Muito perto de retornar à elite inglesa (e possivelmente com o título da Championship), o Wolverhampton tem imensa tradição. Entretanto, suas participações na primeira divisão nos últimos 35 anos foram bastante esporádicas e sem brilho. O último grande momento dos Wolves veio na temporada 1979/80, quando a equipe – que reunia figuras experientes e bem conhecidas do futebol do país – terminou em sexto lugar no campeonato e faturou (de modo um tanto surpreendente) seu último troféu, a Copa da Liga. A história daquele bom time é o tema da coluna Azarões Eternos de hoje.

A história

Clube fundador da Football League em 1888, o Wolverhampton viveu o melhor momento de sua história nos anos 1950, quando era a maior potência do futebol inglês, seguido de perto pelo Manchester United. Ex-zagueiro que só defendeu os Wolves na carreira, Stan Cullis assumiu o cargo de técnico em junho de 1948, ficando até 1964. Neste período, o clube esteve quase sempre entre os três primeiros colocados da liga: levou o título em 1954, 1958 e 1959, ficou em segundo em 1950 (perdendo no goal average), 1955 e 1960 (por um ponto) e em terceiro em 1953, 1956 e 1961. Em 1960, também venceu a FA Cup.

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O time capitaneado pelo lendário zagueiro Billy Wright (um dos primeiros jogadores a transcenderem o futebol em termos midiáticos no país) também adquiriu prestígio pelos amistosos contra grandes clubes europeus que disputou ao longo daquela década em seu estádio, e que eram transmitidos ao vivo pela BBC. Entre os mais notórios, o time derrotou o Real Madrid de Di Stéfano e o Honvéd de Puskás, num jogo que valeu como revanche pelas goleadas impostas pouco antes pela seleção húngara aos ingleses e que motivou Stan Cullis a autoproclamar seu time como “campeão do mundo”.

Nos anos 60, entretanto, o clube entrou em lenta decadência. A temporada 1964/65, que começou com a demissão de seu lendário treinador em setembro, terminou em rebaixamento, encerrando um ciclo de mais de três décadas consecutivas na elite inglesa. De volta à primeira divisão dois anos depois, o clube experimentou um certo renascimento sob o comando de Bill McGarry. Foi quarto colocado na liga em 1971 (ano em que também venceu a Copa Texaco, torneio entre clubes das ilhas britânicas) e quinto em 1973.

Entre uma temporada e outra, o clube também brilhou na Europa, chegando à final da primeira edição da Copa da Uefa. No caminho até à decisão, chegou a eliminar a Juventus. Mas acabou perdendo o título para o Tottenham, depois de ser derrotado no Molineux e não passar de um empate em White Hart Lane. Dois anos depois, não deixou escapar a primeira conquista da Copa da Liga, batendo o Manchester City em Wembley. O período também ficou marcado por uma goleada de 7 a 1 no Chelsea, em março de 1975.

O contexto

McGarry, no entanto, saiu para treinar a seleção da Arábia Saudita, em meados de 1976. Um ano depois, os Wolves seriam novamente rebaixados. Desta vez, porém, a passagem pela segunda divisão foi mais breve, e o clube conseguiu retornar logo na primeira tentativa. Em novembro de 1978, o técnico John Barnwell assumiu o comando do time no lugar de Sammy Chung e logo na primeira temporada levou o clube à semifinal da FA Cup, perdendo para o Arsenal. Pouco depois, sofreria um acidente de carro que quase custaria sua vida, mas em breve, recuperado, já estava de volta ao trabalho.

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O elenco dos Wolves que tinha em mãos ainda contava com muitos remanescentes do time copeiro do início da década. Os laterais Geoff Palmer e Derek Parkin, que estavam no time que batera o Manchester City em Wembley seis anos antes. O meia Kenny Hibbitt e o atacante John Richards, por sua vez, integravam o time finalista da Copa da Uefa. Exceto por Palmer, todos figuravam há mais de dez anos no elenco profissional. E havia ainda o escocês Willie Carr, meia habilidoso formado no Coventry, que estreara pelo clube justamente na goleada sobre o Chelsea.

