“Se você olha friamente, como jogador, Obdulio não foi um dos melhores, nem um dos piores. Mas era como esses atores que, quando entram em cena, têm presença. Estava e, quando estava, o campo era distinto. E isso foi decisivo no Maracanã, para que o Uruguai ganhasse contra essa besta de 200 mil cabeças que rugia. Ele levou adiante a luta, e depois teve a dignidade e a nobreza de escapar da comemoração dos uruguaios no hotel, para ir beber com os vencidos. Passou toda a noite nos bares do Rio, bebendo, abraçado a esses pelos quais sentia pena. Havia os odiado um par de horas antes e então sentia uma lástima imensa. Dizia: ‘Como posso fazer isso com uma gente tão boa…’. Às vezes duvidam se essas não são ‘coisas que se dizem da boca para fora’. Coisas que se dizem, besteira… Ele me contou, como na outra vez em que perguntei se ele se drogava, porque o tema estava sobre a mesa. E me disse: ‘Te confesso que sim… Com vinho…'”.

Eduardo Galeano, em entrevista à revista Un Caño, junho de 2010

As palavras do mestre Eduardo Galeano sobre Obdulio Varela vão além da mera relação entre um uruguaio apaixonado por futebol (por mais redundante que a atribuição seja) e o maior símbolo da seleção charrua. Não é apenas fanatismo, ou patriotismo, ou qualquer outra classificação do tipo que você prefira. É bem mais sublime. Um tanto quanto lírica, entre uma das maiores mentes da literatura latino-americana no Século XX e um dos melhores personagens que passaram pelos gramados. A própria trajetória do capitão de 1950 poderia soar como ficção. Como um bom realismo fantástico. Mas é a realidade (tudo bem, talvez idealizada pelo saudosismo de um período romântico do esporte) que beira a lenda, ainda que Obdulio preferisse negar qualquer mitificação feita de seu nome. Ele era, sobretudo, humano. Assim, tão divino por aquilo que protagonizou.

O elo entre o jovem e o velho Jacinto (seu nome do meio, como era chamado por familiares e amigos), que sobrepassa a carreira de Obdulio Varela como jogador, elucida toda a sua humanidade. Os inícios não fogem do enredo de tantos craques. O mulato pobre cresceu na periferia de Montevidéu, filho de uma lavadeira e de um vendedor. Dela, herdou a dignidade. Dele, o amor pelo futebol. De ambos, a luta diária que se estendeu desde a infância. Jacinto estudou por apenas três anos. Trabalhava desde os oito. E desempenhou os mais diferentes ofícios para ajudar no sustento de sua casa. Vendeu jornais e pães, engraxou sapatos, entregou cartas. Foi peão de obra, num momento em que já deslanchava como jogador, e voltaria a ser como craque, para garantir seus rendimentos enquanto liderava os jogadores uruguaios em uma greve por melhores salários.

Aposentado, Jacinto afastou-se da mídia. Dizia que as únicas verdades publicadas pelos jornais eram o preço e a data. Seguia uma vida humilde, funcionário público de um cassino, emprego arranjado antes mesmo da Copa do Mundo de 1950, quando cogitou seriamente largar o futebol. Não deixou de ser pobre em bens materiais, durante uma época na qual uma carreira vitoriosa não necessariamente rendia cifras milionárias. Mas também permanecia riquíssimo de caráter, sem dobrar os joelhos aos desmandos de dirigentes e ao uso de uso de sua imagem. Depois que pendurou as chuteiras, voltou a campo raras vezes. Por sua iniciativa, os veteranos de Brasil e Uruguai encheram o Centenario e o Maracanã mais uma vez nos anos 1960, em revanches para ajudar hospitais infantis. Prova da generosidade do Negro Jefe, falecido em 1996, aos 78 anos.

Entre o menino lutador e o senhor idealista, no entanto, há um intervalo. Um glorioso intervalo. Os tempos do craque Obdulio Varela. O centro-médio que começou a carreira nos clubes de bairro, antes de passar pelo Montevidéu Wanderers e atingir sua grandeza com a camisa do Peñarol, seu clube de coração. Que por 15 anos vestiu o manto celeste, escrevendo grandes histórias no continente desde o fim dos anos 1930. Mantinha seu caráter inquebrantável, de quem não aceitava ser tratado como mercadoria dos cartolas. Já em campo, era conhecido por sua marcação firme, pela capacidade de acelerar o jogo com seus passes longos e de decidir com suas bombas de fora da área, quase sempre rasantes. Com um destes chutes, empatou o jogo contra a Espanha no Pacaembu, que manteve os sonhos da Celeste na Copa de 1950. Para, dias depois, eternizar aquela que realmente se gravaria como sua maior virtude nos gramados: a liderança. A força mental de quem encorajou seus companheiros para uma vitória que parecia impensável no Maracanã. Para o Maracanazo.

Houve uma noite em que o craque e o homem se fundiram mais do que nunca. Aquela que serve de clímax ao épico de sua vida. E aconteceu justamente naquele fatídico 16 de julho de 1950 – quando o Maracanã, além de silencioso, já estava vazio. Obdulio Varela saiu às ruas do Rio de Janeiro para tomar umas cervejas, ao lado do massagista da seleção uruguaia. Tornou-se novamente Jacinto, amigo de dezenas de brasileiros que choravam a derrota. Sentiu a pena, descrita por Galeano. Viveu a antítese que se transformaria na grande poesia de sua biografia. O Negro Jefe abria seu coração. “Minha pátria é o povo que sofre”, disse, certa vez, quando a maneira como dirigentes uruguaios se apropriaram da glória de 1950 já o remoía.

Nesta quarta, Obdulio Jacinto Varela completaria 100 anos, se ainda estivesse vivo. Para celebrar a data tão importante, reproduzimos alguns depoimentos dados pelo eterno capitão ao livro “Obdulio desde el alma”, de Antonio Pippo. Nos dois primeiros capítulos, ele fala sobre a infância e a juventude; em um trecho do nono, comenta a relação que criou com os brasileiros; por fim, no último, faz um balanço sobre a vida como jogador e a sua imagem mitificada. Declarações que demonstram bastante o caráter do homem, indo além do futebol, mas sem deixar de engrandecer o enorme craque. A verdadeira lenda: