buitre, e a qual atravessou sob o comando de três técnicos diferentes. Maturana era o nome preferido pelo presidente merengue Ramón Mendoza e sua contratação chegou a ser anunciada por alguns órgãos de imprensa. Mas o encontro para a formalização da proposta nunca chegou a acontecer, e no dia 6 de junho o iugoslavo Radomir Antic era reconduzido ao cargo do qual, na verdade, nunca havia sido removido.

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Maturana, que já havia inclusive entregado seu apartamento em Valladolid, retornou para recolocar os planos dos pucelanos na ordem do dia. Ainda em junho, no dia 29, Valderrama era apresentado como novo reforço, assinando por três temporadas. Houve polêmica com a Federação Colombiana, já que o jogador deixou a concentração da seleção, que se preparava para a Copa América a ser disputada no Chile dentro de uma semana, para viajar à Espanha. Mas tudo foi rapidamente resolvido, e o meia se incorporou ao elenco em definitivo após o torneio, no início de agosto.

A negociação com Higuita foi mais complexa e se arrastou por um longo período, já que havia uma relutância em permitir a transferência do goleiro, considerado um personagem muito querido em Medellín e em todo o país. Apenas em 13 de agosto a imprensa espanhola anunciava o acerto do clube com o arqueiro, então considerado um dos melhores de todo o continente americano. Uma semana depois, ele e seus compatriotas entravam em campo pela primeira vez juntos defendendo os blanquivioletas num amistoso de pré-temporada no estádio José Zorilla. O adversário era justamente o Atlético Nacional. Com raros lances de emoção, a partida acabou sem gols.

O Valladolid contava ainda com um quarto estrangeiro, completando o limite permitido na época. Era outro goleiro, o iugoslavo Mauro Ravnic, de 31 anos, com passagem por sua seleção e contratado pelo clube em 1988. Titular em seus primeiros anos, ficara de fora de toda a temporada 1990/91 recuperando-se de uma cirurgia de hérnia. Também sofria à distância com a guerra instaurada nos Balcãs (era croata de Rijeka). E agora teria ainda menos chances de recuperar a posição. Mesmo assim, rejeitou uma proposta de empréstimo ao Lleida, da segunda divisão, para ficar no clube e disputar a camisa 1 com Higuita.

Os outros reforços viriam mesmo das categorias de base ou das divisões inferiores do futebol espanhol. O meia Vicente Engonga, de 26 anos, vindo do Sporting Mahonés, foi quem mais causou impressão. Natural de Barcelona e filho de pai oriundo da Guiné Equatorial, chegou ao clube chamando a atenção pelo estilo de cabelo que se assemelhava ao do trio colombiano. Meses depois, receberia a companhia de seu irmão mais novo Óscar, meia também trazido do Mahonés e com passagem pela cantera barcelonista. Além deles, também chegaram para compor o elenco o meia Carlos Guerrero, vindo do Atlético Madrileño (filial colchonera), e o atacante Roberto Martínez, do recém-rebaixado Salamanca.

Assim, a equipe-base do Valladolid para aquele início de temporada começava por Higuita no gol. A novidade da linha de defesa era o recuo de Caminero para a zaga central, aproveitando sua estatura (1,87m), liderança e qualidade na saída de bola. Formava boa dupla com César Gómez, assim como ele proveniente do Castilla, a filial madridista. Pelos lados, havia revezamento: Patri ou Cuaresma atuavam na lateral direita, enquanto pela esquerda a titularidade era disputada entre Santi Cuesta (recém-promovido da base) e o experiente Lemos (que também chegou a jogar pelo lado oposto).

No meio-campo não havia dúvidas, com os donos das posições bem definidos: Leonel Álvarez e Vicente Engonga eram os cães de guarda do setor, contando eventualmente com o auxílio de Minguela na marcação. O veterano capitão também colaborava com Valderrama, alçado ao posto de cérebro da equipe, na criação das jogadas. Carlos Guerrero era o reserva imediato, aparecendo esporadicamente. Na frente, municiados por Valderrama, jogavam Onésimo e o goleador Gregorio Fonseca, que balançara as redes 14 vezes na temporada anterior e esteve na mira do Barcelona, mas acabou convencido a ficar. O suplente utilizado com mais frequência no setor era Roberto Martínez.

