Culturalmente, São Luís possui uma forte ligação com a França. Em 1612, a capital do Maranhão foi fundada por franceses durante sua invasão na costa norte do Brasil, na chamada França Equinocial, e o próprio nome do município homenageava o Rei Luís XIII, vigente monarca no início do Século XVII. O legado, afinal, ainda hoje se percebe na arquitetura de alguns prédios históricos da ilha. Três décadas mais tarde, já depois que os portugueses tomaram o controle da região, seria a vez da cidade ser ocupada por holandeses, que planejavam ampliar seus empreendimentos na indústria açucareira. Em três anos, após a criação de uma guerrilha, nova retomada lusitana.

Três séculos e meio depois destas histórias, havia uma dose imensa de coincidência. Um povo encravado entre França e Holanda acabou vendo São Luís como uma mina de ouro. Não exatamente para a sua economia, mas para o seu futebol. Em meados da década de 1980, a Bélgica começou a observar jovens talentos na capital maranhense. As prospecções garantiram promessas até mesmo à seleção e, de certa maneira, criaram uma ponte invisível entre dois cantos tão distintos do planeta. Laços que repercutem no dia em que Brasil e Bélgica se enfrentam na Copa.

O ano do grande descobrimento belga em São Luís é 1985. Naquele momento, um olheiro argentino observava Luis Aírton Oliveira, de 16 anos. O garoto era filho de Zezico, antigo ídolo do Moto Club que, após se aposentar, havia se tornado mecânico. O veterano precisava garantir o sustento para as sete crianças em casa, enquanto estas eram cuidadas pela mãe, Regina. Luis Aírton, todavia, logo viu no futebol um caminho para também mudar a sua realidade. Treinava no Tupan, uma clube filiado ao Fluminense, e chegou ao time principal quando tinha 15 anos. Não demorou muito para a sorte lhe sorrir – ou, literalmente, lhe piscar os olhos.

“Um dia, um agente de jogadores estava nas arquibancadas. Ele tinha vindo para ver um companheiro de equipe, mas piscou para mim. Após o jogo, entrou no vestiário e disse que queria ver meus pais. Prometeu me levar para a Bélgica, e eu nem sabia o que era a Bélgica. Fui para casa de táxi com ele, a primeira vez que peguei um. Era algo caro, minha família não tinha dinheiro”, contou Oliveira, em entrevista ao jornal belga Le Soir, em 2010. A proposta de se transferir ao Anderlecht dividiu a família de Luis Aírton. O pai logo aceitou. A mãe, preferia que ele fosse à escola. O contrato dependia da assinatura de ambos e ela resistiu bastante. “Uma noite, ela voltou da igreja e nos falou que alguém tinha dito a ela para me deixar ir. Eu entendi depois que era Deus…”.

O garoto iniciou sua jornada em novembro de 1985. Viajou de São Luís ao Rio de Janeiro, do Rio a Paris e, de trem, seguiu a Bruxelas. No trajeto até a cidade belga, viu um fenômeno que nunca tinha imaginado e perguntou ao olheiro que o acompanhava: “É açúcar isso caindo do céu?”. Pela primeira vez, o jovem maranhense se deparava com a neve. Luis Aírton precisou superar diversos impactos. O impacto do clima bastante diferente em pleno inverno europeu, o impacto cultural, o impacto social. Passou os primeiros dias em um hotel, antes de ser acolhido por uma família belga.

“Durante os primeiros três meses, não houve um dia em que não chorei. Estava sozinho, não entendia nada que falavam, tinha muito frio. Às vezes, medo. A única coisa que me mantinha em frente era o desejo inabalável de tirar minha família da miséria. Eu me lembrarei por toda a minha vida que um dia, uma estrela do time principal, viu em meus olhos as minhas dificuldades e me ofereceu uma jaqueta quente para treinar, de presente”, conta. A estrela era Franky Vercauteren, ídolo do Anderlecht e presente em duas Copas do Mundo, em 1982 e 1986.

