Por Caio Brandão, advogado e colaborador do Futebol Portenho

O Peñarol dos anos 1960 se notabilizou pelas conquistas internacionais. Decidiu as três primeiras edições da Libertadores, vencendo as duas primeiras. Voltou à final do torneio outras duas vezes na década (ambas seguidas também), com outro título em 1966. Ainda ganhou dois títulos mundiais, um deles derrotando o Real Madrid tanto no Centenario quanto no Santiago Bernabéu. Não houve time tão vitorioso fora das fronteiras naquela década. O que ofusca um importante recorde doméstico, igualado nos anos 1990, conforme as capas dos jornais uruguaios registravam há vinte anos, simbolizado pelos cinco dedos da mão direita aberta de Pablo Bengoechea: um ‘Quinquenio de Oro’.

Prólogo

O primeiro Quinquenio de Oro (isto é, cinco títulos consecutivos) do Campeonato Uruguaio veio na virada dos anos 1930 para os 1940, com o Nacional não só impedindo o rival (então tetra seguido) de alcançar o feito, como conseguindo ele próprio concretizá-lo. Era o Nacional de Atilio García, o refugo argentino que virou o maior artilheiro do clube, do clássico e do futebol uruguaio. A resposta aurinegra tardou vinte anos e foi dada entre 1958 e 1962, por meio da geração marcada nos primórdios da Libertadores: Alberto Spencer, Juan Joya, Juan Hohberg, Luis Cubilla, Néstor Gonçalves, entre outros grandes nomes.

VEJA TAMBÉM: Nos 400 anos de Belém, um timaço só com grandes jogadores paraenses que serviram a Seleção

Mas nem os gols do seis vezes seguidamente artilheiro Fernando Morena (único a superar Atilio García na artilharia do Campeonato Uruguaio) nos anos 1970 fizeram o Peñarol ir além de três títulos seguidos desde então. A conquista da Libertadores, tão rotineira nos anos 1960, só voltaria nos 1980, com a apoteose do já veterano Morena na edição de 1982 e a epopeia ainda maior protagonizada por Diego Aguirre em 1987.

Agora, corta para 1992. O Peñarol chega ao sexto ano sem títulos uruguaios, terminando em quarto, enquanto vê o arquirrival encerrar seu próprio jejum doméstico de nove anos. A revelação Paolo Montero é vendida à Itália sem nenhum título no currículo. Naquele ano, a escalação Oscar Ferro (Gerardo Rabajda), Fernando Rosa, Marcelo Asteggiano (Ramón Castro), Carlos Sánchez (Pedro Pedrucci) e William Castro (Néstor Blanco); Jorge Barrios, Diego Dorta e Danilo Baltierra; Sergio Martínez, Roy Myers (Euler Correa) e Adrián Paz chegou a ser derrotada por 4 a 0 pelo Paysandu, no Mangueirão, em reedição de famoso encontro travado em 1965, cujos remanescentes são o mesmo árbitro (Aírton Vieira de Moraes) e o mesmo técnico aurinegro (Roque Máspoli).

Um folclore inusitado: nos anos 90, o Peñarol foi a Belém jogar contra Paysandu (derrota de 4-0 em 1992) e Remo (vitória de 1-0 em 1996)

Em paralelo, outro time apelidado de Lobo (em um mundo invertido, ele é azul marinho enquanto o rival listrado é apelidado de León) está em erupção. Ou quase isso. Recheado de uruguaios, o Gimnasia La Plata forma a base que em breve conseguirá o maior feito do seu futebol profissional, a conquista da Copa Centenário da AFA, além de uma série de vices no campeonato nacional.

Dentre os uruguaios que naquele 1992 defendiam o Gimnasia, estavam Guillermo Sanguinetti (o futuro recordista de partidas no clube), o volante Gerardo Miranda e o atacante Hugo Guerra, além dos meias José Perdomo e Pablo Bengoechea, sob o comando do treinador Gregorio Pérez, ex-assistente de Oscar Tabárez. Perdomo jogou pouco, mas o suficiente para se imortalizar pela autoria do “gol do terremoto” no clássico com o Estudiantes. Bengoechea também ficou apenas um semestre. Recém-saído do Sevilla, o autor do gol do título da Copa América de 1987 já vinha sendo sondado pelo Peñarol. Era o clube do coração, mas ele preferiu o projeto gimansista à crise financeira aurinegra.

