Quem acompanha a atual Premier League talvez se espante com a afirmação, mas o West Bromwich Albion foi um dos clubes mais glamourosos do futebol inglês nos últimos anos da década de 70. Com seu futebol ofensivo, quase artístico para os padrões da ilha, e bastante dinâmico em campo, combinado à aura de cosmopolitismo do fato de contar com três excelentes jogadores negros como titulares numa época em que isso ainda era bastante raro nos gramados de lá, os Baggies angariaram grande simpatia de parte dos torcedores de outros clubes, feito bastante notável num jogo fortemente enraizado em regionalismos e progressivamente marcado pelas demonstrações racistas em vários pontos pelo país.

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A temporada 1978/79 foi a mais simbólica e representativa deste período: a equipe comandada por um ascendente treinador, Ron Atkinson, terminou numa ótima terceira posição na liga – na qual chegou a ocupar a liderança por um breve período e brigar pelo título contra os fortes Liverpool de Bob Paisley e Nottingham Forest de Brian Clough – e fez partidas marcantes pela Copa da Uefa, graças em boa medida ao talento de seu trio de astros negros, formado pelo lateral Brendon Batson, o ponta Laurie Cunningham e o centroavante Cyrille Regis, imortalizados pela alcunha de “Three Degrees”, em alusão a um grupo vocal norte-americano da época.

West Brom, um clube em busca da glória perdida

Após a conquista de seu último título, a FA Cup de 1968, o West Bromwich Albion vinha experimentando um lento declínio em meados da década de 1970. A equipe que havia batido o Everton em Wembley e levantado a taça pela quinta vez na história do clube aos poucos envelhecera e se desmantelara. Principal referência técnica daquele time, o atacante Jeff Astle (que jogara a Copa do Mundo do México pela forte seleção inglesa dirigida por Alf Ramsey) havia deixado o clube em 1974, um ano após a queda para a segunda divisão. O retorno à elite seria conquistado em 1976, sob o comando do meia irlandês Johnny Giles, ex-Leeds, que acumulava as funções de jogador e treinador.

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Num período de nove meses entre maio de 1977 e janeiro de 1978, no entanto, o time viveu a alta rotatividade no comando: mesmo após um bom sétimo lugar na liga, Giles deixou o cargo ao final da temporada 1976/77, cedendo-o a Ronnie Allen, ex-atacante e ídolo histórico do clube. Em dezembro, Allen aceitou uma oferta tentadora para dirigir a seleção da Arábia Saudita, fazendo com que o zagueiro John Wile precisasse assumir também a função interinamente por quatro partidas. A dança das cadeiras chegou ao fim em 12 de janeiro, quando os dirigentes resolveram apostar num certo Ron Atkinson.

Relativamente jovem para o cargo (tinha apenas 38 anos), porém muito ambicioso e esbanjando autoconfiança, Atkinson vinha de um excelente trabalho no Cambridge United, onde conquistara o título da quarta divisão no ano anterior e agora pavimentava o caminho que culminaria no acesso à segunda ainda naquela temporada, quando recebeu o chamado de Hawthorns. O novo treinador conduziria a equipe ao longo da segunda metade de uma temporada que, apesar de turbulenta pelas seguidas trocas no comando, foi muito boa para os padrões do clube dentro de campo.

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O sexto lugar na classificação final garantiu aos Baggies uma vaga na Copa da Uefa. E o clube ainda chegou às semifinais da FA Cup, deixando pelo caminho Blackpool, Manchester United, Derby County e Nottingham Forest, antes de cair diante do futuro campeão Ipswich no campo neutro de Highbury. De quebra, ao fim da temporada o clube ainda se tornaria a primeira equipe profissional inglesa a excursionar pela China, atuando em Pequim, Xangai, Guangzhou e no então protetorado britânico de Hong Kong, numa viagem que reuniu momentos que se tornaram folclóricos.

O bom desempenho na temporada anterior, obtido com um futebol atraente por uma equipe que mesclava nomes experientes com uma safra de jovens promissores, credenciava o West Bromwich Albion a fazer um bom papel e ser colocado como uma boa aposta para a campanha seguinte, a de 1978/79, a primeira completa de Ron Atkinson no comando. Mas havia um “algo mais” que chamava a atenção para aquele time: a presença de três jogadores negros entre os titulares.

