A Copa do Mundo de 1998 ocupa um lugar especial na memória afetiva de muita gente não apenas por mera questão de saudosismo. Foi, de fato, um Mundial bem legal de se acompanhar. Apresentou bom nível técnico, estava repleto de timaços, contou com vários grandes jogos. E serviu de consagração para alguns craques. Entre estes, um centroavante que talvez não fosse lembrado como realmente merecia sem aquela jornada pelos estádios franceses: Davor Suker, o artilheiro da competição, com seis gols anotados em sete partidas. Um dos melhores definidores do futebol europeu nos anos 1990, o croata atravessou bons momentos em sua carreira por clubes, especialmente na antiga Iugoslávia e na Espanha. De qualquer maneira, seu auge aconteceu vestindo a camisa quadriculada da seleção croata. Em tempos nos quais todo o país carregava as chagas da guerra, o goleador foi o principal responsável por elevar o orgulho da nação recém-forjada.

A própria eclosão de Suker como profissional conta com um empurrãozinho do acaso. Nascido em Osijek, uma pequena cidade do interior da Iugoslávia, o atacante começou sua carreira por lá mesmo. Profissionalizou em 1984, aos 16 anos, e marcava os seus gols pelo clube acostumado a figurar no meio da tabela do Campeonato Iugoslavo. Em 1987, porém, veio a grande chance de sua carreira. E o garoto começou muito bem a sua trajetória internacional. Sem tanto interesse no Mundial Sub-20 disputado no Chile, os iugoslavos não contaram com os seus principais jogadores e apostaram em coadjuvantes. Suker, que não atraía tanto os holofotes, entrou na barca. Pois ele desabrocharia na competição da Fifa, como um dos protagonistas na célebre equipe dirigida por Mirko Jozic. Compondo a linha de frente com Predrag Mijatovic e Robert Prosinecki, o goleador anotou seis gols na competição. Arrebentou na fase de grupos e também assinalou o tento que levou a Iugoslávia à final. Acabou com a taça nas mãos, assim como a Chuteira de Prata por ter sido o vice-artilheiro.

O sucesso no Mundial Sub-20 foi a chave para a carreira de Suker deslanchar. Permaneceu mais duas temporadas no Osijek, terminando no topo da artilharia do Campeonato Iugoslavo em 1988/89. Logo depois, transferiu-se ao poderoso Dinamo Zagreb, uma das maiores potências locais. Enquanto isso, também ganhava moral na seleção. Disputou os Jogos Olímpicos de 1988 e arrebentou no Campeonato Europeu Sub-21 de 1990 – em uma equipe tão forte quanto aquela de 1987. O centroavante carregou a Iugoslávia ao longo das diferentes fases e somou seis gols. Terminou com a Chuteira de Ouro do torneio e também com a Bola de Ouro de melhor jogador, apesar da derrota na decisão contra a União Soviética. Além disso, integrou o elenco iugoslavo na Copa do Mundo de 1990, embora não tenha entrado em campo ao longo da competição.

Eram tempos bastante difíceis na Iugoslávia. E Suker estava em campo no jogo que, para muitos, serve de marco na dissolução do país a partir da década de 1990. Ainda que o pivô do imbróglio tenha sido o companheiro Zvonimir Boban, ele era titular do Dinamo no emblemático jogo contra o Estrela Vermelha que terminou em briga generalizada, em maio de 1990. Diante do clima bélico que imperava no país, o camisa 9 permaneceu no Estádio Maksimir por apenas mais um ano. Foi vice-artilheiro em 1990/91, a última edição do Campeonato Iugoslavo que contou com a participação de crotas e eslovenos. Depois disso, transferiu-se ao Sevilla.

