Democracia

Onze vozes do futebol que se rebelaram nos anos de ditadura

Rebelar-se conta a ditadura militar não significava pegar em armas. Em tempos de forte repressão, qualquer gesto extremo poderia levar à morte. Entretanto, o terror imposto naqueles anos, em especial a partir de 1968, com o decreto do Ato Institucional 5, não significava o silêncio total. E o futebol serviu como meio para que vários personagens, conscientes ou não do que estavam fazendo, ampliassem a luta por direitos em tempos de censura.

Era uma época diferente. Não havia internet, redes sociais, blogs e outros meios modernos de manifestação pública. Havia muito menos circulação de informações, não havia liberdade de imprensa. Mesmo o futebol era menos exposto, com poucos jogos transmitidos na TV, mas ainda era um espaço  em que certas manifestações chegavam ao público sem tantos filtros. Por isso, não se pode negar o papel de personagens como Afonsinho, Reinaldo e Tostão como representantes da resistência.

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A luta se ampliou a partir da segunda metade dos anos 1970, quando Ernesto Geisel deu início à reabertura política, lenta e gradual. Então, as vozes que se levantavam na sociedade começaram a aparecer também no futebol. “Minha maior motivação era o momento em que o Brasil vinha. Minha geração vivia um momento de opressão e tristeza, o sonho da juventude era de transformar. Eu, como milhares de brasileiros, tinha a vontade de participar, mudar”, conta Reinaldo, ídolo do Atlético Mineiro e um dos maioers atacantes do Brasil na época. “Não sou nenhum intelectual, sou um cara do povo. Queria viver em uma democracia, em um estado de direito.”

A partir do início dos anos 1980, as movimentações se ampliaram. E os estádios tornaram-se grandes palanques em prol da reabertura política do Brasil. “Era um período bastante interessante, de movimentação popular na campanha da Diretas Já. A abertura trouxe a possibilidade de manifestação nos jogos, que não havia antes. Era um momento de circulação política, propício para as discussões”, analisa Euclides Couto, professor da UFSJ (Universidade Federação de São João del-Rei-MG) e doutor em história política do futebol brasileiro.

Nas linhas abaixo, apresentamos 11 personagens (jogadores, clubes, técnicos, dirigentes e torcidas) que tiveram atos de resistência durante a ditadura militar. Alguns deles não eram tão alheios assim ao regime. Ainda assim, em um período de truculência, o mínimo gesto já era um ato de coragem. Além dessas, também recomendamos a história de Roberto Mendes, contada com a maestria de sempre pelo Impedimento.

Democracia Corintiana

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O movimento mais famoso do futebol brasileiro durante a ditadura não resultou em mudanças diretas na sociedade e nem mesmo entre os clubes de futebol, mas serviu como um grande exemplo. O Parque São Jorge reunia jogadores engajados politicamente, como Casagrande, Wladimir e, principalmente, Sócrates – o principal pensador da iniciativa, ao lado do diretor de futebol e sociólogo Adílson Monteiro Alves. A chegada de Waldemar Pires à presidência do clube foi o estopim para o início da Democracia, que abria várias decisões internas a votações abertas e passou a dar concessões aos atletas. “O clima criado ajudou na conquista dos títulos. O futebol é um esporte coletivo. Quanto mais força coletiva existir, quanto maior a amizade, a cumplicidade, o compromisso coletivo, maiores são as suas chances de vencer”, escreve Sócrates no livro ‘Democracia Corintiana’, escrito ao lado de Ricardo Gozzi.

