Texto publicado originalmente no site It’s A Goal

Há exatos 50 anos, bem no meio de uma das melhores fases de seu grande rival, o Manchester City resgatava sua grandeza superando o Manchester United na última rodada e levantando o segundo título inglês de sua história. A conquista coroava uma dupla de treinadores carismáticos, que reuniu um elenco de grandes jogadores eternizados nos corações e mentes não só do lado azul de Manchester, mas do futebol inglês como um todo. Aquela equipe partiu de uma experiência recente na segunda divisão para enfileirar conquistas e se tornar uma doce memória de um futebol técnico, elegante e ofensivo.

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Mesmo antes de vivenciar o período que seria o mais vitorioso de sua história até tempos recentes, o Manchester City já contava com uma certa tradição no futebol inglês. No período entre guerras, chegou a ser o time mais expressivo da cidade de Manchester e um dos mais consistentes do país – ficou cinco vezes entre os cinco primeiros na liga (incluindo um título em 1938 e um vice em 1921) e chegou três vezes à final da FA Cup, levantando sua segunda taça em 1934 (já havia vencido o torneio trinta anos antes).

No entanto, o insólito rebaixamento sofrido um ano após a conquista da liga e às portas da Segunda Guerra Mundial se mostraria definidor de destinos: na mesma temporada, o rival Manchester United retornaria à elite. E mesmo tendo de arcar com a reforma de seu estádio de Old Trafford, bombardeado durante o conflito, os Red Devils voltariam bem mais fortes após seu término, sob o comando de Matt Busby, ironicamente um ex-jogador de dois de seus maiores rivais, Liverpool e o próprio City.

Os comandantes da Era de Ouro

Ao chegar a Maine Road, em julho de 1965, o técnico Joe Mercer encontrou o City indo para sua terceira temporada consecutiva na segunda divisão. Ao contrário do rival, que se tornara uma das grandes potências do país, o retrospecto do lado azul de Manchester após a Segunda Guerra era bem modesto. Em 15 temporadas na elite, da volta dos campeonatos até ali, ficara apenas quatro vezes acima do décimo posto (a melhor campanha havia sido um quarto lugar em 1956, ano em que o United fora o campeão).

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Foi para resgatar o clube desse processo de encolhimento e recolocá-lo entre as forças do futebol inglês que o clube persuadiu Mercer (um ex-jogador de Everton e Arsenal) a deixar de lado sua aposentadoria, após ter enfrentado problemas de saúde e se decepcionado com os dirigentes do Aston Villa, sua equipe anterior. Aceitando o convite, o treinador decidiu recrutar um auxiliar: um ambicioso ex-jogador do West Ham e então técnico do Plymouth Argyle chamado Malcolm Allison.

O time rapidamente engrenou e conquistou o título da segunda divisão na primeira temporada dos novos comandantes. Já na campanha seguinte, um modesto 15º lugar na elite serviu ao menos para aclimatar os jogadores às novas disputas. Sabendo da qualidade do que tinham em mãos, Mercer e Allison optaram por não fazer contratações na pré-temporada. Mesmo a saída do norte-irlandês Johnny Crossan (ponta-esquerda e capitão do time) para o Middlesbrough foi suprida com um nome que já havia chegado em março daquele ano: Tony Coleman, vindo do Doncaster Rovers.

Somente com a temporada já em andamento que dois reforços para o time titular foram trazidos. Um por necessidade extrema: o goleiro Ken Mulhearn veio do Stockport para o lugar do lesionado Harry Dowd. O outro, Francis Lee, um atacante inteligente, muito habilidoso e considerado pelos adversários como malandro e cavador (especialmente de pênaltis), veio do Bolton, da segunda divisão, após um longo período de observação por parte da comissão técnica do City.

Um elenco de muitos talentos

O restante do time titular já estava no City na temporada de retorno à elite e contava com quatro nomes formados no próprio clube. Um deles era o elegante zagueiro Mike Doyle. Outro era o ofensivo lateral-esquerdo (embora destro) Glyn Pardoe. O terceiro era Alan Oakes, volante versátil e primo de Pardoe. Por fim, havia o habilidoso ponteiro-esquerdo Neil Young, nascido e criado numa casa que ficava a menos de um quilômetro da sede do clube. Da janela de seu quarto era possível avistar o estádio de Maine Road.

