Os 20 personagens que escreveram a história do Campeonato Brasileiro de 2017

Heróis e vilões, reviravoltas e fracassos, craques e perebas: um campeonato com 380 jogos abriga todos os tipos de personagens. E como o futebol é pródigo em grandes histórias, e elas sempre têm protagonistas, para o bem ou para o mal, o Brasileirão de 2017 pode se orgulhar de ter tido grandes figuras – mesmo sem um nível técnico dos mais excitantes. A seguir, contamos a história no torneio nacional de 20 desses nomes.

Como uma Fênix

Jô, do Corinthians (Photo by Alexandre Schneider/Getty Images)

As conversas que Fábio Carille teve pelo telefone quando descobriu que seria treinador do Jô dizem tudo que precisamos saber a situação da carreira do atacante antes de retornar ao Corinthians. Era tido como um jogador problemático, sem comprometimento, fã da noite e das bebidas alcoólicas. O principal motivo por trás da sua contratação foi a situação financeira precária do clube, que precisava de um atacante e não tinha muito dinheiro. A solução foi colocar suas fichas no que Jô poderia fazer, com a cabeça no lugar. Quase um all in. E, rapaz, como o Corinthians ganhou essa aposta. Recebeu de volta 18 gols no Campeonato Brasileiro, 36% do total do campeão brasileiro. E o homem mais jovem a marcar com a camisa do Corinthians tornou-se também o primeiro artilheiro do Brasileirão que o Timão já teve.

Prazer, Carille, campeão brasileiro

Fábio Carille, do Corinthians (Foto: Getty Images)

Faz sete anos. O Corinthians havia demitido Adilson Batista e estava sendo treinado pelo interino. Como geralmente os profissionais da prancheta só ganham sobrenomes quando tornam-se treinadores principais, todos o conheciam apenas como Fábio. Ao ponto de Andrés Sánchez ser questionado, depois de um jogo contra o Vasco, se o quebra-galho teria autonomia para definir a escalação do time, e responder: “Carille? Não sei quem é Carille”. Mas agora todo mundo sabe quem é Carille. Todos os milhões de torcedores corintianos e todos os outros milhões de torcedores que não são corintianos. Carille é campeão brasileiro, com um grupo que começou o ano desacreditado, e o técnico responsável por conduzir a melhor campanha da história do primeiro turno do Brasileirão por pontos corridos. Isso que é cartão de visitas.

Um milhão de vezes São Paulo

O Morumbi lotado (Foto: Getty Images)

O Campeonato Brasileiro de 2017 talvez tenha sido aquele em que o São Paulo ficou mais próximo de ser rebaixado pela primeira vez. Chegou a ser vice-lanterna, virou o turno na zona de rebaixamento, na qual esteve durante 15 rodadas. E apesar de tudo isso, a torcida sempre esteve ao seu lado, no Morumbi ou no Pacaembu, apoiando, incentivando e lotando as arquibancadas. O clube alcançou a marca de 1.009.059 torcedores na temporada, superando 2006 (1.001.982), quando foi campeão brasileiro. Teve a segunda melhor média de público do Brasileirão, com 35 mil pessoas. De presente, os apaixonados tricolores receberam ingresso a R$ 1 na última rodada e mais uma vez corresponderam: 60.485 pessoas contra o Bahia, segundo maior público do São Paulo no campeonato, celebrando um novo relacionamento entre clube e torcida que nasceu de uma temporada que tinha tudo para não produzir nenhuma boa notícia.

O profeta voltou para salvar a todos

Hernanes comemora gol na sua volta ao São Paulo (Photo by Buda Mendes/Getty Images)

Entre a sucessiva sucessão de sucessões que se sucedem sucessivamente, a sucessão mais importante da temporada do São Paulo foi o retorno de Hernanes. A diretoria tricolor adotou a estratégia de trazer todos os ídolos recentes em que conseguisse pensar, uma produção industrial de escudos políticos, mas não dá para ninguém reclamar dessa. É curioso pensar que esta temporada de Hernanes começou na Juventus. Em fevereiro, mudou residência para a China, mas não conseguiu se firmar no Hebei Fortune. Retornou ao São Paulo. Em 19 partidas, marcou nove gols e deu três assistências, participando diretamente de 12 dos 31 tentos que o time marcou a partir da sua estreia, contra o Botafogo. Se a torcida deu show nas arquibancadas, em campo, o São Paulo tem muito a agradecer a Hernanes por não ter que disputar a segunda divisão em 2018.