A estreia de Suker pela incipiente seleção croata aconteceu em dezembro de 1990, em amistoso extraoficial contra a Romênia. Ainda assim, no ano seguinte, faria as suas duas únicas partidas pelo time principal da Iugoslávia. Inclusive, anotou um gol na campanha pelas eliminatórias da Eurocopa. De qualquer maneira, a partir de 1992 as aparições do centroavante pela Croácia se tornaram constantes. Acabou se colocando como uma liderança natural, em tempos nos quais a nação construía a sua identidade. Logo em sua segunda aparição com a camisa quadriculada, marcou dois gols na vitória sobre o México.

Neste momento, a seleção croata ainda estava limitada aos amistosos. Serviam para Suker alimentar sua fama entre os compatriotas, especialmente ao ratificar uma vitória sobre a Espanha às vésperas da Copa do Mundo de 1994. Os espanhóis, por sua vez, conheciam os predicados do atacante. Logo em sua primeira partida como titular pelo Sevilla, anotou dois gols. Encaixou-se paulatinamente na Andaluzia. Já em 1993/94, figurava entre os maiores goleadores da Liga, mesmo defendendo um clube sem tantas pretensões. Naquela campanha, os rojiblancos ficaram a um ponto da classificação à Copa da Uefa. Suker foi o vice-artilheiro do campeonato, com 24 gols, atrás apenas de Romário. Era chamado de ‘Sukerman’, um trocadilho com o Superman. Balançava as redes de tudo quanto é jeito, por sua facilidade extrema em bater na bola – com destaque para as cobranças de falta e os chutes colocados.

A fome de gols de Suker não foi tão grande nas duas temporadas seguintes, com 17 gols em 1994/95 e 16 em 1995/96. Ainda assim, sua importância ao Sevilla era notável, ajudando os andaluzes a retornarem às competições continentais após cinco anos de ausência. E a reputação do centroavante se ampliava na seleção da Croácia. As eliminatórias da Euro 1996 foi a primeira competição oficial do país. Pois os novatos nadaram de braçada, conquistando a classificação em um grupo que também contava com Itália, Lituânia, Ucrânia, Eslovênia e Estônia. Suker terminou como o artilheiro do qualificatório, somando 12 tentos em apenas 10 rodadas. Deixou sua marca nos dois jogos contra os italianos, além de comandar a goleada sobre os ucranianos.

A fase final da Euro 1996 serviu para sublinhar o lugar de Suker entre os atacantes mais letais do mundo. A Croácia estava em um grupo equilibrado, contra Turquia, Portugal e Dinamarca. No primeiro jogo, o triunfo sobre os turcos abriu o caminho aos croatas. Já a classificação se consumou logo na segunda rodada, com um toque da genialidade do artilheiro. Após inaugurar o placar cobrando pênalti e ver Boban ampliar a diferença, o centroavante fechou a conta diante da Dinamarca com um dos gols mais bonitos da história da Eurocopa. Após lançamento longo, ele percebeu Peter Schmeichel adiantado e deu um desmoralizante chute por cobertura. Os escandinavos, campeões em 1992, sequer passariam de fase. Já nas quartas de final, o camisa 9 anotou mais um, mas não evitou a eliminação contra a Alemanha, que acabaria com a taça.

Meses antes da Eurocopa, Suker já tinha acertado sua transferência ao Real Madrid. E chegou valorizado a Chamartín, concentrando os holofotes para assumir o comando do ataque. Sob as ordens de Fabio Capello, o centroavante atravessou sua melhor fase com os merengues. Esteve em campo em todas as 38 rodadas de La Liga e anotou 24 gols, terceiro na lista de artilheiros. Porém, mais importante, ajudou os blancos a conquistarem a taça. Ao lado de Raúl e do velho amigo Mijatovic, formava uma trinca de bastante respeito.

Naquele momento, no entanto, surgiam alguns questionamentos quanto a Suker em Madri. Criticavam a sua parca mobilidade e a falta de empenho sem a bola. Quando a má fase começou na temporada seguinte, o centroavante passou a frequentar o banco mais vezes, treinado por Jupp Heynckes. Seus números caíram no Espanhol, com apenas 10 tentos anotados. Reserva durante a maior parte do ano, ao menos conquistou a Liga dos Campeões em 1998. Entrou no último minuto da final contra a Juventus, para que Mijatovic recebesse os aplausos após anotar o gol que encerrou o jejum merengue de 32 anos na competição continental.