Outros bons nomes foram agregados pelos anos seguintes, como o seguro goleiro Paul Bradshaw, vindo do Blackburn e com passagem pela seleção inglesa sub-20. O ex-lateral convertido em volante Peter Daniel, jogador dinâmico e batalhador incansável. E o ponta-esquerda Melvyn Eves, outra prata da casa. Por fim, além de todos estes, havia outros três jogadores, os mais simbólicos daquele time. Seus três pilares, por assim dizer, ainda que estivessem entre os últimos a aportarem em Molineux.

Emlyn Hughes já era campeoníssimo. Revelado num bom time do Blackpool, fora contratado pelo Liverpool em fevereiro de 1967. Meia de origem, foi recuando ao longo da carreira: volante, depois lateral-esquerdo e por fim zagueiro. Esteve na Copa do Mundo de 1970 com a seleção inglesa, embora não tenha chegado a jogar. Ao longo da década seguinte, levantou os mais variados troféus com os Reds, quase todos como capitão: venceu a liga inglesa quatro vezes, a FA Cup, foi bi da Copa dos Campeões e da Copa da Uefa. E em 1977, foi eleito o jogador do ano no país pela Associação dos Cronistas Esportivos.

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Jogador que contagiava o elenco pela raça e vibração em campo, ainda tinha a ambição de conquistar uma certa taça que faltava em sua galeria, mas em abril de 1979 foi acusado de falhar no lance do gol do Manchester United que eliminaria o Liverpool nas semifinais da FA Cup. Viu-se subitamente sem lugar em Anfield. Em agosto, pouco antes de completar 32 anos, foi vendido ao Wolverhampton.

George Berry, companheiro de Hughes no centro da defesa daquele time, nasceu em 1957 bem longe de Molineux, na cidade alemã-ocidental de Rostrup. Filho de pai jamaicano, soldado das forças armadas britânicas, e mãe galesa, mudou-se ainda pequeno com a família para Blackpool, e na adolescência já havia sido levado aos Wolves, onde cresceu nas categorias de base. Em meio às várias nacionalidades possíveis, escolheu defender a seleção do País de Gales.

Sua história de vida não era sua única coisa singular: em campo, era fácil reconhecê-lo, graças ao imenso e vistoso penteado no estilo “black power” que ostentava. Ao começo da temporada, era um dos dois únicos jogadores negros do elenco, mas em breve se tornaria o único, depois de o também zagueiro Bob Hazell ter sido vendido ao Queens Park Rangers.

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Berry era um beque sólido e um tanto ríspido. Quando necessário, não afinava nem dentro, nem fora de campo. Naquela temporada, depois da derrota para o Watford que tirou os Wolves da FA Cup, um torcedor o culpou pela eliminação proferindo inúmeras ofensas raciais. Berry não se fez de rogado: voltou do túnel, pulou o alambrado e foi acertar contas com o dito cujo no braço.

Andy Gray foi o último titular a chegar ao clube, contratado em 8 de setembro de 1979, com a temporada já iniciada. Três dias antes, o Manchester City pagara aos Wolves o recorde britânico de transferências (1,437 milhão de libras) pelo ponta Steve Daley, que se revelaria um grande fracasso em Maine Road. Com o dinheiro recebido, o time de West Midlands bateu à porta do vizinho Aston Villa e trouxe de lá o atacante escocês, superando em algumas dezenas de milhares de libras o valor anterior.

Em 1977, ano em que levantou o título da Copa da Liga com os Villans, Gray havia sido o artilheiro do Campeonato Inglês e também recebido os prêmios de melhor jogador jovem e de melhor jogador no geral pela Associação dos Futebolistas Profissionais. Centroavante raçudo, brigador, um tanto fanfarrão e com incrível senso de oportunismo na área, também exalava carisma.

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Ainda que nada citado aqui tenha sido o suficiente para sensibilizar o técnico Ally MacLeod, da seleção da Escócia, a convoca-lo para a Copa do Mundo da Argentina no ano seguinte, mesmo assim, Andy era uma grande figura do jogo. E seria o dono da camisa 9 dos Wolves, fazendo dupla de frente com o velho ídolo John Richards – embora só estreasse na quinta rodada do campeonato.