O contexto social

O fato pode parecer pouco significativo aos olhos de hoje, não só pela maior globalização do jogo, que derrubou limitações a atletas estrangeiros, como também pela própria pluralidade atualmente presente no Reino Unido, fazendo com que cerca de um quarto dos atletas em atividade nas quatro primeiras divisões pertençam a minorias étnicas. Mas para entender melhor seu simbolismo, é preciso se reportar ao contexto social (e cultural) vigente no Reino Unido durante os anos 1970.

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O processo de descolonização das antigas possessões britânicas no Caribe, iniciado no fim da década de 1950, fez aportar na antiga metrópole milhares de famílias oriundas de países como Jamaica, Trinidad & Tobago, Granada, Antígua e Bermudas que vinham tentar a sorte, alojando-se principalmente nas periferias dos grandes centros urbanos e industriais como Londres, Manchester, Liverpool e a região de West Midlands, onde se situam Birmingham, Wolverhampton e West Bromwich.

Não demorou muito para a cultura destes imigrantes se fundir à britânica tradicional. Ao fim dos anos 1960, a presença deles já era nítida. E os filhos dessas famílias, nascidos ou crescidos no Reino Unido, começaram a se integrar e a se fazer notar. Primeiro foi por meio da música. Em 1969, o ídolo jamaicano do reggae e do ska Desmond Dekker fazia um show histórico arrastando multidão ao Empire Pool, em Wembley, e os estilos musicais populares daquele país escalavam as paradas de sucesso no Reino Unido, fazendo a cabeça inclusive da juventude branca inglesa, que mais tarde os reverenciaria no chamado movimento Two Tone.

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Depois veio o futebol (além de outros esportes, como o críquete, o atletismo, o rúgbi e o boxe), já a partir de meados da década seguinte, quando esses garotos filhos de imigrantes das chamadas “Índias Ocidentais” começaram a se apresentar pouco a pouco nas categorias de base dos clubes. No fim dos anos 1970, o contingente em atividade nas quatro divisões da Football League girava em torno de 50. Expressivo em números absolutos, mas ainda pequeno quando analisado proporcionalmente: era menos de um para cada um dos 92 clubes que integravam a liga.

Mas em nenhum setor da sociedade a assimilação foi fácil ou desprovida de conflitos. A presença cada vez mais frequente de rostos negros na massa urbana do país gerou a insatisfação de grupos conservadores radicais racistas, como o National Front e o British Movement, que lideravam protestos nas ruas pelo fim da imigração e pela expulsão dessa parcela da população, a quem culpavam pela crise econômica e o aumento do desemprego enfrentados pelo país naquele período. E estes grupos também se faziam expressar no futebol, com distribuição de publicações nas portas dos estádios e a mobilização de jovens torcedores, que passaram a hostilizar qualquer jogador negro que estivesse em campo.

Os ‘Three Degrees’

Foi no auge da ebulição desse caldeirão sociocultural que Laurie Cunningham, Cyrille Regis e Brendon Batson começaram a figurar com regularidade no time titular dos Baggies. Não era, entretanto, a primeira vez que três jogadores negros atuavam juntos num time da liga inglesa: em abril de 1972, o West Ham escalara um trio formado pelo defensor Clive Charles (nascido em Dagenham, Inglaterra) e os atacantes Clyde Best (bermudense) e Ade Coker (nigeriano) para uma partida contra o Tottenham. Mas aquela havia sido a única ocasião na história. Até a revolução causada pelos três jogadores do West Bromwich Albion.

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O primeiro deles a aportar no clube foi Laurie Cunningham em março de 1977, estreando pouco depois de completar 21 anos de idade. Nascido em Londres, mas de família originária da Jamaica, o ponta vinha do Leyton Orient, time do subúrbio londrino, onde já causara um certo burburinho após quase três boas temporadas na segunda divisão. Era um prodígio, um talento em profusão, hábil e exuberante no trato com a bola, em arrancadas e dribles tanto pelo flanco direito quanto pelo esquerdo. Além de preciso nas jogadas de linha de fundo, passes e cruzamentos, também sabia marcar seus gols.