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Entre os trazidos de fora, o jogador que se tornaria o mais emblemático seria o meia Colin Bell. Revelado pelo Bury, chegou ao City em 1966. Na época, Malcolm Allison declarou que o armador “não sabe cabecear, não sabe dar um passe, é um caso perdido”. Tratava-se, na verdade, de uma estratégia para despistar possíveis concorrentes em sua contratação. Colin, ao contrário, era um meia completo: bom passador e lançador, marcava muitos gols (é o quarto maior goleador do clube em todos os tempos) e tinha fôlego invejável em campo. É considerado ainda hoje o maior jogador da história dos Citizens.

Contratado do Swindon em meados de 1965, Mike Summerbee não fica muito atrás em termos de prestígio histórico. Ponta-direita veloz, valente e brigador, mas também muito técnico e perfeito nos cruzamentos, tornou-se um dos jogadores favoritos dos torcedores. Segundo jogador trazido por Mercer, foi titular em todas as partidas de sua temporada de estreia, a que culminaria no acesso. Na campanha do título, atuando mais por dentro, viveria seu momento mais goleador, balançando as redes 14 vezes.

Pouco depois da chegada de Summerbee, Joe Mercer trouxe por uma barganha o zagueiro George Heslop. Revelado pelo Newcastle, onde não conseguira se firmar, transferira-se para o Everton, onde jogava com frequência ainda menor por ser reserva do intocável Brian Labone. No City ele enfim se firmaria no papel de zagueiro “sério” formando dupla com o mais técnico Mike Doyle. Mas o personagem mais singular daquela equipe, em vida e carreira, jogava à sua direita, na lateral: Tony Book.

Nascido em Bath, sul da Inglaterra, Book morou com a família na Índia durante parte da infância, quando seu pai militar foi transferido de posto. Como jogador, até os 30 anos só havia atuado em clubes da non-league, em especial o Bath City, de sua cidade natal, onde conhecera Malcolm Allison. Virou nome de confiança do treinador, que o levou para o Toronto City canadense e logo ao Plymouth Argyle, da segunda divisão inglesa. Dois anos depois, chegaria ao Manchester City, tornando-se capitão já na campanha seguinte, a do título, após a saída do atacante norte-irlandês Johnny Crossan.

A largada da campanha

Assim, com esses jogadores, Mercer e Allison firmaram um time que se manteve imutável por toda a campanha. Mulhearn no gol, Book e Pardoe nas laterais (com o primeiro mais contido e o outro mais apoiador), Heslop na zaga central com Doyle na saída de jogo da defesa, Oakes à frente da defesa (às vezes invertendo as posições com Doyle, de quem cobria os avanços), Bell correndo o campo todo e se projetando à frente, e o quarteto formado por Lee, Summerbee, Young e Coleman mais adiante.

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Mesmo assim, os três anos passados na segundona, a diferença de nível entre as duas divisões, a pouca experiência da maioria do elenco na elite e a campanha discreta na temporada anterior eram pontos constantemente citados para minimizar as chances do City no campeonato. Ao ponto de as casas de apostas chegarem a pagar 200 para 1 em caso de título no começo da temporada.

E, de fato, o time começou hesitante, empatando sem gols em casa com o Liverpool (o capitão Tony Book perdeu um pênalti) e em seguida caindo diante Southampton e Stoke. Mas enfileirou cinco vitórias seguidas, quatro delas em Maine Road, incluindo um 2 a 0 sobre o Nottingham Forest, vice-campeão da temporada anterior. A boa série, porém, antecedeu três derrotas, uma delas no clássico de Manchester, em casa, por 2 a 1. Em meio aos revezes, na virada de setembro para outubro, o clube acertou suas duas últimas transferências: as chegadas de Mulhearn (que estreou diante do United) e Francis Lee.

“Nós achamos que estamos começando a montar um bom time. Só nos falta um jogador, e acreditamos que esse jogador seja você”, foram as palavras de Joe Mercer para ‘Franny’ Lee quando da negociação do contrato. De fato, a estreia do atacante começou a mudar a sorte do time naquela campanha. A vitória em casa sobre o Wolverhampton por 2 a 0 no dia 14 de outubro iniciou uma sequência invicta de 11 jogos.

Dentre as grandes vitórias daquele período, houve a goleada de 6 a 0 sobre o Leicester e, especialmente, a magnífica atuação diante do Tottenham (4 a 1, de virada) com o gramado de Maine Road coberto de neve. Gravada e transmitida posteriormente pela BBC dentro de seu tradicional programa Match Of The Day, receberia o apelido de “Balé no Gelo” e seria apontada como o melhor jogo da temporada.

A boa sequência fez o time encostar no ponteiro Manchester United, que vinha embalado. Detentores do título, os Red Devils eram os grandes favoritos ao bicampeonato mesmo tendo de brigar em outras frentes (especialmente na Copa dos Campeões), ao passo em que o Liverpool de Bill Shankly e o Leeds de Don Revie corriam por fora. Porém, quando o City se viu pela primeira vez em condições de superar o rival, fechou o ano perdendo duas vezes seguidas para o West Bromwich Albion e caindo para o quarto lugar.

