A Inglaterra, nos primórdios, resistiu à internacionalização do futebol. Com certa soberba, achava-se a melhor do mundo e fugia de confrontos que pudessem provar o contrário. A primeira Copa foi a de 1950, quando veio a pesada derrota para os Estados Unidos em Belo Horizonte. Três anos depois, a humilhação: a seleção inglesa perdeu por 6 a 3 da Hungria, em Wembley. A integração com a Europa eventualmente tornou-se inevitável, mas, ainda assim, o futebol inglês demorou mais do que outros para abraçar jogadores ou técnicos de outros países. Escoceses, galeses ou irlandeses já eram considerados estrangeiros. Uma questão de cultura e de mentalidade que começou a mudar apenas com a Premier League, em concomitância com a Lei Bosman. Tanto que nos primeiros 110 anos do Campeonato Inglês, todas as edições foram vencidas por treinadores britânicos, ingleses ou escoceses. Até Arsène Wenger conquistar seu primeiro título pelo Arsenal, há exatos 20 anos. 

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A conquista da Premier League de 1997/98 não foi simbólica de uma mudança cultural pela qual o futebol inglês passava naquele momento apenas porque o treinador sentado no banco do campeão era francês. Era um time montado em torno do talento além da ilha: dos holandeses Marc Overmars e Dennis Bergkamp, dos franceses Patrick Vieira, Nicolas Anelka e Emmanuel Petit. Na rodada inaugural da Premier League, em 1992, somente 13 jogadores não britânicos entraram em campo, em todos os 22 clubes. Ao longo da campanha vitoriosa, o Arsenal sozinho deu pelo menos uma rodada para 11 jogadores estrangeiros. Muito mais do que qualquer outro campeão da Premier League até então. Foi um marco na transformação do torneio em uma competição global, cujo processo explicamos com detalhes nesta matéria do ano passado

O Manchester United, primeiro campeão da era moderna do Campeonato Inglês, utilizou apenas três não britânicos nos títulos de 1992/93 e 1993/94: Peter Schmeichel, Eric Cantona e o russo Andrei Kanchelskis. O Blackburn, vencedor da temporada seguinte, tinha apenas dois, o norueguês Henning Berg e o meia holandês Richard Wtischge, que disputou apenas uma partida. Em 1995/96, o United recuperou o título, com o francês William Prunier juntando-se a Schmeichel e Cantona. No ano seguinte, houve um salto no número de estrangeiros do elenco dos Red Devils. Prunier foi embora, mas, além do goleiro dinamarquês e do atacante francês, havia Solskjaer, Ronny Johnson, Karel Poborsky, Jordi Cruyff e Raymond van der Gouw. 

A chegada de Wenger ao Arsenal foi uma marca desta mudança de mentalidade. A aposta em um técnico francês, de renome modesto, não foi recebida sem sobrancelhas erguidas em um clube que se identificava com um estilo de futebol mais próximo possível do estereótipo inglês: força, marcação, raça e bolas longas. Durante as décadas de setenta e oitenta, ganhou o apelido de “Boring (enfadonho) Arsenal”. O elenco da primeira temporada de Wenger em Highbury tinha apenas cinco estrangeiros, e três haviam sido contratados pelo novo treinador naquela janela: Vieira, Anelka e Rémi Garde. Os outros eram Dennis Bergkamp, que chegara no ano anterior, e Glenn Helder. 

O Arsenal, porém, era um clube que precisava passar por uma revolução. George Graham havia encerrado sua longa e vitoriosa passagem pelo clube em desgraça, acusado de receber propina de agentes de jogadores. Os Gunners ficaram em 12º lugar naquela temporada. Na seguinte, com Bruce Rioch, ficaram em quinto. Para piorar as coisas, Tony Adams, capitão e lenda, havia acabado de anunciar seus problemas com o álcool quando Wenger foi contratado. 

A primeira campanha de Wenger já foi bem melhor, com um terceiro lugar, a sete pontos do campeão United. Na preparação para a temporada seguinte, chegaram Overmars e Petit para reforçar a espinha dorsal que o francês começava a construir. O time base teve: David Seaman; Lee Dixon, Tony Adams, Steve Bould e Nigel Winterburn; Petit, Patrick Vieira, Overmars e Ray Parlour; Bergkamp e Ian Wright (Anelka). Era a hora de levar o título de volta a Highbury pela primeira vez desde 1990/91, antes da fundação da Premier League. 

A campanha começou com seis vitórias e quatro empates, com goleadas por 4 a 1 contra o Bolton, 4 a 0 no West Ham e 5 a 0 no Barnsley. Mas vieram empates seguidos contra Crystal Palace e Aston Villa, o que permitiu que o Manchester United assumisse a ponta. Foi o começo de uma sequência de oito rodadas em que o Arsenal ganhou apenas dois jogos. Sorte que um deles foi contra os Red Devils. Mas, na 18ª rodada, os Gunners haviam caído para o sexto lugar, a dez pontos do líder. 

A derrota por 3 a 1 para o Blackburn, em 13 de dezembro, foi o divisor de águas. A rodada seguinte seria contra o Wimbledon, fora de casa, mas a partida foi adiada por problemas com a iluminação. A equipe voltou a campo apenas no Boxing Day, derrotando o Leicester por 2 a 1. Foi o início de uma sequência de 17 partidas de invencibilidade, com 14 vitórias. Entre elas, houve quatro seguidas por 1 a 0, inclusive contra o Manchester United, em Old Trafford, gol de Overmars. Isso significava que o Arsenal precisaria apenas vencer o Everton, em Highbury, na antepenúltima rodada, para assegurar o título. 

Foi em 3 de maio de 1998. Logo aos 6 minutos, Petit cobrou falta pela direita em direção a Tony Adams. Slaven Bilic, pressionado, cabeceou às próprias redes. Overmars ampliou ainda no primeiro tempo com um chute rasteiro, aceito pelo goleiro Thomas Myhre. Em outra arrancada incrível, o holandês entrou na área e bateu cruzado para fazer 3 a 0. O ápice da campanha foi o quarto gol. Bould lançou do meio-campo e quem apareceu para receber foi Tony Adams, o zagueiro durão que por muito tempo representou o estilo de jogo brusco do Arsenal. O capitão dominou no peito, entrou na área e bateu cruzado. 

A temporada ainda não havia terminado. O Arsenal também estava na decisão da Copa da Inglaterra, que seria disputada duas semanas depois, em Wembley. O adversário era o Newcastle, de Alan Shearer, treinado por Kenny Dalglish. Dois lançamentos mataram a partida: um para Overmars, no primeiro tempo, e outro para Anelka, depois do intervalo. A vitória por 2 a 0 significou a primeira Dobradinha do Arsenal (liga mais copa) desde 1970/71. Um feito brilhante para ratificar o futebol atraente que o Arsenal passara a praticar, assim como a legião de estrangeiros que o tornara possível.