Durante todo o tempo em São Januário, a atmosfera permaneceu ruidosa. O canto da torcida vascaína ressoava, mas não apenas isso. Dava para ouvir as vaias insatisfeitas no primeiro tempo, os xingamentos com as decisões do juiz e, principalmente, aquele chiado que representa a multidão inquieta, que não para de rogar por algo a mais. É um eco deste Vasco, que possui suas limitações, e nem por isso desiste. O barulho, afinal, transformou-se em grito de gol na reta final do segundo tempo. E seguiu como apoio em instantes agonizantes em busca da virada. Mesmo jogando com um a menos por mais de meia hora, os cruzmaltinos arrancaram o empate por 1 a 1 contra o Racing. Não foi suficiente ao estampido final pela vitória. Ainda assim, rendeu o suspiro aliviado de quem tem esperanças.

O Vasco possui um time cheio de deficiências. E isso se agravou ainda mais depois da lesão de Paulinho, aquele responsável por dar um toque diferente à equipe. Nesta quinta, a alternativa de Zé Ricardo foi começar com Thiago Galhardo no meio. Ele batalhou bastante e apareceu ao jogo, mas não que tenha resolvido tanto na etapa inicial. Os cruzmaltinos tinham dificuldades para sair ao ataque, diante da marcação adiantada do Racing. Além disso, a Academia jogava nos erros dos anfitriões. Que não tenha criado muitas chances de gol na primeira etapa, era superior pela maneira como tinha controle das situações. Propunha o jogo e se sentia confortável em São Januário.

O gol do Racing saiu aos 31 minutos, a partir de um escanteio para o Vasco. Os argentinos armaram um contra-ataque fulminante. Ricardo Centurión foi o responsável por puxá-lo, disparando por quase todo o campo de ataque e conduzindo a bola com consciência. Então, Lautaro Martínez se infiltrou na linha defensiva adversária e recebeu um passe perfeito do companheiro. Martín Silva defendeu o primeiro arremate, mas o rebote sobrou para o camisa 10. E ele demonstrou a quantidade de recursos que possui, mesmo com o caminho bloqueado por Wellington. Quando muitos certamente ajeitariam a bola, o prodígio não deu tempo para o goleiro se recuperar, batendo de primeira com a parte externa do pé e tirando do volante cruzmaltino. Belíssima definição.

O Racing se tranquilizava com a vantagem, embora o primeiro tempo tenha terminado tenso. Ocorreu uma confusão nas arquibancadas, entre a polícia e a torcida argentina. Os jogadores da Academia se dirigiram à beira do campo pedindo calma, além de jogarem água para que os racinguistas se recuperassem do gás de pimenta atirado pelas forças de segurança. Em minutos finais sem muito clima, os visitantes deram um susto, em chute de Lisandro López que passou ao lado da meta de Martín Silva. Na saída de campo, misto de vaias e aplausos ao Vasco.

O segundo tempo começou aberto, com boas chances de ambos os lados. O Vasco quase empatou em uma falta cobrada por Yago Pikachu, que cruzou a pequena área e saiu ao lado da trave após desvio no pagode. Mas quando as expectativas cresciam, veio um anticlímax pela expulsão de Desábato, aos 13. O meio-campista calçou Lautaro Martínez e recebeu o segundo amarelo. Aí até parecia que a vaca tinha ido para o brejo. O Racing acelerou um pouco mais e quase ampliou. Em um ótimo lance individual de Lisandro, Donatti acabou batendo por cima do travessão.

A vontade do Racing, de qualquer maneira, seria momentânea. Logo os argentinos preferiram se resguardar. E na base da insistência, mesmo com a desvantagem numérica, o Vasco saiu para o abafa. Era um time que sofria com suas limitações técnicas, mas tentava encontrar uma bola vadia, investindo principalmente nos cruzamentos. Riascos entrou no lugar de Wellington para dar mais potência nesse desespero. E a Academia só não matou a partida em um contra-ataque porque Martín Silva se agigantou. Aos 32, o time construiu uma boa trama, para Lautaro Martínez sair de frente para o crime. Bateu em cima do goleiro.

Por fim, a guerra travada pelo Vasco deu resultado aos 35. Um chute prensado de Andrés Ríos parou em defesa de Juan Musso. No rebote, Wagner emendou às redes. Crescendo com a torcida, o Vasco acreditou que esta poderia ser mais uma das noites do time da virada. Debatia-se em busca do espasmo final. Todavia, careceu de um jogador que realmente pudesse fazer a diferença. Pikachu foi quem mais se aproximou disso, aos 42, em chute rasteiro de fora da área. Musso espalmou, em grande intervenção. O suor escorreu até o último segundo, sem ser recompensado por completo.

Dentro do que o Vasco tem à sua disposição, dá para entender a campanha na Libertadores. Há um esforço acima das qualidades do elenco comandado por Zé Ricardo e através disso é que se acredita num milagre. Mas, neste momento, uma vaga para a sequência da Copa Sul-Americana já cairia muito bem aos cruz-maltinos. Seria ao menos um prêmio pela luta, quando não se consegue competir em igualdade contra um adversário superior tecnicamente, como o Racing – e que até se acomodou ao longo dos 90 minutos.

Com dois pontos, o Vasco é o lanterna do Grupo 5. Precisa vencer seus dois jogos finais, contra Cruzeiro e Universidad de Chile, e torcer para que o Racing ao menos empate contra ambos. A Academia lidera a chave com oito pontos, a um passo dos mata-matas, enquanto mineiros e chilenos têm cinco. Ainda é um cenário aberto, de esperanças mínimas aos cruzmaltinos, mas longe de qualquer desistência.