Panela velha faz campanha boa

Paulo César Carpegiani, técnico do Bahia (Foto: Getty Images)

Paulo César Carpegiani é um veterano, há três décadas no ofício. Passou três anos descansando e voltou energizado para o Coritiba, ano passado, com a missão de salvá-lo do rebaixamento. Conseguiu, mas não durou muito tempo, demitido em fevereiro. Assinou contrato com o Bahia no começo de outubro e transformou a temporada da equipe que, naquele momento, estava apenas um ponto acima da zona de rebaixamento. Estreou saindo de 0 a 2 para empatar contra o Palmeiras, em São Paulo, venceu o Corinthians e emendou uma sequência com apenas uma derrota em nove rodadas. Esboçou uma briga por vaga na Libertadores, prejudicada por uma queda de rendimento nas últimas duas partidas – derrotas para Sport e Chapecoense e empate com o São Paulo. Mesmo assim, deixou uma ótima impressão.

Abelão guerreiro

Abel Braga, emocionado

Não houve cena mais bonita, infelizmente pelo pior motivo possível, do que a homenagem da torcida do Fluminense a Abel Braga, antes do jogo contra o Atlético Goianiense. Uma semana antes, o filho caçula do treinador tricolor havia morrido. “Guerreiro, guerreiro, Abelão guerreiro”, gritaram as arquibancadas do Maracanã. E guerreiro Abel Braga foi. Apesar da mais profunda dor que um pai pode sentir, seguiu em pé, de cabeça erguida, trabalhando, e salvou o Fluminense do rebaixamento. Se o trabalho foi acima ou abaixo do esperado, não importa neste momento. Abel merece todo o respeito apenas por tê-lo terminado.

Melhor ficar por lá

André, do Sport (Foto: Williams Aguiar/Sport Club do Recife)

Quem sou eu para dar conselhos de carreira para André, mas eu recomendaria que ele pensasse bastante antes de trocar o Sport por outro clube novamente. O atacante estava desgastado no Atlético Mineiro quando chegou ao Recife pela primeira vez. Marcou 13 gols no Brasileirão, uma boa marca para os nosso padrões, e renovou sua imagem. Ganhou chances no Corinthians e no português Sporting. Mas jogou pouco, mal e não fez muitos gols. Retornou à Ilha do Retiro, em fevereiro, e enfileirou 16 gols no campeonato nacional. Apenas Jô e Henrique Dourado (18) fizeram mais. Com ele, o Sport escapou do rebaixamento por um fio. Imagina sem ele?

As virtudes da coragem

Zé Ricardo, técnico do Vasco (Foto: Getty Images)

O retorno do Vasco à primeira divisão do Campeonato Brasileiro foi cheio de acontecimentos. Começo ruim, goleadas, lesão de Luis Fabiano, briga de Milton Mendes com Rodrigo e a eleição da famigerada urna 7 que deixa a identidade do próximo presidente do Vasco ainda oculta. Com todos os problemas, a equipe disputará a Libertadores ano que vem. Claro que, primordialmente, por causa da abundância de vagas, que podem chegar até nove. Mas o sétimo lugar, com o mesmo número de pontos do muito mais rico rival Flamengo, em sexto, é um resultado excelente, de qualquer maneira e para qualquer um, em temporada pós-Série B. Muitos méritos para Zé Ricardo. Ele teve a coragem de aceitar treinar um rival logo depois de ser demitido do Flamengo, em agosto, quando o percurso mais cauteloso talvez fosse aguardar o início da próxima temporada, e fez um ótimo trabalho. Deixou o Vasco muito mais competitivo. Perdeu apenas duas vezes e, em 16 rodadas, conquistou metade dos pontos do clube no Brasileirão.

O melhor batedor de faltas do Brasil

Otero, do Atlético Mineiro (Foto: Getty Images)

Grandes cobradores de falta viraram artigo raro no futebol brasileiro. Tanto que o Atlético Mineiro foi buscar o dele na Venezuela. Rómulo Otero, o Oterinho Carioca, bate na bola, parada ou rolando, como poucos. Seu gol do meio-campo contra o Coritiba ganhou prêmios. Os dois de falta contra o Grêmio, na última rodada, garantiram a chance de se classificar à Libertadores para o Galo. Ele botou oito bolas na rede no Brasileirão, cinco nas três rodadas finais. E três desses foram de falta.

Decisivo até “jogando mal”

Bruno Henrique, do Santos (Foto: Santos FC)

Imagina fazer três gols em uma única partida e ouvir do treinador que você foi “um dos piores em campo”? Levir Culpi talvez tenha sido um pouco rígido demais com Bruno Henrique, depois da vitória por 3 a 0 sobre o Bahia, especialmente depois da bola redondíssima que o atacante jogou neste Brasileirão. Marcou oito gols e, com exceção de um (também contra os baianos na penúltima rodada), todos foram em empates ou vitórias por um tento de diferença do Santos. Decisivo como poucos neste torneio. Além de ter anotado umas pinturas.

