Há jogadores que, a cada quatro anos, atravessam uma transformação. Não dá para dizer se o fenômeno é sobrenatural ou apenas psicológico, mas eles passam por uma metamorfose em plena Copa do Mundo. Deixam de ser atletas pouco notados para se consagrarem como um monstros mundialistas. Os tais “leões de Copa”. E o caso de Guillermo Ochoa se torna um desses clássicos, que merece ser estudado. Memo não é um goleiro ruim, pelo contrário, mas sua carreira por clubes está aquém de suas qualidades. Após ser idolatrado no América, rodou apenas por clubes modestos da Europa. A inconstância costuma ser um problema. No entanto, em uma competição de tiro curto como a Copa, o camisa 13 consegue se transformar em herói nacional. É assim que se despede de sua quarta participação no torneio, a segunda como titular.

A vida curta do México nas Copas é um problema a Ochoa, mas não por sua culpa. Em 2014, ele foi um dos principais responsáveis a dar sobrevida a El Tri na visita ao Brasil. Foram várias defesaças, principalmente no encontro com os brasileiros no Castelão. Considerado entre os melhores da posição na competição, sua trajetória foi bem contida nos últimos quatro anos, ao sair do Ajaccio. Foi reserva do Málaga, antes de passar por Granada e Standard Liège. Mas, mantido como titular na seleção, teria outro Mundial para se reerguer. Aos 32 anos, tal qual um lobisomem que sente os efeitos da lua cheia, para reviver sua mutação na Copa do Mundo de 2018.

Se o desempenho do México excedeu as expectativas, Ochoa novamente tem grande parte nisso. Foi uma equipe que se defendeu bem em boa parte dos jogos e travou adversários difíceis. No entanto, nunca teria sonhado tanto sem contar com o paredão sob as traves. O camisa 13 começou o Mundial arrebentando. Fez algumas boas defesas contra a Alemanha, em especial quando encarou Toni Kroos em cobrança de falta. O meio-campista poderia ter anotado um golaço. Parou em um milagre, que ainda contou com o auxílio do travessão. Depois, Memo faria mais algumas intervenções vitais contra a Coreia do Sul e adiou enquanto pôde o passeio da Suécia, no qual não teve culpa direta nos três tentos. Então, viria novamente o Brasil.

As lembranças de 2014 estavam frescas na memória. Principalmente a Neymar, maior frustrado pelas mãos salvadoras de Ochoa em Fortaleza. Desta vez, os brasileiros podiam estar cientes da qualidade do mexicano. Só que ele fez questão de ressaltá-las novamente. Tudo bem, alguns chutes vieram em cima. Mas não se nega a dificuldade de várias defesas, em chutes potentes, quase sempre de dentro da área. O ótimo tempo de reação e a colocação atenta permitiam o grande trabalho do camisa 13, segurando o resultado. Quando Neymar teve a principal chance do primeiro tempo, eis que o goleiro se agigantou de novo ante o craque.

Somente na segunda etapa é que a Seleção conseguiu encontrar os caminhos para superar Ochoa. O arqueiro ainda fez algumas boas defesas, como em bomba de Philippe Coutinho e em finalização de Willian que desviou com a ponta dos dedos. Só que as bolas em diagonal, rumo à pequena área, o deixaram indefeso. Apenas viu Neymar completar o cruzamento de Willian e, embora tenha tocado o passe de Neymar, não pôde interromper a trajetória rumo aos pés de Roberto Firmino. Se há críticas pertinentes à seleção mexicana por sua queda de produção na etapa final em Samara, ela não pode ser direcionada ao camisa 13. Pelo segundo Mundial consecutivo, Memo sai como um dos melhores de El Tri.

O México já teve goleiros memoráveis ao longo de sua história. Antonio Carbajal, presente em cinco Copas e capaz de conter outros bombardeios do Brasil, mesmo derrotado, é o maior deles. Jorge Campos e suas roupas extravagantes, mas também suas defesas plásticas, é o mais lembrado. Ochoa entra neste panteão. Sua carreira está abaixo do que os milagres nas Copas (ou mesmo em algumas grandes atuações por clubes) indicam. No entanto, o Mundial e o próprio futebol de seleções são capazes de escrever contos épicos sem precisar de tantas páginas.