1993

Quando Gregorio Pérez assumiu os carboneros no início de 1993, tratou de pôr Perdomo e Bengoechea na lista de reforços. Bengoechea enfim aceitava dar início a uma história que já tinha seus prólogos. Na estreia, marcou três vezes em um 6 a 0 amistoso contra o Lanús, em 23 de março de 1993. Perdomo, por sua vez, voltava ao time no qual havia vencido aquela dramática Libertadores de 1987. Voltou já como capitão. Outras velhas caras novas eram o beque Nelson Gutiérrez e o atacante Mario Saralegui, por sua vez remanescentes da vitoriosa Libertadores de 1982 (Gutiérrez também venceu o torneio em 1986, pelo River Plate).

Mais um a retornar foi Gabriel Cedrés. Promovido dos juvenis em 1988, vinha de um tempo de molho em 1992 por lesões seguidas, até começando no banco em 1993. Logo tornou-se o goleador do elenco, em dupla com outro reforço, vindo do Defensor: Darío Silva. Em uma pausa de três meses no campeonato, o time decidiu nos pênaltis três torneios internacionais: ganhou do Real Betis a Copa Cidade de Sevilha e do Palmeiras a Copa Parmalat, mas perdeu a Copa Conmebol para o Botafogo. Já na Supercopa da Libertadores, caiu no primeiro mata-mata.

Nelson Gutiérrez e Carlos Aguilera jogaram quatro anos do Quinquenio. E o operário Enrique de los Santos, os cinco

É na fase inicial da Copa Conmebol, quando os titulares ainda estão na Europa, que é promovido um adolescente de 16 anos chamado Antonio Pacheco, o carismático Tony. No futuro, será visto como o último romântico do clube. Um peladeiro refinado, de bom passe, drible e definição, vai se tornar o recordista de presenças no clássico uruguaio, superando em novembro de 2010 os 49 jogos de Morena e… de Bengoechea. E, dos surgidos naquele período, será o único a chegar com o clube a uma final de Libertadores. Mas, tal como na segunda partida daquela final de 2011, ainda não será retirado do banco na campanha uruguaia de 1993.

Em uma disputa renhida com o Defensor, o Peñarol acumula dois pontos a mais e volta a ser campeão. Pesa um 2 a 0 no confronto direto, gols de Bengoechea e Cedrés, ainda em julho. Assim como vitórias nos dois encontros com o Nacional: 1 a 0 e 3 a 1, com Bengoechea marcando nas duas partidas (Darío Silva faz os outros).

O goleiro tricolor vitimado é Jorge Seré, El Superman, herói do Mundial de 1988 vencido pelo rival. E que, quando ainda defendia o Danubio em 1985, também sofreu o primeiro gol da carreira de Bengoechea, então um garoto do interior prestes a desistir de tudo: vivia os primeiros seis meses em Montevidéu sentindo enorme falta da Rivera natal, mas permanecera ao saber que seria titular naquela partida. Para estar naquele clube, o Wanderers de Oscar Tabárez, o meia havia recusado ofertas do “seu” Peñarol (e do San Lorenzo argentino) com direito a jantar com o técnico Roque Máspoli. Que, porém, não oferecia a melhor condição financeira. Já em meados de 1993, Peñarol e Bengoecha dessa vez estavam bem satisfeitos mutuamente. O contrato com o meia, que era inicialmente de seis meses, foi renovado no meio do ano inicialmente para mais dois anos e meio.

1994

Em 1994, o campeonato uruguaio adota o formato Apertura e Clausura, com algumas diferenças ao modelo da vizinha Argentina: cada turno não vale como título, a ser decidido em finais caso sejam vencidos por equipes diferentes. Ou até mesmo em triangular, se uma terceira equipe for a que somar mais pontos na tabela unificada. Cedrés já havia sido vendido ao futebol argentino ainda em 1993. Os grandes reforços são dois jogadores de largos períodos  pelo Nacional nos anos 1980, um dos quais já naquela época declarava-se torcedor carbonero: Carlos Aguilera. Ele já passara pelo Peñarol no fim da década anterior, sem êxito. O outro é Oscar Aguirregaray. Ambos vêm para ficar até pendurarem as chuteiras, respetivamente em 1999 e 2001.

No Apertura, Peñarol e Defensor voltaram a disputar a ponta. Os aurinegros ganharam em campo, os violetas nos tribunais: os manyas sofreram desconto de quatro pontos por incidentes em clássico com o Nacional, a também perder a mesma pontuação. Antes do Clausura, o Peñarol ganhou nova Copa Parmalat, novamente sobre o grande Palmeiras da época, derrotando ainda o Benfica. Já com o torneio doméstico em andamento, o time voltou a cair no primeiro mata-mata da Supercopa, mas venceu sem sustos o Clausura, onde estreou já com um 5 a 1 no Rampla Juniors.

