Matéria publicada originalmente em abril de 2015 e resgatada nesta quinta, em virtude dos 100 anos do nascimento de Perácio

O Brasil não esteve entre os protagonistas da Segunda Guerra Mundial. A contribuição da Força Expedicionária Brasileira, no entanto, continua marcada na história. Mais de 25 mil militares do país combateram na Europa e ajudaram a vitória dos Aliados. As ofensivas brasileiras contribuíram para a queda dos nazistas na Itália. E, há exatos 70 anos, os pracinhas conquistaram um de seus triunfos mais importantes, o mais sangrento: a Batalha de Montese.

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Entre a tomada da cidade no norte da Itália e a tentativa dos alemães em recuperá-la, o evento durou três dias, destruindo 833 casas e matando 189 civis. O Brasil teve 426 baixas, incluindo 34 mortos. Do outro lado, 497 inimigos foram aprisionados, mortos ou feridos. Onze dias depois, Benito Mussolini seria morto e Adolf Hitler cometeria suicídio na sequência. Já no dia 7 de maio de 1945, o Eixo assinava a sua rendição total e incondicional em Berlim.

Os homens da FEB que lutaram na Itália receberam grandes honras na volta ao Brasil. Incluindo um que, anos antes, já havia sido recepcionado por uma multidão e pelo presidente Getúlio Vargas no porto do Rio de Janeiro. Em 1938, José Perácio era um dos heróis que tornou a seleção brasileira reconhecida pelo resto do mundo, após a campanha histórica na Copa do Mundo. Mas o fato de ter conquistado o terceiro lugar no Mundial da França não livrou o atacante de suas obrigações militares. E o artilheiro dos campos partiu para o front na década de 1940.

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Perácio era conhecido pelo chute potente e pelo ótimo senso de posicionamento, que o tornavam um goleador nato. Mas também se eternizou como um grande personagem fora das quatro linhas, ingênuo e cheio de anedotas. A ponto de Mário Filho dizer que era impossível escrever sobre o mineiro sem colocar o humor à frente da bola. Nascido em Nova Lima, o craque despontou com a camisa do Villa Nova, pelo qual conquistou três títulos do Campeonato Mineiro. De lá seguiu para o Botafogo, em 1937. O sucesso imediato com a camisa alvinegra ajudou que fosse convocado por Adhemar Pimenta para o Mundial.

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A estreia pela Seleção aconteceu na mítica partida contra a Polônia, em Estrasburgo. Perácio marcou dois gols na vitória por 6 a 5 dos brasileiros. Já nas quartas de final, contra a Tchecoslováquia, carimbou a trave com tanta força que a bola sobrou quase na intermediária. Também se machucou, em uma trombada que deslocou a clavícula do lendário goleiro Planicka. O atacante voltou a tempo de perder para a Itália nas semifinais e de marcar o tento que definiu o triunfo por 4 a 2 sobre a Suécia, na decisão do terceiro lugar. Precisou de apenas quatro partidas para escrever o seu nome na Seleção, a grande revelação daquela campanha.

Perácio permaneceu no Botafogo até 1940, passando pelo Canto do Rio antes de se juntar ao Flamengo. Longe das convocações, se consagrou como uma das grandes referências no ataque rubro-negro durante o tricampeonato carioca de 1942/1943/1944. Após o segundo título, contudo, Flávio Costa precisou ceder o atacante para a FEB. Ele não queria ir para guerra. Inventou apendicite e suplicou até para Eurico Gaspar Dutra, ministro da guerra de Vargas e rubro-negro declarado. Não houve escapatória, por mais que o rapaz simplório e semianalfabeto temesse as armas, desconhecesse as estratégias.

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Antes de partir para a Itália, o flamenguista entrou em campo fardado antes de um amistoso do Brasil contra o Uruguai, realizado para levantar fundos à Cruz Vermelha. Em pleno São Januário, o artilheiro era ovacionado, ao lado de Geninho e Valter – ambos do Botafogo, que também lutariam na guerra. A lista de jogadores brasileiros que estiveram no front, aliás, é extensa. Pelo menos 18 atletas de clubes profissionais se juntaram à FEB. Entre eles Geninho, meio-campista do Botafogo apelidado de “arquiteto” por sua visão; o lateral Adelino, que defendeu o Cruzeiro por 17 anos e disputou 430 jogos pelo clube; e o atacante Nino, quatro vezes artilheiro do Campeonato Paranaense pelo Coritiba. Com tanto talento à disposição, era natural que os pracinhas batessem uma bola quando não estavam nas trincheiras.

