Il Muro. O apelido dado a Walter Samuel diz muito sobre a sua carreira. A referência é clara, exaltando o defensor que crescia para cima dos atacantes, que tornava-se intransponível tantas vezes. Poderia corresponder também a sua dureza em campo, zagueiro firme e de muita bravura. Além de toda a força física, tinha qualidade técnica nos recursos defensivos, principalmente pelo apurado senso de posicionamento e pela capacidade no jogo aéreo. Ainda assim, preferia sempre optar pelo simples. E o trabalho árduo desempenhado pelo beque teve seu prêmio. Foi amado por diferentes torcidas, sobretudo na Argentina e na Itália. Gigante que completa 40 anos nesta sexta.

Nascido na província de Córdoba, Samuel despontou com a camisa do Newell’s Old Boys. Por lá fez sua estreia na elite do Campeonato Argentino, embora não tenha ficado tanto tempo nos leprosos. O ano de 1997 foi decisivo para que o novato deslanchasse. Ganhou o Mundial Sub-20 com a seleção argentina (em timaço que ainda contava com Riquelme, Aimar, Cambiasso) e também assinou contrato com o Boca Juniors. Na Bombonera, desfrutaria de algumas das maiores glórias de sua carreira. Era peça-chave na defesa da equipe de Carlos Bianchi, mesmo tão jovem. Além de conquistar dois títulos do Campeonato Argentino, também celebrou a Libertadores de 2000. Sucesso evidente, com apenas 22 anos de idade.

Naquele momento, Samuel já tinha se firmado na seleção argentina. Convocado pela primeira vez em fevereiro de 1999, virou homem de confiança no bom trabalho de Marcelo Bielsa. Participou da campanha arrasadora nas Eliminatórias para a Copa de 2002. E, logo depois de faturar a Libertadores, fez as malas para a Europa. Tornaria-se reforço da ótima Roma. Já no primeiro ano de Serie A, alimentou sua fama como um dos melhores zagueiros do país, atuando como líbero em uma linha que ainda contava com Aldair, Antônio Carlos e Zebina. Seria titularíssimo na conquista do Scudetto em 2001.

Temporada após temporada, Samuel provava o seu valor na Roma. O momento só não foi acompanhado na seleção. O zagueiro participou do fiasco da Albiceleste na Copa do Mundo de 2002, titular em todos os três jogos da fase de grupos. Ainda assim, seu moral se mantinha alto por tudo o que jogava no Estádio Olímpico. Virou uma das certezas dos giallorossi, por mais que as taças não tenham se repetido nos anos seguintes. Desta maneira, atraiu o interesse do Real Madrid, que o transformou em galáctico durante a temporada 2004/05. Passou apenas um ano no Bernabéu, sem causar o impacto que se esperava, logo negociado.

Samuel, todavia, não pode dizer que a sua passagem pela Espanha não foi oportuna. Afinal, nestes descaminhos da vida, ele seguiu à Internazionale. Desvalorizado, provou seu brio dentro de campo. E viveu os maiores sucessos da carreira com a camisa nerazzurra. O começo de sua passagem pelo San Siro foi incontestável, apontado entre os melhores zagueiros da Europa. O problema viria na sequência, quando as seguidas lesões custaram um bom número de jogos. Havia dúvidas se o veterano poderia seguir em alto nível. E a resposta veio da melhor maneira possível, em 2009/10. O beque liderou o sistema defensivo interista rumo à tríplice coroa. Esteio no time de José Mourinho, acabou apontado como o melhor defensor da Serie A, além de erguer a Liga dos Campeões. Ápice merecido que o levou à segunda Copa do Mundo, em 2010.

Ainda precisando lidar com as questões físicas, Samuel permaneceu por mais quatro temporadas na Internazionale. Deixou o clube apenas em 2014, aos 36 anos, como um dos melhores zagueiros da história do clube. Participou da emotiva despedida que ainda significou o fim de ciclo para Diego Milito, Zanetti e Cambiasso. E quem pensava que sua carreira havia acabado se enganou mais uma vez. Foram outros dois anos no Basel, erguendo duas vezes o título nacional e fazendo boas campanhas nas copas europeias. Só em 2016 chegou a hora de parar, aclamadíssimo por tudo o que conseguiu.

Para quem gosta do futebol além da plasticidade, é possível admirar bastante Samuel. Era um zagueiro-zagueiro, e dos melhores desta estirpe. Seu currículo fala por si, com 55 jogos pela seleção e 21 títulos conquistados. É possível até questionar se sua trajetória não merecia ser maior pela seleção argentina ou pelo Real Madrid. Mas o fato é que o ápice compartilhado em Boca Juniors, Roma e Internazionale não deixa o beque dever nada. É suficiente para que seu nome continue aclamado por muito tempo.