“Eu é que deveria pagar um clube como o Milan, que me permite participar dos maiores campeonatos do mundo, e não o contrário”. A frase de Gennaro Gattuso, dita em meados da década passada, é emblemática. Demonstra a essência da relação do meio-campista com a camisa que ele tanto honrou. Rino deixou suor, sangue e o que mais fosse a cada partida em que entrou em campo pelos rossoneri. Honrou os anseios dos torcedores por quase 500 partidas. E, a seu modo, marcou o seu nome como um dos jogadores mais lembrados do futebol italiano neste início de século. Afinal, um grande ídolo dentro de campo não se faz apenas com gols ou lances plásticos. Há uma paixão que pode preponderar no gramado, e que se identifica tanto com o que se sente nas arquibancadas. É o que Gattuso oferecia a todo instante. Que o torna tão digno de aplausos, no dia em que completa 40 anos.

Fala a verdade: você não gostaria de ter um Gattuso no seu time? Aquele cara que, faça chuva ou faça sol, se entregará ao máximo durante os 90 minutos? Que colocará toda a sua força em cada dividida, e não temerá qualquer desafio em busca da vitória? Que é puro coração, especialmente nos momentos em que mais se cobra isso? Que vai dar um exemplo de raça aos companheiros e também peitará os adversários que tentarem crescer em cima dele? Foi isso que os milanistas desfrutaram por 13 anos. E que os demais torcedores italianos puderam experimentar em cada um dos 73 jogos de Rino na seleção. Um cara que bota as emoções em campo como se fosse o mais digno representante do torcedor.

Obviamente, a romantização em torno da garra de Gattuso não oculta o jogador que ele foi. Embora seja taxado por muitos como um brucutu, o volante tinha a sua qualidade para fazer o simples. Dar passes, dominar a faixa central do campo, oferecer o combate como fosse. Não fosse assim, não teria brilhado por tanto tempo em um dos melhores times do mundo e nem teria sido tetracampeão mundial. Mas ele mesmo admitia que os lampejos em campo ficavam para os outros com quem jogava. E quase sempre Rino teve bons companheiros a quem endereçar esses enfeites: Seedorf, Shevchenko, Kaká, Rui Costa, Ibrahimovic, Totti, Del Piero… E sobretudo um tal de Andrea Pirlo, com quem o camisa 8 formou uma parceria eterna. Eram como água e vinho, vinagre e azeite. Que, combinados, sabiam funcionar perfeitamente.

“Eu era como Pirlo? Não diga besteira. Não misture Nutella com o chocolate fino. Quando eu via Pirlo jogar, eu me dizia: ‘Posso fazer a mesma coisa que ele? Tenho que mudar de profissão’. Acredite em mim: nos momentos de dificuldade, quando eu tinha a bola, dava para ele: ‘Faça o que quiser’. E, por isso, certamente, ele ajudou minha carreira mais do que eu ajudei a dele”, declarou Gattuso, há cerca de dois meses, diante da notícia da aposentadoria de Pirlo. E apesar da modéstia do veterano, não dá para negar que sua tarefa limpando os trilhos do Milan ou da seleção também contribuiu bastante às conquistas coletivas. Muitos poderiam ter feito aquele trabalho? Talvez. Mas dificilmente com o grau de vontade do camisa 8, que excedia as expectativas justamente por essa vibração.

Também existiram muitos instantes nos quais Gattuso se excedeu. E os principais compilados de “melhores momentos” de sua carreira trazem justamente estas cenas: as brigas, os carrinhos fortes, as discussões. A fama do volante o precedeu em diversas partidas. O que, de certa forma, também contribuiu para que o seu sucesso alcançasse tal patamar. Ajudou a impor um pouco mais de respeito à tremenda devoção que empreendia no gramado. Se os grandes craques sabiam que dava para vencer Gattuso na técnica, eles também tinham consciência de que o volante poderia compensar as distâncias com seu apetite. E coitado de quem estivesse pela frente, caso ele não tirasse essa diferença.