Mais importante que o regimento do próprio Corinthians naquele período foi a forma como o time usou isso para externar o engajamento na luta pela redemocratização no país. Sócrates era claro sobre seu posicionamento político nas entrevistas e nos gestos. Embora inibido pelo governo, o time entrou em campo com camisas incentivando o voto nas eleições legislativas. Entretanto, a partir de 1984 a democracia começou a perder força. A derrota da campanha das Diretas Já culminou na saída de Sócrates para a Fiorentina. “No último comício das Diretas Já, prometi que se a emenda das eleições diretas fosse aprovada pelo Congresso, eu não sairia do meu país. A emenda não passou e eu me senti, além de absolutamente frustrado e chocado, comprometido a ir embora”, escreve Sócrates. Em janeiro de 1985, com um racha no elenco exposto, a Democracia teve seu fim.

Afonsinho

Afonsinho

O meia chamava atenção tanto por seu talento quanto por cursar medicina. Conciliava a universidade com os jogos pelo Botafogo, além de ser vinculado aos movimentos de rebeldia. E o destaque alvinegro se tornou um símbolo maior de rebeldia por lutar por ter seu passe livre, em um momento no qual seu jeito já incomodava em General Severiano. Embora estivesse decidido a encerrar a carreira nos gramados, aceitou uma oferta de empréstimo do Olaria, onde recuperou o gosto pelo futebol. Mas, na volta ao Botafogo, após problemas com Zagallo, resolveu brigar de vez por seu passe.

“Eu sou de uma família de ferroviários. Desde criança eu acompanhei greves, convivi com amigos do meu pai que eram militantes. Eu era estudante, tinha interesse pela questão social, pela participação política. Desde a minha saída de Jaú eu não concordava com o passe. Quando voltei do Olaria, as coisas ficaram piores”, conta Afonsinho em entrevista à Trivela. Segundo Euclides Couto, o meia se tornou um ícone no meio intelectual, que comprou sua briga. Venceu a queda de braço com o Botafogo e serviu exemplo para a sociedade. “A discussão teve um impacto grande. Era o auge da ditadura, quando se vivia uma grande censura. E acabou se tornando um meio de falar sobre uma complicação política, através do futebol. A minha situação tomou um vulto de discussão política”, analisa o ex-jogador.

Reinaldo

Reinaldo

O craque do Atlético Mineiro explodiu quando a distensão da ditadura brasileira iniciava. As liberdades começavam a ressurgir na sociedade, enquanto o futebol se tornava mais midiatizado. O ambiente perfeito para que a comemoração com os punhos erguidos, referência ao movimento dos Panteras Negras, se tornasse icônico: “Eu simplesmente usava minha tribuna como pessoa pública para chamar atenção. Usava meu gesto como propaganda da necessidade de democracia. Dava uma entrevista ou outra, mas nunca fui uma pessoa engajada, de participar dos movimentos. Minha atividade era jogar bola”, conta Reinaldo à Trivela.

A mudança de Reinaldo para Belo Horizonte, aos 15 anos, contribuiu para essa sua conscientização. Segundo Euclides Couto, o garoto se tornou vizinho de Frei Betto e Leonardo Cristo, e passou a ter contato com movimentos estudantis. Os gestos e as entrevistas, no entanto, não eram de agrado do regime. Havia a acusação de que a ausência do craque na seleção tinha motivações políticas, gerando comoção popular na capital mineira. Reinaldo acabou convocado para a Copa de 1978, mas ainda assim era vigiado de perto. Ele perdeu a posição de titular a partir do terceiro jogo, fato que o atacante credita a sua comemoração após um gol no jogo de estreia, em que fez seu gesto característico de protesto.

Tostão

Tostão

A inteligência de Tostão em campo e em suas análises nunca foi segredo. Algo que aflorou diante da situação política na ditadura, embora sem ser tão explícito. Quem explica é o historiador Euclides Couto: “O Tostão tinha posições críticas, embora não exteriorizasse muitas vezes. Em 1970, ele deu uma entrevista emblemática ao Pasquim, mas depois recebeu uma ligação de que se ele voltasse a falar de política, seria afastado da Seleção. Como queria jogar a Copa, parou”. No último dia 26, Tostão citou o episódio em sua coluna na Folha, comentando a paranoia coletiva de ser denunciado como subversivo e ser preso.