Dá o bicho pro goleiro

Vanderlei, do Santos, comemora (Photo by Ricardo Nogueira/Getty Images)

O Santos foi terceiro colocado, mesmo com problemas de bastidores, como a demissão mal explicada de Levir Culpi, e um futebol muitas vezes errático. Uma das explicações, além dos gols de Bruno Henrique, é o campeonato espetacular do goleiro Vanderlei, responsável por milagres em profusão. Vanderlei atuou em 37 rodadas e, com 32 gols sofridos, a retaguarda do Santos foi a segunda menos vazada do Brasileirão. E seus méritos nisso são ressaltados pelo fato de que ele foi o terceiro goleiro que mais precisou trabalhar: 87 defesas. A defesa preferida dele foi nos minutos finais da vitória por 1 a 0 sobre o Coritiba, na segunda rodada. Suas mãos muito seguras bloquearam pênalti de Alecsandro e garantiram os três pontos.

Ceifou muito

Henrique Dourado, camisa 9 do Fluminense (Photo by Alexandre Loureiro/Getty Images)

Os gols de Henrique Dourado foram essenciais para o Palmeiras não ser rebaixado, em 2014, e mais uma vez ajudaram a evitar a tragédia de um grande. O atacante, muitas vezes subestimado por não ter uma relação exatamente carinhosa com a bola, e bastante criticado pela torcida do Fluminense ano passado, foi 18 vezes às redes e dividiu a artilharia do certame com Jô. Seu estilo de bater pênaltis é tão característico quanto eficiente. Assim como o seu rival na tabela de matadores, o Ceifador deu a volta por cima e, curiosamente, foi também responsável por 36% do total de gols da sua equipe no Campeonato Brasileiro.

E não é que despencou?

Renato Gaúcho, técnico do Grêmio

Renato Gaúcho não costuma ser conhecido por medir as palavras que fala. Quando parecia impossível que o Corinthians jogasse bola durante 90 minutos sem derrotar o adversário, o técnico do Grêmio profetizou: “Anote o que estou falando, o Corinthians vai despencar”. E não é que ele estava certo? Mas os tropeços abundantes do Timão na primeira metade do segundo turno não foram suficientes para que o Grêmio, por vezes autor do melhor futebol do Campeonato Brasileiro, brigasse de fato pelo título. E isso tem o dedo de Renato: optou demais por equipes totalmente reservas, cheias de jovens, que alcançavam as letras C ou D do alfabeto. E, mesmo assim, foi o quarto colocado. Como em 2010, 2013 e no ano passado, Renato Gaúcho deixou o Grêmio dentro da zona de classificação para a Libertadores. Não que fosse necessário: o título sul-americano já garantiria vaga na competição do ano que vem.

À frente do milagre

Gilson Kleina, técnico da Chapecoense (Foto: Getty Images)

Gilson Kleina chegou à Chapecoense com a missão clara: escapar do rebaixamento. Não dava para cobrar muito mais de um clube que passou por uma tragédia, menos de um ano antes, e precisou construir um elenco do zero. Kleina havia sido demitido da Ponte Preta, após uma série de trabalhos opacos. Parecia mais uma opção por falta de opção do que por convicção. E comandou o milagre. Estreou contra o Atlético Paranaense, no fim de outubro, nunca foi derrotado e, com quatro vitórias e quatro empates, subiu ao oitavo lugar. Não só evitou a queda, como levou a Chapecoense à Libertadores.

O vinho da calça desbotou

Cuca, do Palmeiras (Foto: Getty Images)

Era um sentimento natural do torcedor pedir o retorno de Cuca, meses depois de ele ter conduzido o Palmeiras ao primeiro título brasileiro em 22 anos. Eduardo Baptista balançava e a diretoria não hesitou. A torcida, animada, foi às lojas comprar a mística calça vinho que o treinador usou durante a campanha campeã. A estreia foi prodigiosa, com uma implacável goleada para cima do Vasco, mas não durou muito. O Palmeiras rapidamente se viu longe do líder Corinthians e o próprio Cuca variava de tom na entrevista, entre a confiança cega e o desânimo de quem precisa se forçar a sair da cama. O empate contra o Bahia por 2 a 2, no Pacaembu, depois de estar vencendo por 2 a 0, foi o estopim da sua saída, e o vinho da calça desbotou.