A campanha

Os três primeiros jogos com Andy Gray vestindo a 9 foram memoráveis. Na estreia do centroavante, em 15 de setembro, o time foi ao Goodison Park e bateu o Everton por 3 a 2 com o escocês abrindo o placar. Uma semana depois, no Molineux, Gray voltaria a balançar as redes nos categóricos 3 a 1 sobre o Manchester United. Mais sete dias, e uma nova vitória fora de casa, desta vez sobre o Arsenal em Highbury. Desta vez, o atacante marcou duas vezes em outro triunfo por 3 a 2. Uma sequência inesquecível para os torcedores.

Em meados de outubro, após bater o Norwich por 1 a 0, gol de Willie Carr, os Wolves alcançaram a terceira posição, lugar mais alto que chegaram a ocupar naquela temporada. Mas com a chegada do inverno, viria o momento mais crítico. Entre 15 de dezembro e 2 de fevereiro, o time entrou em campo sete vezes pela liga, perdendo quatro e vencendo apenas uma partida em meio à sequência. Como resultado, despencou da quinta para a 14ª posição.

Significativamente, a reação no campeonato veio ao mesmo tempo em que a equipe disputava a reta final da Copa da Liga. Foram sete vitórias em nove jogos – cinco delas como visitante – até o início de abril. A sequência começou em grande estilo, com mais um triunfo sobre o Manchester United, desta vez em Old Trafford, com gol de Mel Eves. Em seguida, o time foi a Norwich e goleou os locais por 4 a 0. A terceira vitória igualmente especial: 1 a 0 sobre o líder Liverpool.

Após um tropeço em casa diante do Middlesbrough, a equipe enfileirou mais três vitórias: 3 a 1 no Aston Villa em Birmingham, 3 a 0 no Stoke em casa e 3 a 1 no Coventry em Highfield Road. O segundo tropeço da sequência seria novamente no Molineux, contra o Tottenham. Mas, dois dias depois, a vitória por 3 a 0 (com dois gols de Andy Gray) na visita ao Southampton levou o clube à sexta posição, faltando oito partidas para o fim da temporada. Entretanto, o acúmulo de jogos adiados ameaçou colocar tudo a perder.

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No dia seguinte à vitória sobre os Saints, o time já estava outra vez em campo, jogando e perdendo para o Brighton por 3 a 0 na cidade litorânea. Foi o início de uma série de quatro jogos sem vitória, devidamente espantada com um 3 a 1 diante do Leeds no Molineux, decisivo para recolocar o time nos trilhos. Na última rodada cheia, em 3 de maio, o time empatou fora de casa com o Bolton e caiu para a oitava colocação. Mas a liga ainda não havia acabado para os Wolves, que tinham jogos adiados a cumprir.

Na segunda, 12 de maio, o time recebeu o Nottingham Forest, que se preparava para a decisão da Copa dos Campeões dali a duas semanas. Os Wolves abriram o placar logo no começo com um gol de pênalti de Kenny Hibbitt, sofreram o empate na metade do segundo tempo, mas marcaram mais duas vezes, com John Richards e Geoff Palmer para confirmar a vitória que assegurou um bom sexto lugar na temporada. Também foi contra o Forest o jogo mais importante daquela temporada. E não valeu pelo campeonato, nem aconteceu em Molineux, e sim em Wembley, dois meses antes.

O troféu

Além da ótima campanha na liga, a última grande temporada dos Wolves na elite ficou marcada também pelo derradeiro caneco levantado pelo clube até hoje: a Copa da Liga, repetindo o feito já alcançado em 1974. O primeiro adversário, ainda em agosto de 1979, foi o Burnley, em jogos de ida e volta. Na próxima etapa, o Crystal Palace foi batido em Londres. Em seguida, foi preciso um replay para eliminar o Queens Park Rangers e dois para superar um resiliente Grimsby Town, que vinha de desclassificar o Everton.

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Nas semifinais, disputadas já depois da virada do ano e novamente em jogos de ida e volta, o time de John Barnwell teria outra surpresa pela frente: o Swindon, que despachara o Arsenal na fase anterior, venceu a primeira partida em casa por 2 a 1. Mas os Wolves deram o troco, fazendo 3 a 1 em Molineux e avançando à decisão, a ser disputada em 15 de março de 1980.