Nando

A família Antunes Coimbra é recheada por jogadores de futebol. Zico é o mais famoso. Edu e Antunes também tiveram notoriedade. Já Nando viu sua carreira abreviada, justamente pela perseguição que sofreu. Estudante de filosofia, o jogador da base do Fluminense participou do Plano Nacional de Alfabetização de Paulo Freire. Parte de um projeto considerado subversivo, passou a ser vigiado pelos militares e a boicotado nos clubes. Depois de passagens sem sucesso por Santos-ES, America-RJ e Madureira, ganhou notoriedade no Ceará, em 1968. A ponto de ser vendido ao Belenenses. E ser barrado pela polícia da ditadura de Salazar.

Na volta ao Brasil, Nando foi pego pelo Dops e passou cinco dias preso, torturado e interrogado – principalmente por sua proximidade com a prima Cecília, colaboradora do MR-8, grupo responsável por atos terroristas. Depois disso, preferiu encerrar a carreira para não atrapalhar os irmãos. Mesmo assim, o ex-jogador atribui a ausência de Edu na Copa de 1970 à perseguição política. Já Zico, de certa maneira, seguiu a veia engajada dos irmãos. Ao lado de Zé Mario, foi um dos líderes do Sindicato de Atletas do Estado do Rio de Janeiro, criado apenas no final dos anos 1970. Até então, apenas São Paulo possuía uma organização de classe para representar os jogadores.

João Saldanha

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João sem medo. O apelido de Saldanha não era à toa. Dizia muito sobre sua postura combativa como jornalista. Mas também sobre a maneira como desafiava quem o contrariasse, mesmo sendo o técnico da Seleção. Havia sim, alguns questionamentos técnicos sobre o time às vésperas da Copa de 1970, mas seu posicionamento político causava grandes incômodos à cúpula da CBD. Quando o presidente Médici disse que Dadá Maravilha precisava ser convocado, o treinador respondeu: “Ele escala o ministério e eu escalo a Seleção”. O clima que era pesado piorou. O governo interferia cada vez mais na CBD e, diante da pressão externa, a demissão de Saldanha aconteceu depois de uma série de brigas com membros da comissão técnica.

“Estava tudo muito bem. De repente, surgiu uma crise. Se perguntarem hoje por que fui demitido, juro pela Teresa e pelas crianças que não sei. Porque não me deram nenhuma explicação, tentaram fazer com que eu pedisse demissão. Ora, um homem de luta não pede demissão. Disseram-me que a comissão técnica estava dissolvida. Eu respondi: ‘Não sou sorvete para ser dissolvido. O que quer dizer dissolvido? Estou demitido?’. ‘Está demitido’. ‘Até logo, boa noite, vou para casa dormir’. E não há ninguém que tire a tranquilidade do meu sono”, disse Saldanha, em carta aberta publicada pela revista Placar, em 27 de março de 1970. Saldanha ainda trabalhou naquela Copa, como jornalista. Mas o fez como enviado pela imprensa inglesa, pois não havia recebido permissão do governo brasileiro. Depois, seguiu como suspeito de acusar a repressão dos militares em suas visitas fora do país.

Fla x Flu de 1984

Maluf

A final da Taça Guanabara de 1984 foi disputada sob os ecos das eleições indiretas, que apontariam o primeiro presidente civil em 20 anos. Tancredo Neves e Paulo Maluf eram os candidatos no pleito que aconteceria em quatro meses. E o Maracanã se tornou um palanque. Dias antes da decisão, o Fluminense – então presidido por Manoel Schwartz - foi a Brasília levar uma faixa de campeão brasileiro para o presidente João Figueiredo. Quatro jogadores tricolores, incluindo Washington e Branco, fizeram uma visita a Maluf, candidato do PDS (herdeiro político da Arena, o partido do governo militar).