Nascido na Guiana Francesa, mas residente no Reino Unido desde os cinco anos, Cyrille Regis defendeu times semi-profissionais até ser descoberto por Ronnie Allen, que bancou sua contratação com dinheiro do próprio bolso, em maio de 1977. Fisicamente robusto e de chute forte, mas também inteligente e hábil, o garoto de 19 anos começou a temporada no time reserva e marcou em sua estreia na Liga Central. Semanas depois, em 31 de agosto, anotou dois em seu primeiro jogo nos profissionais, pela Copa da Liga contra o Rotherham. E três dias depois, debutou na liga balançando as redes na vitória sobre o Middlesbrough por 2 a 1. Ao fim da primeira temporada, recebeu o prêmio de melhor jogador jovem de 1978.

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O terceiro e último a chegar foi Brendon Batson, nascido na ilha caribenha de Granada, e que começou a carreira no Arsenal como meio-campista, estreando em 1971, meses depois da dobradinha conquistada pelo clube, e atuando em dez partidas ao todo nas três temporadas em que esteve em Highbury. Depois passou ao Cambridge United, descendo até as divisões inferiores da liga. Dirigido por Atkinson no clube, chegaria ao West Bromwich um mês depois do treinador, em fevereiro de 1978, e já deslocado para a lateral-direita, posição na qual se destacaria ao mesmo tempo pela seriedade e elegância.

Uma boa medida da influência e da popularidade do trio pôde ser conferida num popular jogo de tabuleiro britânico, o subbuteo, espécie de versão inglesa do nosso futebol de botão, mas com as peças em formato de jogadores de verdade. A edição do time do West Bromwich lançada em 1978 foi a primeira da história do jogo a incluir atletas negros – três, no caso. Outro motivo de grande repercussão na época foi o apelido de “Three Degrees” associado ao trio pelo técnico Ron Atkinson. Em turnê pelo Reino Unido, as cantoras que formavam o grupo souberam da história e visitaram o clube, posando para fotos com os jogadores.

Os outros destaques

Mas o orgulho dos torcedores Baggies não se resumia aos três astros negros. Por todos os lados havia qualidade, numa equipe que combinava experiência e juventude, força e habilidade. No centro do meio-campo, por exemplo, jogava Tony “Bomber” Brown, armador com incrível faro de artilheiro, que chegara ao clube aos 13 anos, em 1961, e se tornaria o seu recordista tanto de partidas como de gols: só pela liga, balançaria as redes 218 vezes em 574 jogos.

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Ao seu lado, pela direita, outra promessa de grande jogador despontava: o jovem Bryan Robson, 21 anos ao início daquela temporada, um meia versátil (chegara a jogar algumas partidas como lateral-esquerdo) e que aliava garra e combatividade à técnica, além de um espírito de liderança que já demonstrava desde então e que o levaria futuramente a se tornar capitão do Manchester United por mais de uma década e também da seleção inglesa.

À frente do goleiro Tony Godden, prata da casa que se firmava como titular naquela temporada, jogava uma dupla de zaga que não aliviava, formada por Alistair “Ally” Robertson e John Wile (cuja imagem com o sangue escorrendo pelo rosto na partida contra o Ipswich, pela semifinal da FA Cup de 1978, ficou eternizada na memória dos torcedores). Só os três guardavam posição. Do lado esquerdo da defesa, havia o jovem lateral Derek Statham (19 anos), um dos melhores alas apoiadores do país, revezando-se com Laurie Cunningham nas jogadas de linha de fundo.

No centro do meio-campo, ao lado de Tony Brown, atuava outro veterano, o dinâmico Len Cantello, desde 1968 no clube. E na frente, junto com Cyrille Regis, havia outro goleador no escocês Ally Brown, trazido do Leicester em 1971 e que terminaria a temporada 1978/79 como o artilheiro do time na liga, com 18 gols. No banco de reservas (onde, no futebol inglês daquele tempo, apenas um atleta ficava), a vaga costumava ser ocupada pelo meia John Trewick, jogador de estilo “todo-terreno”, bom na destruição, mas também autor de gols importantes.

