Já houvera dois Ronaldos antes, na história do Corinthians – um primeiro goleiro, entre 1964 e 1965, e o outro, lateral direito, membro do grupo brasileiro que chegou à medalha de prata no torneio olímpico de futebol, em 1984. E haveria um Ronaldo depois – claro, aqui se fala de Ronaldo Luiz Nazário de Lima, que pode até ter potencializado a fama do Alvinegro mais fora de campo, mas provou a habilidade e teve utilidade nos títulos conquistados em 2009. No entanto, por mais que o “camisa 9” tenha simbolizado um ano na trajetória do clube do Parque São Jorge, é possível dizer que o aniversariante deste 20 de novembro marcou a torcida por mais tempo – uma década, para ser exato, entre 1988 e 1998. Então, nada mais justo do que reconhecer a importância de Ronaldo Soares Giovanelli, 50 anos, para os corintianos.

Até porque, se os outros dois Ronaldos tinham uma carreira antes de chegarem ao Parque São Jorge (principalmente o segundo), Ronaldo era quase sinônimo de Corinthians desde a base: nascido e criado na Zona Leste paulistana, o goleiro teve a trajetória com que todo garoto fanático pelo clube sonhou. Em 1979, foi aprovado numa peneira no velho “Terrão”, o antigo campo de terra batida onde vários luminares corintianos cruzaram seus passos com o clube. Foi participando dos times de base, subindo pouco a pouco. Destacava-se a ponto de marcar presença nas seleções brasileiras de base – foi o goleiro titular da Seleção Brasileira no Mundial Sub-20 de 1987. No mesmo ano, foi promovido ao time principal, ainda como reserva dos experientes Carlos e Valdir Peres. Ambos pareciam inquestionáveis – quando nada, porque se tratavam dos dois goleiros titulares do Brasil nas duas Copas do Mundo anteriores. Mas aí a sorte deu um empurrão para ajudar o novato.

No começo de 1988, Valdir Peres rumou para a Portuguesa, e Ronaldo se transformava no reserva imediato de Carlos. Em treinos, o arqueiro titular teve um corte na mão, e o caminho se abria para o garoto de 20 anos enfim ganhar uma chance. Que poderia fazê-lo decolar de vez ou atrapalhar quase irreversivelmente o caminho: afinal, Ronaldo estrearia justamente num clássico, contra o São Paulo, na primeira rodada do estadual, em 28 de fevereiro de 1988. A primeira hipótese se sobressaiu. Antes do Corinthians sacramentar a vitória por 2 a 1, o goleiro estreante fez ótima defesa; e já após o 2 a 1, foi marcado um pênalti. Na cobrança, um estandarte são-paulino: Darío Pereyra, onze anos de clube, entronizado como um símbolo na zaga. Pois bem: o zagueiro uruguaio bateu, e Ronaldo desviou a bola do penal com as pernas, por cima da trave. A vitória estava assegurada – e começava ali uma longa história de amor.

Carlos voltou a ser titular, e até jogou boa parte do Campeonato Paulista. Mas nas fases finais, novamente se machucou – e quando se recuperou, nem entrou mais em campo, sendo vendido ao Malatyaspor, da Turquia. Ronaldo tomava a pequena área e a camisa 1 corintiana para não mais largar pelos dez anos seguintes. Conquistar o título estadual serviu como a aliança que transformava aquele noivado em casamento. Não só dele com o time, mas também com a torcida, que ganhava carinho por aquele jovem irrequieto da Zona Leste. As atuações razoáveis nos Campeonatos Brasileiros de 1988 e 1989 firmaram-no definitivamente debaixo das três traves, e lhe deram autoconfiança suficiente até para interferir no uniforme – ao invés do 1 normal, vinha o numeral romano, que motivou de alguns corintianos o apelido de “Ronaldo I, o imperador do gol do Parque São Jorge”.