Mas a lista de comemorações efusivas de Gattuso, no fim das contas, acabaram sendo bem maiores que suas explosões de raiva. E isso enfrentando também alguns dos maiores da história. Em seu início no Milan, a noite que o fez cair nas graças da torcida aconteceu justamente num clássico contra a Internazionale, no qual precisou perseguir Ronaldo. Depois, nos anos de sucesso com o Milan, seu maior concorrente era a Juventus com um imparável Nedved. E o maior símbolo de sua missão hercúlea pode ser dado pela final da Copa do Mundo de 2006. Como já tinha acontecido em outras vezes nas quais enfrentou Zidane, não dormiu na véspera. Desejava que o craque francês, de alguma forma, desaprendesse as suas mágicas. Não aconteceu completamente, e Zizou gastou a bola no Estádio Olímpico de Berlim, por mais que Rino tenha se dado bem em alguns combates – ou tenha sido ajudado por seus companheiros em outros. Mas a lembrança que fica é dourada, nas mãos firmes do leão calabrês.

A carreira de Gattuso, por fim, acabou feita desses momentos especiais. Era o coadjuvante, mas tão necessário para que o caminho às glórias fosse pavimentado. Que ajudou a recolocar a Itália no mais altos dos céus, enquanto conquistou tudo aquilo que era possível com o Milan. E que antes disso, despontou no Perugia, virou ‘Coração Valente’ no Rangers, reergueu-se na Salernitana. Embora, quando menino, crescendo na cidadezinha costeira de Corigliano Calabro, bem na “sola da Bota”, só quisesse mesmo ser pescador. Bem, ao menos o Gattuso jogador ajudou o menino Rino a realizar sua fantasia em partes, abrindo uma peixaria em Milão quando já era um medalhão bastante consagrado.

“Até os 13 anos joguei apenas na praia, sem saber cobrar faltas ou dar uma assistência. Ainda assim, me tornei um campeão do mundo”. “Em toda a carreira, encerrei apenas um jogo com a camisa seca. Estava na base do Perugia e, nesse dia, tinha 38 de febre”. “A minha predisposição ao cansaço considero quase como uma doença”. “Os adversários me odeiam porque jogo com fome”. “A Bola de Ouro, para mim, é roubar o maior número de bolas possíveis”, dizia. E o mais importante, era o que se via.

Ao final de sua estrada com o Milan, Gattuso mostrou outra face. Não aquela cheia de dentes, com semblante sanguinário, que diversas vezes se repetiu em campo. Mas sim o rosto repleto de lágrimas que todos sabiam existir, por mais que não se escancarasse em meio à guerra de cada partida. Diante das homenagens dos torcedores ao seu adeus e de outros ídolos que se foram do San Siro naquele ano de 2012, Rino se desmanchou em lágrimas. Continuava, ainda mais, como um dos mais dignos a vestir a camisa rossonera. Um dos mais dedicados. Aquele feito inteiro coração e paixão, tifoso como os milhares ao seu redor.

Enfim, nesta terça, Gattuso chega aos 40 anos em um novo rumo. Um mar grandioso no qual parece navegante solitário, de rotas um tanto quanto obscuras, buscando o grande peixe que conquiste o respeito dos outros no ofício como técnico. E se está em tal posição, com a chance de retornar ao Milan, isso foi conquistado pela história que escreveu de chuteiras enlameadas e camisa empapada. Se Rino vai ser um grande técnico ou não, é difícil dizer, embora não existam dúvidas de que os rossoneri têm à beira do campo um grande personagem. Uma figura que adoram e que, apesar dos resultados errantes, seguem cultuando. O Gattuso que merece ser festejado ao completar quatro décadas de vida é justamente esse. Aquele que, independentemente do que o rodeia, permanece fiel à sua essência incendiária. O cara que virava uma fogueira bem no meio do campo, de labaredas ardentes a cada lance em que se aproximava da bola.