1938

Em 1945, com a vitória iminente, os Aliados resolveram organizar uma pequena Copa do Mundo entre os soldados. O time do 5º Exército dos Estados Unidos, do qual a FEB fazia parte, contou com quatro brasileiros: Perácio, o lateral Bidon (São Cristovão), o ponta Walter (base do Corinthians) e o goleiro Bráulio (Atlético Mineiro). Acabaram com a taça. Já em abril, a “seleção brasileira” reuniu sua força máxima e disputou um amistoso contra a força aérea britânica. Os pracinhas venceram por 6 a 2, com gol de Perácio. Bola nas redes para acalmar a tensão do mineiro em relação às bombas que estouravam ao seu redor.

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“Eu tinha pavor de pensar que numa batalha a gente é obrigado a matar para não morrer. E, se fosse o caso, teria de fazer isso. Porque, numa guerra, está em jogo a nação”, dizia. Perácio ficou mais na retaguarda, trabalhando como motorista de oficiais. Nada que tenha evitado o pânico constante pelo risco de perder a vida a qualquer momento.

Na volta ao Brasil, o atacante retomou suas atividades pelo Flamengo. Permaneceu no clube até 1951, somando 97 gols – naquele momento, o sexto maior artilheiro da história rubro-negra e,  atualmente, o 21º da lista. Antes da aposentadoria, também passou pelo Canto do Rio. Despediu-se dos gramados lembrados pelos muitos gols, assim como pelas histórias engraçadas que protagonizava. Faleceu em 1977, aos 60 anos, podendo dizer que foi o único herói brasileiro a triunfar no futebol e na guerra.

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Já que Perácio era também lembrado pelas fanfarronices, reunimos cinco histórias relacionadas ao veterano:

“Sem modéstia, com carro eu nunca vacilei. Procurava sempre ter os mais modernos. E comprava-os com meus gols. Como fiz tantos gols que perdi a conta, é fácil transmitir aos que não me conheceram na época que tive igualmente tantos carros que perdi a conta”.

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Certa vez, Perácio foi abastecer seu carro em um posto em Botafogo. Quando o frentista enchia o tanque, acendeu o fósforo para iluminar o cano e ver se a gasolina estava entrando. O rapaz, obviamente, clamou para que ele apagasse o fósforo. E o atacante retrucou calmamente: “Tudo bem, eu não sabia que você é supersticioso”.

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Ao ver os novos modelos de carro esporte, Perácio ficou maluco e correu para um dirigente do Botafogo pedir o adiantamento. Mas você tem carro, Perácio! “Meu automóvel tá uma porcaria, doutor. Tá igualzinho à defesa do Flamengo”. Era semana de clássico. Para ganhar o automóvel, teria que dar a vitória aos alvinegros marcando um gol. Fez dois. E, se mantivesse a média, o novo acordo é que a gasolina seria de graça. “Posto nenhum viu meu dinheiro”.

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Durante o Brasil x Argentina pela Copa Roca de 1939, a marcação de um pênalti revoltou os jogadores da Albiceleste, que partiram para cima do árbitro, apanharam da polícia e saíram de campo. A marcação foi mantida e Perácio iria cobrar, para desempatar o placar em 2 a 2. Com medo de que Perácio soltasse suas famosas bombas e isolasse a bola, a torcida em São Januário começou a pedir que chutasse fraco. Obedeceu. Tão fraco que a bola quase não passou pela linha do gol.

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Perácio gostava de ouvir os narradores gritando: “Gooooool de Perácio!”. Tanto que chegou a comprar o carro com o som mais potente possível para lhe dar prazer durante os jogos. O atacante estacionou e deixou os alto-falantes ligados no último volume. Balançou as redes e nada de ouvir, do campo, o carro que estava fora do estádio. Desabafou: “Não adianta, comprei o carro errado”.