E se faltasse ainda alguma prova da capacidade de Ronaldo, o título brasileiro de 1990 serviu para isso. Não só pela conquista em si, enfim aumentando um pouco os horizontes ainda estreitos do Corinthians em títulos. Mas também pelo nível regular exibido pelo goleiro na maioria dos jogos – suficiente até para fazê-lo ganhar prêmios como o melhor do Campeonato Brasileiro. Além do mais, o gênio irascível e a postura de “deixar a vida em campo” pelo clube por que torcia aproximaram-no justamente do grande símbolo daquela campanha: Neto, que virou (e até hoje é) parceiro de Ronaldo dentro e fora de campo.

Talvez não coincidentemente, esse mesmo gênio começou a atrapalhar os caminhos de Ronaldo: algumas vezes, os cartões amarelos e vermelhos recebidos o tiravam de alguns jogos (como na derrota por 3 a 1 para o Goiás, pelo Brasileiro de 1990, na qual foi substituído por Wilson Coimbra, o “Wilson Macarrão”, seu reserva por alguns anos). Mas também não deve ser coincidência que sua regularidade, sua elasticidade e sua explosão o tornavam um goleiro merecedor de atenção naquele começo de década. Nunca a Seleção Brasileira pareceu tão próxima: naquele período, Ronaldo frequentou habitualmente as convocações feitas por Paulo Roberto Falcão, e até foi o terceiro goleiro convocado para a Copa América de 1991.

Mas o tempo passou. A impulsividade no temperamento o atrapalhava. Outros goleiros mais serenos e confiáveis tomavam a frente nas convocações para a Seleção, como Zetti. Aliás, os títulos de São Paulo e Palmeiras naquela primeira metade de década de 1990 naturalmente faziam com que os arqueiros são-paulinos e palestrinos fossem mais visados como opções. Talvez comprovando as palavras humildes do próprio Ronaldo, já após o fim da carreira: “Eu nunca fui um grande goleiro, o que tive foi um grande treinador de goleiros, o Aguinaldo Moreira, que soube extrair o melhor do meu potencial”. E pela Seleção, só houve uma partida oficial: um amistoso em novembro de 1993, contra a Alemanha (derrota por 2 a 1).

Tudo bem. Para Ronaldo, vestir a 1 corintiana parecia bastar. Em momentos melhores ou piores, ele se convertia cada vez mais num símbolo do clube. Os reservas passavam: Dagoberto, Wilson, Hugo, Ricardo Pinto, Nei, Maurício… mas nenhum conseguia desafiar sua titularidade, muito menos seu status de ídolo. Mesmo atos prejudiciais, como a expulsão na decisão do Campeonato Paulista de 1993, passavam incólumes para a torcida corintiana. E Ronaldo compensava dentro de campo. Como na irregular campanha do Campeonato Brasileiro de 1994, quando foi um dos únicos pontos firmes no time corintiano que chegou à final (sua performance no 0 a 0 do jogo de volta contra o Bragantino, nas quartas de final, foi estratosférica, praticamente assegurando outro título de melhor do torneio). Ou, finalmente, na conquista dos títulos em 1995 – tanto no Paulista quanto na Copa do Brasil.

Seguro de sua idolatria e da importância que tinha no Corinthians, Ronaldo se dava até o luxo de ousar em outras áreas. Como a incursão pelo rock, do qual sempre foi fã: em 1996, os amigos da banda Carlinhos Ninja & os Kickboxers aceitaram convertê-lo em vocalista, convertendo a própria banda em Ronaldo e os Impedidos – cuja “O nome dela” sempre haverá de ser lembrada quando o assunto são pitorescas experiências musicais de futebolistas brasileiros.

