Obviamente, não há como citar a classificação holandesa para as semifinais da Copa do Mundo, superando a Costa Rica por 4 a 3, nos pênaltis, após empate sem gols em 120 minutos, sem mencionar a manobra de Louis van Gaal, ao colocar Tim Krul no lugar de Jasper Cillessen para a disputa de chutes da marca do pênalti. Ela foi decisiva, é inegável. Mas isso fica para daqui a pouco.

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Diante do debate que a mudança polêmica de Van Gaal causou, um fato importante foi perdido de vista: a Holanda já fez mais do que era previsto na Copa. É preciso ter frieza e lembrar: antes do mundial, sabia-se que o grupo da Oranje era difícil. De quebra, a lesão no joelho que tirou de Kevin Strootman a chance de estar na Copa (e em menor escala, o problema muscular que tirou Van der Vaart do torneio, já na fase final de preparação) forçaram Van Gaal a armar um esquema que protegesse mais a defesa. Diante da ascensão comprovada do Chile, falar em eliminação na fase de grupos não era ilusório.

Pois bem: não só o 5-3-2 acabou dando certo, no fim das contas, como a própria Holanda passou a acreditar, depois da belíssima goleada contra a Espanha. É certo que aqueles 5 a 1 de Salvador ocorreram a partir da grande fragilidade da defesa da Fúria, mas isso não era da conta de Robben, Van Persie e Blind, que fizeram partida primorosa. A partir de então, as coisas se encaixaram. O time se encaixou, se esforçou na marcação e no ataque (o que possibilitou as vitórias contra Austrália e Chile) e assimilou as intenções de Van Gaal.

Assimilou a ponto de os jogadores passarem a se esforçar em posições que não eram necessariamente as deles, apenas para corresponderem ao pensamento de Van Gaal, que deu (mais uma) prova de sua habilidade ao armar equipes, pensando num esquema tático para cada adversário. Confiar em Depay, por exemplo, ampliou as opções rápidas de ataque da seleção. Foi com a entrada dele (e de Huntelaar) que a Holanda foi com tudo para o ataque contra o México, o que terminou com a virada por 2 a 1.

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Mais importante ainda foi a Holanda ter aprendido que não precisava somente jogar esperando o adversário, que podia partir para o ataque desde o começo. Foi exatamente isso que a Oranje fez contra a Costa Rica. Algo que já se indicava desde que a escalação para o jogo das quartas saiu, na noite da sexta-feira. Dessa vez, o 5-3-2 teria rasgos de 3-5-2, com Depay como ala, pela esquerda. E Kuyt, de papel defensivo importante contra Chile e México, poderia avançar mais. Foi exatamente o que a Holanda fez: avançou mais, criou chances. Com Robben, com Van Persie, com Sneijder (boa partida, até melhor do que contra o México: apareceu mais, criou jogadas, fez lançamentos), com Depay, com Kuyt… mas elas sempre paravam.

Principalmente por causa da boa partida dos defensores costarriquenhos, com destaque para Giancarlo González e Michael Umaña. E mesmo quando o ataque holandês passava pela barreira dos Ticos (isso, quando não estava impedido – 13 vezes!), havia Keylor Navas, goleiro tão difícil de superar quanto Ochoa já fora nas oitavas de final. É lícito supor que a Holanda teria resolvido o jogo nos 90 minutos, ou nos 120, caso houvesse um arqueiro menos ágil e arrojado do que o costarriquenho. E ainda houve a trave, que impediu dois gols no fim do tempo normal.

Ao levar o jogo para a prorrogação, a Costa Rica já conseguia executar o seu plano tático à perfeição: uma defesa muito bem treinada e entrosada na linha de impedimento, com um ataque que iria se arriscar cada vez mais, esperando que a zaga holandesa ficasse mais cansada à medida que o tempo passasse. Uma hora, quase deu certo, com Ureña tendo uma ótima chance, salva por Cillessen, no que talvez tenha sido a primeira grande defesa do camisa 1 holandês na Copa. A Holanda tentava atacar, ainda, mas já esbarrava no cansaço de Van Persie. Robben e Sneijder ainda experimentavam, mas a defesa adversária não se intimidava em se jogar à frente da bola.

Aí Van Gaal decidiu-se pela mudança polêmica, colocando Krul no lugar de Cillessen. Obviamente, arriscar isso nos acréscimos da prorrogação causou irritação justa no titular. E nada mais era do que uma aposta, talvez baseada no treino fechado da última quinta – afinal, não é praxe da Oranje treinar cobranças de pênalti abertamente. Exatamente por ser uma aposta é que chamar o técnico de “gênio” (“Louis van G(eni)aal” foi a manchete do diário alemão “Bild”) é exagero: Van Gaal já era um dos grandes técnicos holandeses de todos os tempos antes da Copa. Nada mais tinha a provar. E talvez nem assim seja gênio. Ele “apenas” conhece perfeitamente as forças e fraquezas de cada um dos seus 23 jogadores, utilizando-os de acordo com o jogo.

E de nada adiantaria Krul justificar plenamente sua entrada se os “velhos de guerra” não aparecessem quando a seleção precisava. E eles converteram suas cobranças com maestria. A justificativa? Fale, Sneijder: “Van Persie, Kuyt, Robben e eu precisávamos cobrar. Assumimos a nossa responsabilidade”. E o triunfo demorou, mas veio, premiando o espirito de luta e união do time. O conhecimento do elenco que Van Gaal tem. E também premiou a figura discreta e pouco falada do treinador de goleiros, Frans Hoek.

Enfim, a Holanda já fez o suficiente na Copa do Mundo. Para uma geração nova como essa, estar entre as quatro melhores seleções do planeta, como em 2010, já é prova de como o país merece mais crédito. Mas a própria delegação não pode pensar nisso. Sim, a Argentina traz o trauma da derrota na final de 1978. E tem Messi. Mas agora é hora da Oranje mostrar que tem mentalidade vencedora. E que ninguém “pode se colocar acima do grupo”, como Cillessen falou após pedir desculpas. Se houver derrota na semifinal, tudo bem. Mas acreditar que pode mais talvez seja o caminho para a Holanda fazer história. Com o que se viu nesta Copa, mais saborosa do que a de 2010, motivos não faltam para que essa crença exista.