A grande exibição vem contra o Danubio, derrotado por 6 a 1 com dois de Aguilera, um de Bengoechea, um de Martín Rodríguez e dois de Darío Silva, o artilheiro da temporada. São necessárias três finais com o Defensor, após o empate prevalecer nas duas primeiras. E o oponente, onde jogava o jovem Loco Abreu, vencia a terceira até os quinze minutos finais. A virada começou com Baltierra, a marcar aos 35 do segundo tempo, seis minutos após entrar em campo (em seguida, cada time teve um expulso: Diego Dorta para os aurinegros, Héctor Silva Cantera para os violetas); e Darío Silva, aos 43. O elenco também voltou à final da Copa Conmebol, na qual foi derrotado pelo “Expressinho” do São Paulo.

Perdomo e Gonçalves eram alguns remanescentes dos campeões de Libertadores nos anos 80

1995

Foi só em 1995 que o clube voltou à Libertadores. Ser campeão uruguaio não bastava: era necessário se classificar via liguilla (que em 1993 teve Defensor e Nacional acima do Peñarol) e somente em 1994 os aurinegros conseguiram. O time sobreviveu a um grupo com River e Independiente, ambos em ótimo momento doméstico, mas caiu nas oitavas para um embalado Atlético Nacional, que seria finalista. Em paralelo, os aurinegros fizeram um bom Apertura, ainda que com sustos na disputa com o surpreendente Liverpool uruguaio. Bengoechea, cada vez mais afirmado, já vestia a faixa de capitão, que em 1994 havia terminado com Gutiérrez – Perdomo havia pendurado as chuteiras.

Na última rodada, Bengoechea marcou de falta no último minuto contra o River Plate uruguaio, forçando um 1 a 1. Até ali, o título ia ficando com o Liverpool. O lance polemizou, pois foi originado pelo uso da mão do goleiro adversário fora da área. O goleiro também ficou estático na cobrança. Ele era Fernando Álvez, ex-jogador e assumido torcedor carbonero. Bengoechea tirou a camisa na comemoração, recebendo assim o segundo amarelo e consequente expulsão, crente que era o gol do título. Depois lhe esclareceram que o resultado apenas forçaria uma final contra o Liverpool, da qual foi suspenso.

Foi difícil, mas os colegas terminaram ganhando no fim: Tony Pacheco abriu o marcador já aos 28 do segundo tempo e Darío Silva sacramentou nos descontos. Semanas depois, o Uruguai festejava um replay daquela falta de Bengoechea, contra Taffarel na final da Copa América – o meia já teorizou que, por crescer na fronteiriça Rivera em uma época de menor comunicação com o restante do país, seu estilo refinado de jogo absorveu mais a influência brasileira (ele já se disse fã de Falcão e torcedor do Internacional nos anos 1970) do que a característica “garra charrua”. Deixava o apelido de “Baixinho” (em português mesmo) para sedimentar o de El Profesor.

No Clausura, Peñarol e Nacional terminaram igualados e na final o rival levou nos pênaltis após um 2 a 2 (gols de Bengoechea e Luis Romero para os manyas), forçando novas decisões, agora pela temporada. Bengoechea marcou de fora da área o único gol na primeira decisão. A segunda foi vencida pelos tricolores. Mas na terceira o Peñarol se pôs logo com dois gols de vantagem, de Robert Lima aos 23 do primeiro tempo, e de Romero, aos 15 do segundo. Só que estes mesmos jogadores foram expulsos, respectivamente aos 17 do segundo tempo (junto do tricolor Osvaldo Canobbio) e e aos 24. Com nove em campo, os aurinegros sofreram aos 33 um perigoso desconto de Fabián O’Neill. Coube a Bengoechea garantir o tri, aos 43.

Era o fim do ciclo inicial de Gregorio Pérez, contratado pelo exterior e substituído por Jorge Fossati.

1996

Aquele foi um ano complicado: o time voltou a cair nas oitavas da Libertadores, mas levando de 5 a 1 do San Lorenzo em pleno Centenario. Venceu o Apertura (curiosidade: voltou a Belém para entrega mútua de faixas com o campeão paraense, dessa vez vencendo o anfitrião, o Remo, por 1 a 0 no Baenão), mas fracassou retumbantemente no Clausura e caiu cedo na Supercopa para o Santos. Bengoechea, por sua vez, perdia o pai. O Nacional venceu o Clausura, mas nem ele e as agruras impediram o tetra. Na primeira final, o zagueiro Washington Tais (um dos cinco presentes em todo o Quinquenio, junto de Bengoechea, Robert Lima, Enrique de los Santos e Nelson Olveira – “Olveira” mesmo, não “Oliveira”) marcou nos descontos o único gol.