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Quem também chegou a integrar aquele elenco foi o ponta-esquerda escocês Willie Johnston, envolvido num rumoroso e polêmico caso de doping que provocou sua expulsão da Copa do Mundo da Argentina, justamente no período anterior a aquela temporada. O atacante disputou sete partidas pela liga antes de cruzar o Atlântico na virada para 1979 e ir defender o Vancouver Whitecaps, na NASL.

Afiado, o time largou de maneira excelente na temporada. Venceu os três primeiros jogos contra o Ipswich em casa (vingando-se da derrota na semifinal da FA Cup anterior), o Queens Park Rangers em Londres e o Bolton, também nos Hawthorns (este por 4 a 0). No fim de agosto, ocupava a ponta da tabela, ao lado de Liverpool e Everton. Setembro parecia ter começado bem, com um empate sem gols fora de casa diante do atual campeão Nottingham Forest, mas a irregularidade não demorou a chegar, fazendo a equipe despencar para a quinta posição ao perder em casa para o Tottenham em meados de outubro.

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Quando já se via dez pontos atrás do Liverpool, a equipe começou a reagir: bateu o Leeds por 3 a 1, enfiou 7 a 1 no Coventry e emendou uma série de 13 partidas sem perder, sendo dez vitórias, que perduraria até fevereiro do ano seguinte. Com seus talentos brilhando mais do que nunca, os Baggies viveram naqueles dias seu melhor momento naquela temporada. E o mês de dezembro seria não menos que memorável, daqueles instantes os quais os torcedores adorariam poder guardar para sempre numa cápsula do tempo. Foram cinco vitórias em cinco jogos disputados. E que vitórias.

O inesquecível mês de dezembro

A primeira delas foi pela Copa da Uefa, em meio à grande campanha que o clube vinha cumprindo no torneio europeu. Os dois primeiros adversários, Galatasaray e Braga, não deram nem para a saída, despachados com quatro vitórias fáceis dos ingleses. Mas nas oitavas de final o páreo era bem mais duro. Nada menos que o Valencia de Mario Kempes, recém-eleito o craque da Copa do Mundo da Argentina, e secundado por outros jogadores talentosos e experientes como os meias Rainer Bonhof e Enrique Saura.

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Na partida de ida, em 22 de novembro, houve empate em 1 a 1 no Mestalla (na época chamado Luís Casanova). O destaque daquele jogo foi Laurie Cunningham, numa atuação que marcou época até para os espanhóis, cavando buracos na defesa dos Ches com dribles e jogadas de linha de fundo, e dando o passe para o gol inglês, marcado por Ally Brown. Em 6 de dezembro viria a partida de volta, um verdadeiro massacre dos Baggies, que venceram por 2 a 0, mas criaram chances para golear.

Tony Brown abriu o placar cobrando pênalti, após toque de mão de Cordero, logo aos quatro minutos. E na etapa final, aos 34, Cunningham desceu pela ponta direita, descadeirou o lateral Arias com um drible de corpo e seguiu até a linha de fundo, de onde cruzou para o chute de voleio de Tony Brown, um arremate perfeito para uma jogada primorosa. Os ingleses tiveram outros dois gols anulados (um por impedimento e outro por suposto toque de mão) e ainda uma chance com Cunningham que bateu na trave e quicou por sobre a linha, antes de ser agarrada pelo goleiro Manzanedo.

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A seguir viria o jogo mais tranquilo da série, uma vitória fácil por 2 a 0 diante do Middlesbrough em casa, obtida com gols de Cyrille Regis e Len Cantello. A próxima parada era mais espinhosa: o derby regional contra o Wolverhampton no Molineaux. Em péssima posição na tabela, os Wolves buscavam um bom resultado para iniciar sua recuperação e contaram com o apoio da torcida, que transformou o estádio num caldeirão. Em campo, no entanto, os Baggies jogaram água nas pretensões dos locais.