As voltas que o mundo dá

Vágner Mancini, técnico do Vitória (Foto: Getty Images)

Ninguém entendeu direito quando, no começo de julho, Vágner Mancini foi demitido da Chapecoense. Ele havia recebido o desafio mais difícil do futebol brasileiro em tempos recentes: reconstruir um elenco do zero, depois do acidente de avião na Colômbia. Havia conquistado o Campeonato Catarinense e fora eliminado da Libertadores em um erro administrativo da diretoria. Até chegou à liderança do Brasileirão nas primeiras rodadas, posição mais simbólica que outra coisa. Era de se esperar que essas circunstâncias lhe comprassem alguma paciência, mas o empate por 3 a 3 com o Fluminense, quinto jogo seguido sem vencer, rachou o projeto. Mancini retornou para o Vitória, com a mesma missão de evitar o rebaixamento. E conseguiu, às duras penas. Montou um time forte fora de casa, que ganhou de Flamengo e Corinthians e emendou cinco vitórias seguidas longe do Barradão. Na rodada final, em casa, um pênalti bobo de Uilian Correia, no último segundo contra o Flamengo, convertido por Diego, estava enviando o Vitória à segunda divisão, quando o Coritiba, rival direto pela salvação, levou o segundo gol, perdeu e caiu. Gol marcado pela Chapecoense.

Já foi mais Muralha

Alex Muralha, contra o Santos (Foto: Getty Images)

Muralha começou o Campeonato Brasileiro como titular do Flamengo, mas já estava desgastado com a torcida e os críticos. Falhou contra o Sport e foi barrado por Thiago. Quando chegou Diego Alves, o goleiro imaginava que pelo menos poderia aproveitar a tranquilidade do banco de reservas até o fim do ano e pensar no que faria no futuro – ficar ou não na Gávea? Mas o destino foi cruel com Alex. Diego Alves machucou-se contra o Junior de Barranquilla, Thiago também estava no estaleiro, e Muralha foi reinstaurado. Mas, contra o Santos, falhou mais duas vezes e voltou a sofrer com a enxurrada de críticas da gigante torcida flamenguista. E voltou pro banco.

Os riscos de escalar um encrenqueiro

Rodrigo, da Ponte Preta (Foto: Getty Images)

O experiente zagueiro Rodrigo tornou-se um encrenqueiro de primeira. Neste Campeonato Brasileiro, já havia brigado com o então técnico do Vasco, Milton Mendes. Na penúltima rodada, a sua Ponte Preta derrotava o Vitória por 2 a 0, em confronto direto contra o rebaixamento, e mantinha as possibilidades matemáticas de se livrar da degola. Difícil encontrar na história do esporte um responsável mais claro por uma reviravolta. Rodrigo foi expulso, logo depois do segundo gol, por avanços impróprios contra o colombiano Tréllez. E, ao fim daquele dia, a Ponte estava rebaixada à segunda divisão.

Nota zero para o professor

Vanderlei Luxemburgo, técnico do Sport (Foto: Getty Images)

Vanderlei Luxemburgo tentou reviver a sua carreira e o resultado foi mais ou menos o oposto do que ele pretendia. Começou bem no Sport, brigando por vaga na próxima Libertadores. Mas, entre o começo de agosto até ser demitido, no fim de outubro, ganhou apenas uma partida, contra o Vitória, em 11 rodadas do Brasileirão. Neste ínterim, na goleada do Grêmio por 5 a 0, disse estar envergonhado e destruiu alguns dos seus jogadores na entrevista coletiva. Deve ter pegado muito bem com o elenco. Luxa não aproveitou a oportunidade para se recolocar entre os principais nomes da prancheta no país. Ao contrário, colecionou mais um fracasso.

Reinventar-se é preciso

Marcelo Oliveira (Foto: Getty Images)

Dá para acreditar que Marcelo Oliveira sagrava-se bicampeão brasileiro há três anos? A carreira do treinador apenas despencou desde então. Foi mandado embora do Cruzeiro, fez um trabalho muito ruim no Palmeiras, apesar de conquistar um título nacional, e acabou demitido do Atlético Mineiro entre os jogos de ida e volta da decisão da Copa do Brasil contra o Grêmio. Voltou ao Coritiba, onde tinha uma boa história, em julho. Relativamente aos trabalhos anteriores, a missão era mais simples: só precisava não ser rebaixado. Pegou o time em 13º lugar, a quatro pontos da zona do rebaixamento, e caiu. Teve aproveitamento de apenas 36% dos pontos, inferior ao do seu antecessor Pachequinho. Marcelo Oliveira evidentemente tem qualidades, mas precisa se reciclar.