Mas o melhor ainda estava guardado a Suker. O centroavante já tinha sido decisivo na classificação da Croácia à sua primeira Copa do Mundo. Somou cinco gols em dez partidas pelas Eliminatórias, nas quais os croatas acabaram a fase de grupos abaixo da Dinamarca, mas selaram a classificação na repescagem, contra a Ucrânia. E se o camisa 9 parecia não se encaixar no Real Madrid, em sua equipe nacional ele era o vértice, assumindo a responsabilidade. Diante da lesão de Alen Boksic e das oscilações de Robert Prosinecki, o fardo nas costas do veterano aumentava. Ele brilhou, desfrutando do maior momento de sua carreira.

O poder de fogo de Suker valeu demais à Croácia desde a fase de grupos. O centroavante fechou a vitória sobre a Jamaica e abriu contra o Japão, assegurando a classificação antecipada aos mata-matas. Nas oitavas, converteu o pênalti que eliminou a Romênia. Contra a Alemanha, nas quartas, encerrou a contagem com uma jogadaça na surpreendente vitória por 3 a 0, a mais significativa na campanha dos croatas. Já na semifinal contra a França, até deixou seu time em vantagem, em lance de definição rápida, antes que Lilian Thuram virasse aos Bleus. Por fim, garantiu os croatas no pódio ao dar a vitória sobre a Holanda na decisão do terceiro lugar, com belo tiro cruzado. A Chuteira de Ouro do Mundial, graças aos seis gols assinalados, era sua passagem à história. O protagonismo na seleção, por sua vez, colocou seu nome no livro de ouro de seu país.

Ironicamente, o Mundial de 1998 marcou também o início do ocaso de Suker. Nem a artilharia do torneio, a segunda colocação na Bola de Ouro ou a terceira no prêmio de melhor do mundo da Fifa salvou a sua pele no Real Madrid. Seu moral caiu ainda mais com o novo técnico, o galês John Toshack. Reserva, o centroavante de 31 anos teve o seu contrato rescindido em maio de 1999, após seguidos episódios de indisciplina. Transferiu-se ao Arsenal, esquentando o banco durante a maior parte de sua estadia em Highbury, apesar de ser lembrado por suas pinturas. Mesmo na seleção croata as coisas não iam tão bem. Durante as eliminatórias da Euro 2000, o veterano amargou a queda para a Iugoslávia durante a última rodada. O empate por 2 a 2 era insuficiente à Croácia, e seu gol anulado já nos minutos finais acabou simbolizando a frustração de seus compatriotas.

Vice-campeão da Copa da Uefa com o Arsenal, carimbando a trave de Taffarel na disputa por pênaltis contra o Galatasaray, Suker ainda teve uma temporada apagada com o West Ham. Por fim, viveu os seus dois últimos anos de carreira vestindo a camisa do Munique 1860, sem causar impacto na Bundesliga. Os problemas físicos já eram um claro empecilho aos artilheiro, presente na Copa do Mundo de 2002, mas titular apenas na estreia contra o México. Aposentou-se em 2003, aos 35 anos. Segue com a honra de ser o maior artilheiro da história da seleção croata, autor de significativos 45 gols em 69 partidas – uma marca que dificilmente será batida nos próximos anos, com Mario Mandzukic a 15 tentos do veterano.

Incluído em diversas listas de melhores do Século XX, Suker seguiu ligado ao futebol após a aposentadoria. E de uma maneira um tanto quanto controversa, considerando sua turbulenta gestão à frente da federação croata. Apesar disso, sua imagem como um artilheiro de enorme presença de área e capacidade refinada nas finalizações é inquebrantável. É a memória que prevalece, especialmente entre aqueles que se lembram da magia da Copa de 1998. O camisa 9 croata faz parte dessas lembranças e merece os aplausos na semana em que completa 50 anos.