O futebol de Oliveira, ainda assim, não demorou a prevalecer. Depois de ser integrado à base, em poucos meses se juntou ao elenco reserva do Anderlecht. Enquanto isso, trabalhava dobrado no clube. A diretoria queria que o maranhense retomasse os estudos, mas ele se recusou. Virou assistente de limpeza e de roupeiro nos Mauves. Limpava vestiários e arquibancadas depois dos jogos. Dobrava as camisas lavadas dos companheiros. E com seus primeiros salários, mandava dinheiro para os pais em São Luís. Quantias que começaram modestas, mas, convertidas às instáveis moedas brasileiras, logo mudaram a vida da família.

O Anderlecht até cogitou emprestar Luis Aírton ao Waregem, mas ele seguiu no clube. Acabou se tornando um protegido de Jean Dockx, ex-jogador da seleção e então dirigente, que aconselhava o garoto e servia como uma espécie de tutor. Logo depois, o atacante seria integrado ao elenco principal, treinado por Raymond Goethals (que, antes, trabalhara no São Paulo) e depois por Aad de Mos. Foi quando a carreira do maranhense deslanchou, ganhando suas primeiras chances no Campeonato Belga em 1988/89. Apesar do instinto de matador, aceitou jogar até mesmo na lateral direita. Já durante a temporada seguinte, virou titular da equipe. Ajudaria os Mauves a disputarem a decisão da Recopa Europeia de 1990, perdendo para a Sampdoria. Foi eleito o segundo melhor jogador em atividade no futebol belga durante aquele ano.

Luis Aírton se tornou “Oliverrá” para os belgas, ídolo da torcida. Os mais próximos o chamavam de “Loulou”. E o impacto na conquista do Campeonato Belga em 1990/91 logo chamou a atenção. O atacante anotou 18 gols na competição, quarto principal artilheiro da liga. Do Brasil, recebeu uma ligação, mas não era de seus pais. Paulo Roberto Falcão desejava convocá-lo em meio à renovação da seleção brasileira. O jovem talento recusou. “Já vi jogador participar de um ou dois jogos na seleção e depois sumir. Tenho medo de acontecer isso”, disse na época, em entrevista ao jornal O Globo. “Meu pai ficou bravo comigo. Ele disse que tinha certeza de que eu jogaria pela seleção brasileira”, complementou, em conversa recente com o UOL Esporte.

Em março de 1991, Oliveira já tinha a cidadania belga. Sua estreia na seleção local aconteceu em fevereiro de 1992, titular no time de Paul van Himst durante amistoso contra a Tunísia. Atuou ao lado de feras como Michel Preud’homme e Franky van der Elst, com Luc Nilis e Marc Wilmots saindo do banco. E, apesar da derrota por 2 a 1, o gol dos Diabos Vermelhos foi anotado justamente pelo novato, às vésperas de completar 23 anos. Vestindo a camisa da Bélgica, o maranhense esperava ter bem mais chances do que aconteceria com o Brasil. Exatamente o que aconteceu ao longo da década de 1990.

Oliveira se transferiu ao Cagliari em 1992/93, realizando um sonho de disputar a Serie A, ainda que não tenha opinado sobre o seu destino. Havia sido escolhido a dedo pelo técnico Carlo Mazzone, para substituir o ídolo Daniel Fonseca. O início na Sardenha foi difícil, perseguido pelo público local mesmo quando jogava bem. Chegou a quase ser atingido por uma lata no rosto, durante o período de maior perseguição. Mas foi na bola que o atacante se provou à torcida local, fugindo dos preconceitos. Logo na primeira temporada, ao lado de Enzo Francescoli, se tornou um dos protagonistas na equipe que classificou os rossoblù à Copa do Uefa. O clube não participava das competições europeias desde o início dos anos 1970, em época estrelada por Gigi Riva.