O sistema de jogo empregado por Maturana era semelhante ao do Milan de Arrigo Sacchi (havia admiração recíproca entre os dois, que estavam sempre em contato). Faziam parte da cartilha a pressão na saída de bola do adversário, a defesa adiantada com quatro homens em linha, o senso de cobertura dos demais setores em relação à defesa pelo meio e pelos lados, além das saídas em velocidade para o ataque com o maior número possível de jogadores quando a bola era retomada. O “algo mais”, que conferia uma dose de excentricidade à equipe, era o posicionamento de Higuita como um verdadeiro goleiro-líbero, atuando adiantado e participando da construção da saída do jogo. Era o que ficou conhecido como o 1-4-4-2.

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No papel, uma receita muito interessante. Mas que demandava um certo tempo e paciência para que fosse sendo compreendida e resultasse em vitórias. No entanto, logo se veria que paciência não era algo que os torcedores tinham de sobra. O time estreou na liga 1991/92 recebendo o Sporting Gijón no dia 1º de setembro. Ainda sem demonstrar coordenação satisfatória entre suas linhas e com seus ataques parando seguidamente nas mãos do goleiro asturiano Emilio, o Valladolid teve sua missão ainda mais complicada aos 11 minutos da etapa final: o tcheco Luhovy bateu falta rasteiro, a barreira abriu e Higuita não teve como reagir. O gol descontrolou os blanquivioletas, que não conseguiram evitar a derrota e saíram vaiados de campo. Começavam ali meses turbulentos.

A reação imediata se mostraria ainda mais difícil quando a tabela marcava a visita ao Santiago Bernabéu logo na segunda rodada. A equipe até fez uma boa partida, mas sofreu um gol logo aos 14 minutos: Michel cruzou da direita, Butragueño cabeceou e Higuita espalmou. A bola bateu na trave e sobrou para Aldana completar. Mais tarde, Michel protagonizaria um episódio que se tornaria famoso, provocando Valderrama com uma “patolada” antes de uma cobrança de escanteio. Por fim, o árbitro deixou de marcar um pênalti para cada lado – ambos em jogadas envolvendo Onésimo – e os vallisoletanos seguiram sem balançar as redes e sem pontuar na liga. Um mau começo.

Na terceira rodada, o ambiente ruim já havia chegado para ficar. O time voltou a perder em casa, agora para o Logroñés, por 2 a 1. Higuita falhou no primeiro gol, marcado pelo austríaco Polster, saindo em falso após um cruzamento logo aos dois minutos. Os pucelanos empataram aos seis com Roberto Martínez, mas no último minuto da primeira etapa, os riojanos passariam novamente à frente em outra falha do arqueiro colombiano, provocando a fúria dos torcedores locais. Valderrama também andou irritado em campo, e ameaçou deixar o campo aos dez minutos, após um incidente com o árbitro, que lhe mandou tirar os brincos que usava. O caldeirão fervia.

Paralelamente, e agravando ainda mais o quadro, o clube vivia outro drama: um relatório apresentado à junta diretiva por um grupo da oposição indicava que as dívidas do Valladolid haviam ultrapassado um bilhão de pesetas. Depois de inicialmente se recusar a aderir ao Plano de Saneamento financeiro proposto pelo Governo espanhol e pela Liga – que tinha como contrapartida a obrigatoriedade de que as agremiações se transformassem em sociedades anônimas, os blanquivioletas chegaram a pedir ajuda à prefeitura local e ao governo da província de Castela e Leão, mas as conversas não foram muito adiante.

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Do montante, quase 700 milhões de pesetas eram relativas a dívidas fiscais, mas havia ainda débitos de 133 milhões em salários e premiações do elenco e de 55 milhões em relação à previdência social. Mesmo algumas transferências não foram pagas: o Grêmio não havia recebido os 15 milhões estipulados pela venda de Cuca um ano antes, e o Atlético Nacional também ainda não recebera um centavo por Higuita – levando a especulações de que o arqueiro poderia ser simplesmente devolvido. Para piorar, a expectativa para a nova temporada era bater novamente no vermelho, com os gastos superando as receitas em cerca de 345 milhões. Sem muitas opções, o clube vivia a ameaça de fechar as portas por insolvência.

A quarta derrota em quatro jogos, que afundou a equipe na lanterna da competição, diante do Deportivo La Coruña por 1 a 0 no Riazor, não ajudou a melhorar o cenário – ainda que os jogadores reclamassem de um gol anulado por impedimento e um pênalti não marcado, além de lamentarem uma bola na trave de Fonseca perto do fim da partida. Além de tudo, a sorte parecia não estar do lado dos pucelanos. Felizmente, por outro lado, as notícias indicavam que o clube estava prestes a ser salvo por um grupo de empresários, que intencionavam quitar parte da dívida para poder incluir o Valladolid no Plano de Saneamento, já que as receitas, especialmente de bilheteria, vinham sendo decepcionantes naquela temporada.