Logo de saída, abriram o placar quando Batson desceu pela direita e entregou para o chute de Bryan Robson. Na confusão, Ally Brown tocou para as redes. Do outro lado, Godden entrou em cena de forma providencial, evitando o empate ao espalmar uma bomba de Steve Daley. Na etapa final, só deu West Brom: Tony Brown acertou um chute de longe para ampliar. E depois de perder quase uma dezena de chances contra os Wolves entregues, o terceiro gol viria numa bonita jogada: Statham lançou Regis, que deu um passe de peito para Tony Brown. O “Bomber” avançou e rolou para Ally Brown tocar na saída de Bradshaw e fechar o caixão dos rivais.

O jogo seguinte seria a visita a Highbury, onde o meia irlandês Liam Brady comandava um Arsenal em grande fase, vindo de vitória sobre o Liverpool e goleada sobre o Tottenham. Mas o West Brom saiu matando. Com menos de um minuto, Pat Jennings já havia feito um milagre ao evitar gol certo de Laurie Cunningham. E aos seis, os Baggies já tinham 2 a 0 a favor no placar. Primeiro Bryan Robson concluiu de pé esquerdo a ótima jogada coletiva. Depois, Ally Brown desviou cruzamento e John Wile completou de cabeça para fazer o segundo. Na etapa final os Gunners descontaram com Brady de pênalti e pressionaram muito, mas a defesa do time de Ron Atkinson salvou nada menos que quatro bolas em cima da linha.

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A partida que encerraria a sequência seria a mais espetacular de todas (e ainda hoje frequentemente revisitada na Inglaterra), diante do Manchester United em Old Trafford. Foram seis gols só no primeiro tempo: o United abriu o placar com Brian Greenhoff num sem-pulo sensacional. Mas os Baggies empataram numa jogada em que Cunningham rolou da esquerda para o centro, Ally Brown fez o corta-luz e Tony Brown chegou batendo da entrada da área. A virada veio num lance muito bem tramado. Cunningham recebeu a bola, driblou Coppell e McCreery e fez o passe vertical na direção de Cyrille Regis. Dentro da área, o centroavante tocou de calcanhar para Cantello, que soltou a bomba no ângulo de Bailey.

Os Red Devils reagiram e empataram com o zagueiro escocês Gordon McQueen escorando de cabeça uma cobrança de falta da ponta esquerda. E na sequência, passariam outra vez à frente ao interceptarem uma saída de bola errada, com o meia norte-irlandês Sammy McIlroy limpando a jogada e fuzilando Godden. Sofrer um gol assim poderia ser o prenúncio de uma derrocada emocional. Mas não para aquele time do West Brom, que igualou tudo de novo no último minuto da primeira etapa: Statham lançou para a área, Cantello resvalou de cabeça e o bigodudo Tony Brown tocou para tirar de Bailey e empatar.

Na etapa final, os goleiros começaram sendo exigidos: Regis obrigou Bailey a fazer grande defesa numa bomba da intermediária, e o ponta-esquerda galês Mickey Thomas testou Godden com um peixinho em que a bola ainda quicou no chão. Logo depois, o arqueiro dos Baggies iniciaria o lance do quarto gol de seu time, numa reposição de bola com um chutão que virou lançamento. Regis desviou de cabeça para a chegada em velocidade de Cunningham, que se livrou do combate de Stewart Houston e de Martin Buchan antes de fuzilar Bailey com um chute cruzado.

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Depois de Regis testar novamente Bailey com um chutaço de longe, veio o quinto gol dos Baggies. Uma bola interceptada pela defesa sobrou para Laurie Cunningham ainda na lateral direita. O ponta carregou e, pouco depois de passar da linha do meio-campo, entregou a Ally Brown. O atacante deu um bonito corte em Brian Greenhoff e serviu um excelente passe para Regis. Dessa vez não houve nada que o goleiro do United pudesse fazer: cara a cara, o camisa 9 tocou por baixo do arqueiro, bem no canto, selando uma vitória histórica do clube de West Midlands.