Foi o suficiente para iniciar a polêmica. O presidente do Flamengo, George Helal, se afirmou tancredista. Já o goleiro Paulo Victor, do Flu, apoiou Maluf. O próprio Tancredo, que dizia que seu coração era rubro-negro (entre tantas outras cores), previu uma vitória por 3 a 1, enquanto Maluf cravou 2 a 1 para o Flu. Nas arquibancadas, ao menos, havia o consenso entre as torcidas. “O Fla não malufa” e “Tancredo Já” eram as faixas exibidas pelos flamenguistas, enquanto os tricolores cravavam “Maluf é a corrupção, Tancredo é a solução”. No campo, assim como nas urnas, título de Tancredo: 1 a 0 Fla, gol de Adílio. Cumpriu-se a profecia de Zagallo, antes do jogo: “Vamos dar uma tancredada no Tricolor”.

Madureira

Madureira

Eram os últimos meses do governo de João Goulart. Em uma época na qual o Brasil não renegava Cuba, o Madureira foi pioneiro a visitar a ilha caribenha, em maio de 1963, com direito a recepção de Che Guevara e camisa comemorativa lançada em 2013. Uma viagem bem menos celebrada ocorreu em 1964. Naquele ano, o Tricolor Suburbano excursionou por mais de dez países, incluindo a China de Mao Tsé-Tung, aonde chegaram dez dias após a queda de Jango. Com a delegação liderada pelo militar Jayme Teixeira, não havia muitos temores de que o governo implicasse com a visita. O problema maior era a CBD, diante das ameaças de que o Madureira pudesse sofrer retaliações, já que a Fifa proibia visitas ao país asiático, assim como a ditadura comunista da China, que chegou a reter a delegação por dez dias depois que militantes chineses foram presos depois do golpe brasileiro.

Torcida do Corinthians

Gaviões

Antes mesmo da Democracia Corintiana, o ativismo político estava presente nos jogos do Corinthians. O conceito de torcidas organizadas era bem diferente do atual e o engajamento político estava presente, em tempos de reabertura política. Durante um jogo contra o Santos, em 1979, a Gaviões da Fiel chegou a estender a faixa “Anistia ampla, geral e irrestrita”, em apoio ao processo que se intensificava naquele período. Houve repressão contra os organizadores da manifestação. E as faixas continuaram a ser exibidas nas arquibancadas, especialmente na campanha das Diretas Já.

Márcio Braga

Presidente do Flamengo entre 1977 e 1980, Márcio Braga era deputado do MDB (atual PMDB, na época o partido de oposição ao regime) e ajudou a organizar um movimento de discussão do esporte no Congresso durante a reabertura política do Brasil, em 1984. Ele coordenava a Comissão de Estudos de Esportes da Câmara Federal, que chegou a contar com a participação de Sócrates, que contribuiu com ideias sobre o tema. A intenção era acabar com os “50 anos de autoritarismo no futebol brasileiro”, iniciado ainda com Vargas e sustentado pelos militares, lutando por uma maior profissionalização dentro do esporte. O problema é que o documento elaborado pelo grupo ficou restrito a poucas pessoas e não chegou a ser editado, mas o debate crescente ao menos ajudou na criação da Secretaria de Desportos da Presidência da República, futuro Ministério dos Esportes.

Francisco Horta

Em tempos nos quais os clubes eram beneficiados pelo clientelismo na CBD, o presidente do Fluminense foi o único a levantar sua voz contra os desmandos da administração do Almirante Heleno Nunes. Em 1977, Horta sugeriu que os militares envolvidos com o futebol brasileiro “voltassem aos quartéis” e criticou a incompetência na organização do Campeonato Brasileiro. Sugeria também mais abertura aos civis – o que também era visto como uma maneira de se lançar como possível sucessor de Nunes na CBD. Em 1980, de fato, a entidade voltou a se abrir para os civis. Mas quem assumiu a chefia foi Giulite Coutinho, presidente do America.