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Dentro de campo, um alívio chegaria na partida seguinte, contra o Albacete – que curiosamente também se apoiava em jogadores latino-americanos, como o goleiro costarriquenho Conejo e o atacante boliviano Etcheverry – em 6 de outubro no estádio José Zorrilla. O gol da vitória por 1 a 0, entretanto, foi construído e concluído por dois jogadores recém-puxados da base (passe do lateral Ferreras para a finalização do atacante Pereira). O autor do gol também sofreu um pênalti não marcado que provocou protestos e cartões amarelos a Valderrama, Leonel Álvarez e até ao técnico Maturana (sua primeira advertência na carreira). O volante, aliás, seria expulso nos minutos finais por cometer falta dura.

Após voltar a perder no jogo seguinte – 1 a 0 para o Burgos fora de casa, com direito a pênalti perdido por Fonseca no fim do jogo – a equipe ensaiou uma reação. Bateu o Mallorca em casa (2 a 1), o Espanyol em Barcelona (2 a 0) e arrancou um empate em 2 a 2 diante da Real Sociedad novamente no José Zorrilla, após estar em desvantagem de dois gols. Houve momentos de brilho, como os gols de Fonseca contra os baleares (após troca de passes e toques de calcanhar de Valderrama e Onésimo) e os pericos (Valderrama abriu na direita para o cruzamento de Leonel Álvarez e o arremate do centroavante). Mas o tento dos maiorquinos, encobrindo um Higuita adiantado, ainda evidenciava a insegurança defensiva constante.

De qualquer maneira, a boa sequência havia tirado os vallisoletanos da zona rebaixamento, fazendo-os pular para a 12ª colocação. O próximo confronto, no entanto, era em La Romareda contra um Zaragoza em boa fase. Higuita fez um ótimo primeiro tempo, com defesas cruciais, e parecia se redimir de suas falhas anteriores. Mas logo no início da etapa final, cometeu pênalti que Pardeza converteu para abrir a vitória dos locais por 2 a 0.

O goleiro seria muito vaiado e hostilizado pelos próprios torcedores no jogo seguinte, diante do Oviedo, quando escapou por sorte de sofrer mais um gol de cobertura (a bola quicou e bateu no travessão) e viu o árbitro ignorar um pênalti cometido por ele sobre o atacante Carlos. A partida terminou empatada em 1 a 1, com Valderrama marcando seu primeiro – e único – gol com a camisa blanquivioleta, após receber passe de Vicente Engonga. Mas o meia também não fez boa partida: seu jogo cadenciado em excesso e de pouca combatividade não agradava aos torcedores, que também o vaiaram.

E então viria o fundo do poço, na segunda visita a Madri, para enfrentar o Atlético no Vicente Calderón. Se Higuita e Valderrama já vinham sendo hostilizados, agora até mesmo Leonel Álvarez – antes salvo dos apupos por ter mais tempo de casa e um estilo mais aguerrido – virou alvo dos protestos. Tudo por causa de um toque de mão dentro da área logo no primeiro minuto de jogo, num pênalti convertido por Manolo. A atuação desastrosa dos pucelanos, especialmente na etapa final, facilitou o trabalho dos colchoneros, que dispararam uma goleada de 5 a 1.

Embora sustentasse que havia uma campanha contrária a seus compatriotas levada a cabo por torcedores radicais, Maturana, que se disse “envergonhado” após a derrota e aventou a possibilidade de não mais escalar o trio nos jogos em casa para poupá-los das hostilidades. “O mau ambiente criado prejudica todo o conjunto, e por isso é preciso tentar evitá-lo”, avaliou o treinador. Os insultos proferidos pelos torcedores blanquivioletas variavam de referências às drogas, no caso de Higuita, ao incidente com o madridista Michel, no caso de Valderrama.

O goleiro, por sua vez, desabafou em entrevista ao jornal catalão Mundo Deportivo. Revelou que vinha recebendo telefonemas anônimos ameaçadores, comentou sobre salários atrasados e a delicada situação financeira do clube (“quando não se recebe o que foi acordado fica muito difícil poder render bem”) e sua decepção com o estado geral das coisas: “Vim para cá com esperanças imensas, achando que acrescentaria muito à equipe. Mas tudo está saindo ao contrário do que imaginei”, lamentou. “Às vezes penso em fazer as malas e ir embora. Os dirigentes sabem disso. Já disse a eles que se as coisas não melhorarem, nem volto da Colômbia”, rebateu, referindo-se à pausa de fim de ano no calendário da liga.