Congelado no auge

O ano de 1979 começou na mesma batida, com a vitória por 3 a 1 em casa diante do Bristol City (a quinta consecutiva na liga). Uma semana depois, o clube quebrava a banca e anunciava a contratação do atacante David Mills, destaque do Middlesbrough, pagando o recorde inglês de transferências até então (£516 mil). E no dia 13, um ano e um dia após a chegada de Ron Atkinson, um empate em 1 a 1 diante do Norwich em Carrow Road levava a equipe à liderança do campeonato, empatada em pontos com o Liverpool.

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No entanto, justo no momento em que chegou ao topo, o clube viu sua ambição de conquistar o título inglês ser soterrada aos poucos por espessas camadas de neve. O inverno extremamente rigoroso de 1979 provocou o adiamento de dezenas de partidas por todo o país, tornando o calendário a partir de março absolutamente insustentável, especialmente para uma equipe que brigava em várias frentes tendo de contar com um elenco um tanto reduzido, o que era o caso do West Brom.

Para aumentar o grau de dificuldade naquela missão, havia ainda um Liverpool imparável, especialmente naquela segunda metade do campeonato, mordido pelo surgimento de um rival à altura – o Nottingham Forest de Brian Clough, que impedira o tricampeonato inglês dos Reds no ano anterior, os derrotara na decisão da Copa da Liga e ainda os eliminara na primeira fase da Copa dos Campeões, evitando outro tri do time de Bob Paisley – e, portanto, disposto a fazer uma campanha irretocável na liga, como fez.

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Se os Baggies entraram em campo apenas sete vezes em partidas pela liga e pela FA Cup nos meses de janeiro e fevereiro somados, a partir de março o ritmo aumentou absurdamente. Só naquele terceiro mês do ano, o time fez nove partidas, tendo de lidar com eliminações nas quartas de final da FA Cup (após replay contra o Southampton) e da Copa da Uefa (o fim do sonho veio com empate em casa por 1 a 1 com o Estrela Vermelha, após derrota pelo placar mínimo em Belgrado).

Na liga, por outro lado, tudo correu bem: após bater o Coventry fora por 3 a 1, os Baggies tiveram cinco partidas seguidas em casa e venceram todas, incluindo um categórico 4 a 0 diante do Manchester City. No entanto, a equipe não passaria no teste de resistência que seria o mês de abril. Foram oito partidas num período de 25 dias, muitas vezes jogando após intervalos de apenas 48 horas. Houve até uma ocasião em que atuou em dois dias seguidos: no dia 13 foi a Southampton encarar os Saints e no dia seguinte recebeu o Arsenal – e empatou ambos os jogos em 1 a 1, desperdiçando pontos que fizeram falta.

Diante de tamanho esgotamento físico e mental, é surpreendente lembrar que o time ainda buscou forças para reagir no começo de maio, vencendo seguidamente o Everton fora, o Manchester United e o Southampton em casa e o Aston Villa também fora. Mas no último jogo da temporada, o vice-campeonato também escorreu das mãos após perder em casa por 1 a 0 o confronto direto com o Nottingham Forest, que terminou só um ponto à frente na tabela.

Depois da grande campanha

O penúltimo jogo – outra derrota por 1 a 0, para o Tottenham em White Hart Lane – foi a última partida de Cunningham pelo clube: em 1º de junho, o clube acertaria sua venda para o Real Madrid por quase um milhão de libras. Len Cantello também deixou o clube após mais de uma década, seguindo para o Bolton. O West Brom os substituiu com uma dupla promissora vinda do Manchester City: o ponta Peter Barnes e o meia Gary Owen. Mas o desempenho na temporada seguinte não foi tão bom: um modesto décimo lugar na liga e a eliminação na Copa da Uefa ainda na primeira fase diante do alemão-oriental Carl Zeiss Jena.