“Duas pessoas se aproximaram de mim. O treinador era muito paternal. E o capitão, Gianfranco Matteoli, que rapidamente me explicou que o futebol não era um esporte individual, que se eu continuasse tentando driblar todo mundo, um defensor iria me machucar. Depois de alguns meses, formamos um dueto mágico, ele para a construção, eu para finalizar”, relembra ao Le Soir. Uma das marcas de Oliveira na Sardenha, aliás, era a sua vaidade. Usava brincos e amuletos. Chegou até a pintar as unhas de rosa, em sinal de sorte. Ganhou o apelido de ‘Il Falco’ e comemorava seus gols como se batesse asas, para delírio da torcida. Não foram poucos tentos, aliás.

Os anos de Oliveira com o Cagliari foram excelentes. Defendeu o clube por quatro temporadas e anotou 41 gols pela Serie A, um número respeitável. Chegou a participar de toda a campanha da Bélgica nas Eliminatórias para a Copa de 1994, mas não figurou na lista final de Paul van Himst. A volta por cima nos Diabos Vermelhos se daria a partir de 1996/97, quando se transferiu à Fiorentina. Por lá, logo fez uma amizade importante: Gabriel Omar Batistuta. “Aquele cara era um cavalheiro, cheio de classe. Ele me deu mil dicas, todas preciosas. Treinava como um louco, motivava o resto do time. Era o capitão perfeito, ficamos muito próximos”, afirma. Em sua segunda temporada no Artemio Franchi, o maranhense ganhou a companhia de Edmundo. Junto com Batigol e Rui Costa, davam um poderio ofensivo imenso à Viola, então treinada por Alberto Malesani.

Bem na Fiorentina, Oliveira voltou a figurar nas convocações da Bélgica. Foi importante na campanha da equipe de Georges Leekens nas Eliminatórias, sobretudo na repescagem contra a Irlanda, anotando um dos gols que garantiram a classificação dos Diabos Vermelhos ao Mundial da França. A Copa de 1998, todavia, não deixou lembranças tão boas aos belgas. Com três empates na fase de grupos, a equipe não se classificou às oitavas. Apesar do talento ofensivo daquele elenco, com Enzo Scifo, Wilmots, Nilis e Van der Elst, a decepção foi grande. Oliveira apareceu como titular nos três compromissos.

A última grande temporada na carreira de Oliveira aconteceu em 1998/99, aos 30 anos, quando a Fiorentina liderou a Serie A ao longo do primeiro turno, mas perdeu fôlego na reta final da competição e terminou em terceiro. Sem espaço com Giovanni Trapattoni na temporada seguinte, o maranhense teve um retorno frustrado ao Cagliari e também não deu certo no Bologna. Sua retomada aconteceu na Serie B, anotando 23 gols com o Como, antes de fazer duas boas temporadas com o Catania. A carreira se alongou até os 42 anos, rodando boa parte da década passada pelas divisões de acesso do Calcio. Pela seleção belga, foram sete gols em 31 jogos, disputando ainda dois amistosos em 1999 antes de sair dos holofotes.

A ponte aérea Maranhão-Bélgica

Apesar de ser o mais marcante, Oliveira não foi o primeiro jogador de São Luís a se transferir ao futebol belga. O atacante Serjão, ex-Moto Club, teria sido o pioneiro. Loulou, de qualquer forma, abriria mais portas. Quando já tinha engrenado no Anderlecht, levou o irmão José Ribamar e o amigo José Nilto ao país. Além disso, outros adolescentes foram atraídos pelas possibilidades, sonhando com a melhoria da vida e com o dinheiro para ajudar a família. Não à toa, alguns deles adulteravam os documentos, já que menores de 17 anos não ocupavam a vaga de estrangeiros no Campeonato Belga.