Foi o que fez. Três partidas após a goleada no Vicente Calderón, o Valladolid empatou com o Tenerife em 2 a 2 numa tarde fria, diante de um estádio José Zorrila com menos da metade de sua capacidade. Depois do jogo, Higuita declarou que estava deixando o clube para retornar a seu país. “Espero que com minha saída a equipe vá muito melhor e desejo a ela toda a sorte do mundo. Não funcionou como eu esperava”. Desgastado física e psicologicamente, acrescentou: “Minha cabeça não está bem e o resto do corpo também não me acompanha”. Ravnic, que vinha ficando no banco desde que fora reintegrado ao elenco, retomou a titularidade para até o fim da temporada.

Higuita retornou ao Atlético Nacional na virada do ano. Enquanto isso, seus compatriotas de linha ainda passariam por mais um mau bocado em campo no jogo contra o Barcelona no Camp Nou, em 12 de janeiro. Aos 27 minutos, o Barcelona abriu o placar com Julio Salinas num lance iniciado com a não marcação de uma falta clara em Leonel Álvarez. Furiosos, o volante e Valderrama reclamaram acintosamente com o árbitro e foram ambos expulsos. O Barça ainda faria mais um gol com Salinas (em posição duvidosa), antes de os pucelanos descontarem com Vicente Engonga. Aquela seria a última partida dos dois colombianos remanescentes pela equipe do Valladolid.

Assim como no caso de Higuita, foi o fim da carreira europeia de Valderrama e Leonel Álvarez, e ambos retornaram à Colômbia. “El Pibe” foi negociado com o Independiente Medellín, enquanto o volante assinou com o América de Cali. Maturana, por sua vez, permaneceria por mais tempo, sendo demitido apenas no começo de abril, após um empate sem gols em casa com o Zaragoza, pela 29ª rodada. Em seu lugar, entraria interinamente Javier Yepes Peñas, ex-treinador da base pucelana e que naquele momento exercia o cargo de secretário técnico do clube.

Na ocasião da queda de Maturana, o Valladolid ocupava a 17ª posição, o que significaria disputar um playoff de acesso e descenso contra o quarto colocado da segunda divisão. Ironicamente, sustentava uma série de 12 jogos sem perder e quatro sem sofrer gols jogando no José Zorrilla. Havia batido até mesmo o Real Madrid, que liderava a competição, no começo de fevereiro. Nas mãos de Yepes, o time piorou: apanhou em casa do Valencia (4 a 1) e do Barcelona (6 a 0), despencou para o penúltimo lugar e, dos nove jogos em que o interino esteve no comando, os blanquivioletas só venceram o último, 1 a 0 contra o Sevilla.

O triunfo na última rodada se revelaria inútil: o Cádiz empatou em casa com o Sporting Gijón e evitou o descenso direto, rebaixando os pucelanos juntamente com o lanterna Mallorca. O Valladolid retornaria à elite já na temporada seguinte, como vice-campeão da segundona (atrás do Lleida), superando o Racing Santander no saldo de gols. E voltaria até mesmo às competições europeias, graças ao bom sétimo lugar obtido na temporada 1996/97, novamente sob o comando de Vicente Cantatore.

Curiosamente, aquele elenco incluía um colombiano: o meia John Harold Lozano, companheiro de seleção de Higuita, Valderrama e Leonel Álvarez. E, mantendo a ligação histórica com a América Latina, havia espaço para um boliviano (o zagueiro Juan Manuel Peña), um uruguaio (o meia Álvaro Gutiérrez) e dois brasileiros (o zagueiro Júlio César e o meia Edu Manga, ex-Palmeiras) – além de um balcânico (outra região com vários atletas presentes na histórica do clube), o goleador croata Alen Peternac.

Assim, apesar da experiência fracassada da temporada 1991/92, o elo com o futebol cafetero não foi desfeito. Tanto que, em julho deste ano de 2017, o Valladolid (hoje na segunda divisão) anunciou a chegada de quatro jovens jogadores para sua equipe filial provenientes do Watford, numa medida de aproximação dos blanquivioletas com o grupo liderado pelo empresário italiano Giampaolo Pozzo, que comanda o clube inglês, além da Udinese. Os quatro garotos eram colombianos.