O gol de Tony Pacheco na segunda final de 1996

No segundo, Pacheco abriu o placar aos 9 do segundo tempo, para aos 10 o time ficar com nove em campo: Aguirregaray e Martín Rodríguez foram expulsos junto com o tricolor Santiago Ostolaza. Juan Martín Parodi empatou em seguida, mas Álvaro Recoba e colegas, com um a mais na maior parte do segundo tempo (pois Leonardo Jara foi também expulso, aos 43), não evitaram que o jogo terminasse no 1 a 1 e o título, com os carboneros.

O tetra marcou a despedida do zagueiro Nelson Gutiérrez, transferido ao Defensor para um último ano de carreira. Foi reposto por outras velhas figuras a retornar a Las Acacias, ambos campeões de Libertadores: o veterano goleiro Fernando Álvez (reserva em 1982), dono da mística de uma única derrota em 28 clássicos jogados e que saía de um ostracismo no San Lorenzo argentino; e o defensor Jorge Gonçalves (1987), filho do velho Néstor Gonçalves, o caudilho do timaço dos anos 60 e maior campeão do clube. O técnico Gregorio Pérez era outro a voltar. Dos juvenis, foram promovidos Marcelo Romero e Marcelo Zalayeta.

1997

Cada vez mais dura, a missão em prolongar a sequência de títulos nunca foi tão acidentada como no capítulo final. Justo quando o Peñarol fez sua participação mais honrosa na Libertadores naquele ciclo (caiu quartas e apenas nos pênaltis, para o Racing; na Supercopa, ficou a dois pontos de uma vaga na semifinal, fornecida somente ao líder em chave com Grêmio, Estudiantes e Atlético Nacional), não teve sucesso nos turnos. O campeão do primeiro turno foi o Nacional, com os aurinegros em terceiro. E no segundo turno o vencedor foi o Defensor, um ponto à frente dos carboneros.

Ocorre que, naquele modelo sui generis dos uruguaios para o formato Apertura e Clausura, o Peñarol teve sobrevida. Se vencesse os cinco jogos finais do Clausura, tinha chances de terminar líder da tabela geral a somar os dois turnos, o que forçaria um triangular. Bateu então  Liverpool (4 a 0) e Danubio (2 a 1), mas na antepenúltima rodada encararia o Nacional, em 19 de outubro. Danilo Baltierra, presente nas quatro conquistas anteriores aurinegras, agora defendia o rival e abriu o placar aos 21 minutos. Bengoechea logo empatou. Só que Washington Rodríguez e o veterano Rubén Sosa puseram 3 a 1 em favor dos tricolores. Mas o Peñarol foi ao intervalo demonstrando que não estava morto: um cabeceio de Romero em escanteio cobrado por Aguilera diminuiu.

O empate veio aos 21 do segundo tempo. Gonçalves, homenageando o pai, marcou aproveitando rebote de falta de Bengoechea, comemorando com provocações contra a torcida rival. Dez minutos depois, El Profesor cruzou para Juan Carlos de Lima cabecear e explodir a metade aurinegra do Centenário. O Peñarol revertia  “a la Peñarol” uma desvantagem de três gols. Mas os compromissos seguintes foram igualmente complicados: na penúltima rodada, um novo 4 a 3, sobre o Cerro, com De Lima novamente terminando como talismã do gol da vitória no fim. E o próprio rival ajudava: o Nacional venceu por 1 a 0 o Defensor, que concorria com o Peñarol pela liderança na tabela geral. Autor do gol, Juan Ramón Carrasco, sempre reconhecido pelo estilo superofensivo, custou a ser perdoado pela própria torcida.

De Lima marca o gol da vitória por 4-3 sobre o Nacional, que vencia por 3-1 na reta final de 1997. E pensar que isso seria somente uma prévia…

A derrota inesperada do Defensor no que poderia ser um “jogo de compadres” até permitiu que o Peñarol sonhasse com o título do Clausura, caso os violetas não vencessem o Rampla Juniors. Venceram, por 2 a 1, enquanto os aurinegros conseguiram um magro 1 a 0 sobre o Huracán Buceo. O Defensor foi campeão do Clausura por um ponto e inclusive terminou a tabela geral dos dois turnos na liderança, com 44 pontos. Só que o Peñarol pôde chegar aos mesmos 44 pontos. Estava forçado um triangular entre eles e o Nacional, campeão do Apertura. O Defensor, campeão de um dos turnos e co-líder geral, decidiria o campeonato com o vencedor de uma semifinal entre a dupla principal.