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O time ainda se recuperaria na campanha seguinte, terminando num bom quarto lugar na liga (sete pontos atrás do campeão Aston Villa e um à frente do Liverpool), mas aos poucos foi se dissolvendo. Tony Brown já havia emigrado para o futebol dos Estados Unidos antes daquela temporada. Em meados de 1981, seria a vez do técnico Ron Atkinson, chamado para dar sangue novo ao Manchester United, para onde em breve levaria Bryan Robson e o volante Remi Moses, outro jogador negro que despontava nos Hawthorns. Cinco anos depois, os Baggies acabariam rebaixados para a segunda divisão, retornando à elite apenas em 2002.

Os Three Degrees, por sua vez, tiveram destinos bem diferentes. Batson continuou no clube como titular da lateral-direita até 1982, quando encerrou precocemente a carreira por motivo de lesão, aos 29 anos. Logo após pendurar as chuteiras, passaria a exercer um cargo de chefe executivo na Associação de Jogadores Profissionais, permanecendo por 18 anos na entidade. Mais tarde, tornaria-se ainda dirigente do West Bromwich Albion e hoje integra um organismo que cuida da segurança dos torcedores nos estádios. Foi condecorado duas vezes pelo governo britânico.

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Cyrille Regis chegaria à seleção inglesa principal em 1982, estreando pouco antes da Copa do Mundo, mas ficaria de fora da lista final dos convocados para o Mundial. Seguiria marcando muitos gols pelo West Brom até se transferir para o vizinho Coventry em outubro de 1984. Nos Sky Blues também se tornaria ídolo, participando da histórica conquista da FA Cup em 1987. Quatro anos mais tarde, reencontraria-se com Ron Atkinson, no Aston Villa. Somente no fim da carreira é que o jogador desceu da divisão de elite, com passagens rápidas pelo Wolverhampton (rival do West Brom), Wycombe e Chester, aposentando-se em 1996, aos 38 anos. Assim como Batson, também foi condecorado pelo governo britânico.

Mas, dos três, quem teve a carreira mais intensa e ganhou maior status de mito foi mesmo Laurie Cunningham. Contratado pelo Real Madrid, que já o observava desde o jogo contra o Valencia, teve uma primeira temporada excelente com os merengues, sendo um dos destaques na conquista da dobradinha nacional. Em fevereiro de 1980, foi aplaudido de pé pelo Camp Nou após brilhar no triunfo merengue por 2 a 0 no Superclássico diante do Barcelona. Mas nas campanhas seguintes começou a sofrer com inúmeras lesões e com o assédio da imprensa sensacionalista, além da pressão dentro do próprio clube.

Primeiro jogador negro a defender a seleção inglesa sub-20, em abril de 1977 (um ano e meio antes de Viv Anderson, do Nottingham Forest, tornar-se o pioneiro no time de cima), Cunningham não teve, no entanto, muitas oportunidades na equipe principal. Mesmo em grande fase no Real Madrid, ficou de fora da Eurocopa de 1980 e, em virtude dos repetidos problemas físicos, participou pouco do ciclo que culminaria na Copa do Mundo de 1982. Desapontado, viveu prolongado período de baixa, rodando por vários clubes de diferentes países em seguidos empréstimos.

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Esteve no Manchester United, no Sporting Gijón, no Olympique de Marselha, no Leicester, no Charleroi, no Rayo Vallecano e no Wimbledon, pelo qual jogaria sua primeira final de copa em Wembley, quando a Crazy Gang levantou o título da FA Cup surpreendendo o Liverpool em 1988. Logo em seguida, retornaria ao Rayo, levando o time de volta à elite do Campeonato Espanhol após uma ótima temporada. Pretendia comprovar o retorno à grande forma e mostrar sua qualidade outra vez em La Liga. Mas acabaria sofrendo um acidente automobilístico fatal em Madri, em julho de 1989, falecendo aos 33 anos de idade.

Se é possível que Laurie tenha entrado para a história como uma promessa que não chegou a se cumprir completamente, a idolatria que despertou em West Bromwich – junto especialmente com Cyrille Regis – e o impacto que representou para outros garotos negros britânicos que sonhavam com a carreira no futebol e a seguiram inspirados pelo ponta foram e são imensos. A trajetória daquela equipe – e dos Three Degrees da bola – foi tema de vários documentários e livros, sendo reverenciada até hoje no Reino Unido.

Quinzenalmente, o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas.