A campanha do Vasco na Copa Libertadores tinha vários motivos para ser marcante, e não por algo positivo. As goleadas e a montanha-russa nas preliminares haviam ficado para trás.  Na fase de grupos, prevaleceu a fragilidade da defesa, a falta de capacidade do ataque, o desnível evidente em relação aos dois classificados, a insatisfação da torcida em São Januário. Como se não bastasse, a birra de jogadores, que não souberam lidar com as críticas. Mas, por fim, o espírito de um time que não desistiu jamais e se despede da competição, apesar de tudo, como um agraciado. Afinal, a despeito de todos os poréns e das deficiências, a classificação à Copa Sul-Americana (até pela maneira como aconteceu) soa como um final feliz. Os cruzmaltinos encararam as adversidades e voltam de Santiago com a vitória por 2 a 0 sobre a Universidad de Chile, a primeira e única nesta etapa da competição, suficiente para a repescagem. Não deixa de ser heroico.

A derrota do Vasco em casa para La U, logo na primeira rodada, dificultou bastante a sua vida e criou falsas esperanças aos chilenos. Logo se viu, até pelas derrotas acachapantes que o time azul também sofreu, que eles estavam no mesmo barco de desalento dos cariocas. E isso mostrava uma luz, ao final de tudo, para o time de Zé Ricardo. Bastava dar o troco, com a vitória no Chile, para que os meses de penúria não fossem em vão e o clube ganhasse uma nova motivação após a Copa do Mundo, ao menos permanecendo nas competições continentais.

E a sorte sorriu ao Vasco logo aos 14 minutos, quando aconteceu o gol que deu a vantagem em Santiago. A Universidad de Chile já esboçava uma pressão inicial, quando Andrés Ríos criou a brecha no ataque. Arriscou e parou no goleiro Fernando De Paul, mas o chute cruzado gerou o rebote a Bruno Silva, que não perdoou, inaugurando o marcador. Com a vantagem mínima, os vascaínos empatavam com os azules em todos os critérios possíveis na competição continental. O desempate ficava para o Ranking da Conmebol, o quinto e último critério, que favorecia os chilenos. Assim, os visitantes precisavam de mais um gol marcado, mesmo que tomassem um.

A sequência do primeiro tempo, entretanto, trouxe sofrimento ao Vasco. O time vinha com uma estratégia cautelosa, para buscar os contra-ataques, mas a verdade é que penou com a pressa da U de Chile. Os azules se impunham no campo de ataque e tentavam abrir brechas, principalmente com o venezuelano Yeferson Soteldo. Os cruzmaltinos se seguravam como podiam na marcação, até dando sorte pelos erros de conclusão dos anfitriões. No miolo da zaga, Breno oferecia outra cara ao sistema defensivo de Zé Ricardo, passando uma segurança que nenhum outro zagueiro disponível conseguiu. Muito atentos, os cariocas iam bem para travar os oponentes. E quando foi necessário, Martín Silva fez duas grandes defesas, em arremates de Rafael Vaz e Mauricio Pinilla.

O Vasco, que pouco fez no ataque durante a parte final do primeiro tempo, voltou do intervalo mais ofensivo. A bomba de Wagner que triscou a trave logo nos minutos iniciais já seria um belo aviso. La U seguia com mais posse de bola, embora diminuísse seu ímpeto. Com o passar do tempo, o relógio parecia amigo dos chilenos, já que a derrota por 1 a 0 valeria para eles. E fato é que os azules tiveram sua dose de covardia, preferindo administrar a vantagem em vários instantes, em vez de acuar os visitantes.

Na sequência da partida, o Vasco começou a se soltar mais no campo de ataque. Wagner e Ríos chamavam a responsabilidade. Riascos e Kelvin davam novo vigor ao setor ofensivo. O colombiano quase marcaria o seu, em bola salva na hora H por Nicolás Guerra, enquanto Rafael Vaz quase entregou o ouro, com a defesa azul se recuperando. Do outro lado, claro, La U vinha uma vez ou outra, mas sem o mesmo ritmo forte da etapa inicial. Estava claro que um vacilo seria suficiente aos cruzmaltinos. E ele veio aos 36.

Martín Silva, no saldo final, foi o herói da classificação do Vasco. Suas tantas defesas evitaram um estrago pior nas goleadas e sustentaram as esperanças rumo a Santiago. Pois não parecia haver outro personagem para permitir a reviravolta, com um chutão na reposição que se transformou em assistência. A bola longa ao ataque buscava Yago Pikachu, mas contou essencialmente com o erro de Gonzalo Jara no corte. O veterano deixou a bola passar e o baixinho, saindo às suas costas, deu um toque de cabeça para vencer o goleiro De Paul. Um épico a quem não desacreditou. O reconhecimento ao esforço dos cruzmaltinos.

No final, a Universidad de Chile passou a precisar de dois gols. Àquela altura, com a vantagem do Vasco no saldo, o desconto dos azules não adiantava, já que os cruzmaltinos se dariam bem no quarto critério, o número de tentos anotados fora de casa. Não que os chilenos tenham desistido, voltando a insistir no ataque. Mas o desespero foi um tanto quanto inútil e o terceiro gol até poderia ter vindo aos cariocas. Ao final, a comemoração de um time que superou os problemas internos, nos mais diferentes sentidos, para poder triunfar. Dentro das limitações, não deixa de ser um resultado excelente. Os cruzmaltinos estarão na Sul-Americana.

O Vasco se contenta com um prêmio menor? Pode até existir esta discussão. Mas dentro das dificuldades enfrentadas pelo clube, diante das deficiências de seu elenco, superando as questões financeiras e a indisciplina de jogadores, o vaga na outra competição continental está mais do que suficiente. Os cruzmaltinos seguem vivos e com um objetivo a lutar, num cenário onde suas chances de fazer uma campanha razoável são maiores. Ainda há muito a melhorar, claro. Mas as suspensões dos jogadores arredios não foi ruim, considerando que realmente não vinham bem. O ataque, a despeito das outras cinco partidas, funcionou. E a defesa demonstrou uma confiabilidade que não dependeu somente de Martín desta vez.

Há vida em São Januário. Há orgulho. Não é uma grande equipe, como os resultados expunham, mas atitude nunca foi problema aos comandados de Zé Ricardo – nem mesmo nas derrotas, que puniam mais as carências do que qualquer tipo de acomodação. O triunfo em Santiago ressalta isso. O Vasco, enfim, se superou. E sai com um sorriso de uma campanha que poderia ser negativamente histórica, mas valeu pela perseverança.