O Forest, adversário da final, vivia sua era de ouro. Campeão da liga em 1978, ostentava também o título de campeão europeu (em breve, seria bicampeão). Também havia vencido as duas últimas edições da Copa da Liga, superando o Liverpool em 1978 e o Southampton em 1979. Por tudo isso, o time dirigido por Brian Clough era o favorito destacado. E começou o jogo pressionando, abafando a saída de bola e dominando as ações. Os Wolves se safavam como podiam, e tentavam ameaçar nos raros contragolpes.

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O time de John Barnwell também criava oportunidades em jogadas de bola parada, e no rebote de uma delas, chegou a fazer a bola ultrapassar a linha de gol, mas o árbitro, com acerto, anulou o lance marcando falta em Peter Shilton. Logo depois dessa jogada o goleiro se veria envolvido no lance decisivo do jogo, aos 22 minutos do segundo tempo. Uma tentativa de ataque do Forest foi bloqueada na intermediária dos Wolves, e a bola sobrou nos pés de Peter Daniel, que fez um lançamento longo, em profundidade.

David Needham, zagueiro do Forest, conseguiu se antecipar e meteu o peito na bola, na intenção de recuar para Shilton. Não percebeu, porém, que o arqueiro já havia saído do gol para fazer a defesa. Na indecisão, os dois se chocaram (o goleiro assumiria sua falha, mais tarde). Oportunista como um bom centroavante, Andy Gray acompanhava o lance de perto. Quando a bola caiu em seus pés, não teve dúvidas: caixa. A comemoração, com os braços para o alto, misto de incredulidade, alegria e deboche, ficou eternizada.

No desespero, o Forest ainda perdeu chances inacreditáveis, enquanto os Wolves conseguiam se safar mesmo em eventuais falhas defensivas, graças à atuação segura de Paul Bradshaw no gol. Ao apito final, a explosão de alegria dos azarões tomou conta do gramado, assim como dos torcedores nas arquibancadas do lendário estádio. Nas tribunas, o capitão Emlyn Hughes recebeu e levantou a taça – a única de torneio nacional que não havia vencido com o Liverpool. Sua galeria agora estava completa.

Após a grande temporada

O título deu aos Wolves uma vaga na Copa da Uefa, sua última participação em torneios europeus desde então. Teve vida curta, no entanto: enfrentando logo de cara o PSV Eindhoven, perdeu por 3 a 1 na Holanda e venceu apenas por 1 a 0 em Molineux, sendo eliminado na primeira rodada. Naquela temporada 1980/81, o clube cumpriria campanha bem mais fraca na liga, brigando contra a degola e terminando num modesto 18º lugar. Mas chegou a outra semifinal da FA Cup, caindo diante do Tottenham no replay.

A campanha seguinte seria bem mais problemática: o time passaria quase todo o campeonato na zona da degola, o que provocaria a saída de Barnwell em janeiro de 1982. A troca de comando, porém, não evitou o descenso. Pior: acumulando dívidas com uma reforma caríssima das instalações do estádio, o clube esteve à beira de fechar as portas, sendo salvo por um consórcio liderado pelo ex-jogador Derek Dougan. O clube ainda retornaria para mais uma temporada, a de 1983/84, mas logo desceria à quarta divisão.

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Na ocasião, poucos eram os remanescentes do time que levantara a última taça. Emlyn Hughes saíra em 1981 para assumir o posto de jogador-técnico do Rotherham, o qual chegou perto de levar à elite. George Berry, juntamente com Derek Parkin, foi negociado com o Stoke em 1982. Após passagem por empréstimo pelo Derby, John Richards mudou-se para Portugal, onde foi defender o Marítimo até encerrar a carreira. E Andy Gray foi vendido ao Everton, onde também se tornaria campeão e ídolo, em novembro de 1983.

Após despencar ladeira abaixo, o Wolverhampton conseguiu dois acessos consecutivos até a segundona na metade final dos anos 80, comandados por Graham Turner e embalados pelos gols do artilheiro Steve Bull (que foi convocado pela seleção inglesa para a Copa de 1990). Mas a volta à elite só viria na era Premier League, para a temporada 2003/04. As presenças do clube na nova liga, entretanto, foram sempre discretas e breves. Desta vez, os torcedores esperam que seja diferente.

Quinzenalmente, o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Para visualizar o arquivo, clique aqui. Nas próximas semanas, a coluna dará uma pausa para cuidar de outros assuntos, mas voltará à programação normal posteriormente.

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