Em 1997, Ronaldo teve outra boa experiência, com mais uma atuação para ser lembrada na partida que decidiu o título paulista (foram pelo menos duas defesas espetaculares no 1 a 1 contra o São Paulo). Todavia, o tempo já começava a passar. Seleção Brasileira já nem era opção – o ex-goleiro Raul Plassmann desdenhava das possibilidades de convocação no mesmo ano: “Ele tem temperamento de roqueiro, não de goleiro”. Por algum tempo, no Campeonato Brasileiro, o reserva Nei chegou até a ter uma sequência grande de jogos. E a má campanha naquele ano, com a salvação do rebaixamento vindo só nas duas rodadas finais, não ajudou muito. Para completar, veio a demissão do citado Aguinaldo Moreira, o treinador de goleiros que moldou e forjou a ascensão de Ronaldo.

Finalmente, em 1998, Vanderlei Luxemburgo chegou ao Parque São Jorge com algumas missões. Uma delas, nem tão velada assim, era sacudir o ambiente, livrando-se de alguns nomes sagrados dos anos anteriores. Deixaram o clube Neto, o zagueiro Henrique… e Ronaldo estava na mira. Jogou apenas três partidas, todas pelo Torneio Rio-São Paulo: uma derrota para o Botafogo, outra para o Palmeiras, e os 45 minutos iniciais contra o Vasco, em 29 de janeiro de 1998. No intervalo, com suspeita de lesão na mão, foi substituído por Maurício. Não se sabia, mas era a última de suas partidas com o “I” romano nas costas. Dias depois, em meio a uma tentativa de ainda renovar o contrato, foi afastado do grupo por Luxemburgo. Treinou separado por alguns meses, até deixar definitivamente o Corinthians, em abril, aos 30 anos, com 602 jogos e 571 gols sofridos, simplesmente o terceiro jogador com mais partidas na história do clube (até hoje).

A trajetória seguiu. Ronaldo foi para o Fluminense, na dura trajetória que o clube carioca faria na Série B, encerrada com o rebaixamento. Não deu muito certo, e ainda era difícil esquecer o fim abrupto de um caso de amor tão longo – naquela época, o goleiro costumava interromper perguntas sobre o clube em que fizera morada com um abrupto e lacônico “sobre o Corinthians eu não falo”. Em 1999, duas passagens: uma por Inter de Limeira, outra pelo Cruzeiro. Nesta, fez mais fama o grito da torcida (“Ô Ronaldo, Ronaldo metaleiro/Vê se fecha o gol pra torcida do Cruzeiro”) do que o nível de suas atuações.

A fase final de sua carreira foi cheia de estadias fugazes. Em 2000, a Portuguesa – até levou 5 a 2 do seu eterno Corinthians, ao enfrentá-lo no Paulista daquele ano. Entre 2001 e 2003, o Gama; ainda em 2003, a Ponte Preta; do clube campineiro, para o ABC potiguar, onde ficou até 2004; no mesmo ano, a ida para o Metropolitano-SC; e o ponto final, a Portuguesa Santista, onde esteve entre 2005 e 2006.

Àquela altura, as mágoas com o Corinthians já haviam passado – até graças a conversas com o velho amigo Neto, que o fizera ver que “os culpados eram os dirigentes e os treinadores, não o clube”. O amor voltou a ser demonstrado publicamente, junto da nova aparência vitimada pela alopécia areata que tirou todos os fios, do cabelo e do cavanhaque. Ronaldo achou tribunas na Rede TV! e, atualmente, na TV Bandeirantes – além da Rádio Transamérica. Esporadicamente, voltou a defender o clube, nos torneios amistosos de showbol ou nas partidas da equipe corintiana de masters. E assim, segue justificando o fato da torcida manter, quase 20 anos depois de sua saída do clube, o orgulho de poder lembrar que, para cada “Zééééétti” dos são-paulinos que celebravam a carrada de títulos do início dos anos 1990, para cada “Velloooooooso” eufórico dos palmeirenses que voltavam aos tempos áureos, para cada sucessor que fez fama no gol corintiano – seja Dida, Fábio Costa, Felipe ou Cássio -, sempre será um símbolo do Corinthians dos anos 1990 o dramático “Ronaaaaaaaldo”.