Cinco dias após os festejos dos dez anos daquela que (ainda) é a última Libertadores do clube, o Peñarol reencontrou o Nacional para um novo dérbi de reviravoltas, com a chuva forte reforçando os tons épicos. No fim do primeiro tempo, o astro rival Rubén Sosa acerta uma falta com categoria, onde a bola ainda bate na trave antes de entrar. Mal começa o segundo, e José Luis Salazar amplia aos dois minutos. A resposta foi rápida, com Zalayeta, seis minutos após entrar em campo (para, já no tudo ou nada, substituir um defensor, Serafín García), emendando aos 16 minutos uma falta de Aguilera.

O empate vem na raça: aos 21 minutos, com Romero precisando de duas tentativas para aproveitar ótimo passe de Aguilera – e se lesionando ao marcar. Em seu lugar, entra o talismã De Lima. E seu contorno cinematográfico ocorre pela terceira vez em poucas semanas: é dele, novamente, o gol da vitória, encobrindo na meia lua Álvaro Escames, que entrou para dividir o lance junto com um zagueiro rival. O Peñarol joga os dez minutos finais com um a menos, após a expulsão de Marcelo de Souza, mas mantém o 3 a 2. As finais com o Defensor parecem um detalhe: é após a segunda virada em poucas semanas contra o arquirrival que Bengoechea imortaliza o gesto de abrir os cinco dedos de uma mão enquanto com a outra exibe o número 5 das costas de uma camisa aurinegra: um novo Quinquenio vem chegando!

As finais pareceram mesmo protocolares. Em 9 de novembro, Serafín García marca na entrada da grande área o único gol. No dia 12, Bengoechea, de fora da área, abre o marcador aos 30 minutos. Aos 33 do segundo tempo, Pacheco amplia. E nos descontos, De Souza finaliza o 3 a 0.

De Lima, de novo, vira para 3-2 a derrota de 2-0 para o Nacional, na semifinal de 1997

Após o Quinquenio

O ano de 1998 era para superar o time dos anos 60. Se não na Libertadores, onde o Peñarol (que contava com as voltas dos veteranos Cedrés e José Óscar Herrera, além da contratação da revelação Walter Pandiani) caiu nas quartas, mas com direito a aplicar um 4 a 1 no arquirrival, que fosse pelo hexa.

Mas não deu. O Nacional, reforçado com Hugo de León como treinador, venceu ambos os turnos (somente em 2007 outro time conseguiu isso, o Danubio) e não deu chances. A importância do Quinquenio, por sua vez, não deixa dúvidas ao folhear o livro Héroes de Nacional, onde o autor Gerardo Bassorelli nomeia um capítulo com o título de “Heróis que evitaram o Sexenio”. O troco vem rápido: em 1999, em pleno ano de centenário tricolor, o Peñarol vence um dos turnos e derrota o rival nas finais, conseguindo ao fim da temporada ultrapassar o número de gols da célebre La Máquina de 1949, base do Maracanazo.

Símbolo maior daquele ciclo, Bengoechea foi o recordista de presenças do penta, com 118 jogos e 48 gols. Deixaria o clube pelos fundos em 2003, após dez anos e somente quatro ausências em 57 clássicos travados, 26 dos quais vencidos – um recorde na rivalidade. Ele é também o meio-campo com mais gols no encontro (vinte) e vice-artilheiro geral, atrás somente de Atilio García.

Só que El Profesor virou daqueles jogadores melhor reconhecidos com o passar do tempo. Ao menos foi o protesto do ex-colega Aguirregaray em 1999: “É o jogador mais importante dos últimos 20 anos. Fez os dois gols que deram duas Copas América que o Uruguai ganhou, fez um gol em Mundial, fez os gols que decidiram os Campeonatos Uruguaios. Só por esses detalhes, já deveriam reconhecê-lo. Mas ninguém diz nada”. Vinte anos atrás, ele ainda não tinha um retrato seu na sede aurinegra ao lado dos heróis tradicionais. Assim como seu ícone, o Quinquenio também teve transcendência reforçada com o passar dos anos: desde 1997, jamais o Peñarol voltou a ter sequer dois títulos seguidos no campeonato uruguaio.

Bengoechea x De León em 1998