“Tinha muito menor de idade que saía do Maranhão e de todo lugar do Brasil nessa época. O jogador não faz por maldade, é uma maneira de ter uma condição de vida melhor. Num dia ele está morando numa palafita, no outro dentro de um palácio”, afirmou Raimundinho Lopes, um desses garotos, em entrevista ao Globo Esporte em junho de 2014. Vale dizer, todavia, que embora não fosse tão ampla, a prática se via em outros estados. Em São Paulo, Sinval e Dener foram alvos dos clubes belgas, após brilharem com a Portuguesa na Copinha. Já na Inter de Limeira, um empresário prometeu mundos e fundos ao atacante Marcos Pereira, de 17 anos, que assinou com um time pequeno, até se destacar e chegar ao Lierse depois. Foram quase 20 anos defendendo equipes de diferentes divisões no país. É o pai de Andreas Pereira, que atuou pelas seleções de base da Bélgica antes de se juntar ao Brasil Sub-20, com o qual foi vice-campeão mundial em 2015.

Já entre os maranhenses, o nome mais bem sucedido depois de Oliveira é Wamberto. O meia-atacante nasceu em Cururupu, caçula em uma família de dez irmãos, e atuava na base do Sampaio Corrêa. Convocado à seleção juvenil, disputou o Mundial Sub-17 e chamou atenção. Pelas mãos do mesmo empresário argentino que levou Oliveira à Bélgica, o adolescente assinou com o Seraing, então na segunda divisão da liga local, onde teve a ajuda de Raimundinho para se adaptar. Profissionalizou-se no próprio Seraing e passou bons momentos no Standard Liège. Já entre 1998 e 2004, viveu o ápice da carreira, defendendo o Ajax, com o qual foi duas vezes campeão holandês e titular em boa parte do período.

Wamberto não prosperou a ponto de defender a seleção belga, como Oliveira. Em compensação, teria o seu herdeiro. O filho Danilo, nascido em São Luís em 1990, jogou na base do Ajax e se tornou profissional no Standard Liège. Durante as categorias de base, defendeu diferentes níveis dos Diabos Vermelhos, assumindo a braçadeira de capitão. Neste período, atuou ao lado com vários dos atuais destaques da equipe nacional, como Eden Hazard, Axel Witsel, Jan Vertonghen e Thibaut Courtois. “Foi uma boa experiência ver de perto e atuar com todos os caras. Mantenho amizade com eles até hoje”, declarou em entrevista à ESPN. Seu pai, aliás, conhece desde cedo outro destaque da geração. Wamberto foi companheiro de Peter Lukaku, pai de Romelu.

Já outro maranhense-belga a cruzar o caminho dos Diabos Vermelhos foi Rubenilson, também ex-Sampaio Correa, que se transferiu ao Standard Liège em 1989 e chegou a defender a seleção sub-20. Quando já era veterano, o brasileiro foi avisado pelo roupeiro do clube que um talento de 15 anos seria dispensado. Era Nacer Chadli, de quem se tornou tutor, ajudando a encontrar outra equipe. “Com Nacer, logo arrumei um time na Holanda e ficava próximo orientando na parte técnica, mostrando vídeos, fazendo melhorar”, declarou o maranhense, em entrevista recente ao Globo Esporte.

Rubenilson seria decisivo à carreira de Chadli. O ala chegou a ser convocado para um amistoso com a seleção marroquina, país de seus pais, e entrou em campo pelos Leões do Atlas em 2010. No entanto, o conselheiro e outros empresários convenceram o jovem de que teria mais chances de defender a seleção belga, por seu estilo de jogo e a cultura ligada ao futebol europeu. Por estes descaminhos da vida, foi justamente de Chadli o gol que deu a vitória à Bélgica no último minuto contra o Japão e colocou a equipe no caminho do Brasil nas quartas de final da Copa do Mundo de 2018. Uma história que, de certa maneira, começa com Oliveira querendo ajudar os pais há 33 anos.