Nova tentativa viria com outra boa sequência de resultados no início de 1968: seis vitórias e um empate nos sete primeiros jogos da liga no novo ano, concluídas por uma goleada de 5 a 1 sobre o Fulham, alçaram pela primeira vez a equipe à ponta da tabela. Uma derrota em Leeds na partida seguinte, no entanto, trouxe de volta o Manchester United à liderança. Quatro dias depois, viria outra grande chance para os Citizens: o derby da cidade, desta vez a ser disputado em Old Trafford. Era agora ou nunca.

O jogo crucial

Para superar o rival era preciso também derrubar um certo complexo de inferioridade que se delineara dentro do clube em vista de todo o sucesso obtido pelos comandados de Matt Busby nas duas últimas décadas. E para a missão de instigar este espírito vencedor no clube, ninguém mais indicado que Malcolm Allison, um homem que esbanjava autoconfiança. Diante do maior público que o assistiu na temporada, o City veio, viu e venceu: 3 a 1 diante do United, gols de Colin Bell, George Heslop e Francis Lee.

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Antes do jogo, Big Mal havia aprontado das suas: contratou um alpinista para, na calada da noite, escalar os muros de Old Trafford e descer a bandeira do rival a meio mastro. “Eles (os dirigentes do United) só perceberam dias depois”, divertia-se o auxiliar. Joe Mercer, por sua vez, não se furtou de exaltar a atuação de seus jogadores naquele 27 de março: “Aquele foi o dia em que os garotos cresceram”, relembrou.

Na verdade, o City tropeçaria no jogo seguinte, perdendo na visita ao Leicester. Mas como regularidade não vinha sendo exatamente a marca dos quatro postulantes ao título, e a liderança seguia trocando de mãos a cada partida, o time de Mercer e Allison seguia no bolo, com boas chances. A rodada crucial para a conquista acabaria vindo pouco mais de um mês após a vitória em Old Trafford, em 29 de abril.

Jogando em Maine Road, a equipe derrotou o Everton por 2 a 0, gols do capitão Tony Book e de Tony Coleman. E ouviu pelo rádio a surpreendente goleada sofrida pelo Manchester United para o West Bromwich Albion por 6 a 3 nos Hawthorns e o empate do Liverpool com o Tottenham (1 a 1) em Anfield. Assim, os Citizens eram catapultados à ponta da tabela, ultrapassando o Leeds (que folgou na rodada), deixando o Liverpool mais para trás e empatando em pontos (e superando no desempate) o United.

Depois daquela rodada, faltavam apenas dois jogos para a dupla de Manchester (Leeds e Liverpool ainda tinham um a mais por fazer, mas se enfrentariam logo ali adiante). E o United tratou de obter um resultado enfático para se recuperar da derrapada anterior: 6 a 0 no Newcastle. Só que o City também obteve uma vitória categórica, 3 a 1 no Tottenham em Londres, e manteve vivo o sonho. O Leeds praticamente saiu da briga ao perder em casa para o Liverpool, que, por sua vez, ainda ficava à espreita dos mancunianos.

A decisão na última rodada

A definição ficou para 11 de maio. Os dois times de Manchester pegariam dois times do nordeste: o City visitaria o St. James’ Park para encarar o Newcastle, enquanto o United receberia o Sunderland. Joe Mercer confiava em seu time, mas demonstrava uma esportividade surpreendente para os dias de hoje: “Estamos praticamente com a taça, mas, se falharmos, não consigo pensar em outra pessoa melhor para levantar o campeonato do que meu amigo Matt Busby”. Os dois treinadores moravam inclusive na mesma rua.

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Com a bola rolando, o City logo deu mostras de que não se intimidaria com a torcida local, abrindo o placar aos 13 minutos com Summerbee. Mas o Newcastle empataria no minuto seguinte. Dali a dois minutos, a primeira surpresa: o Sunderland inaugurava a contagem em Old Trafford. E aos 32, dois gols simultâneos que praticamente definiram a parada: os Citizens passaram de novo à frente com Young, enquanto os Black Cats ampliavam para 2 a 0 diante dos Red Devils.

Ainda antes do intervalo, houve emoção: o Newcastle tornou a empatar, agora em 2 a 2, e o Manchester United conseguiu descontar o vexame com um gol de George Best, ganhando forças para tentar a virada. Mas a reação do time de Matt Busby pararia por ali, enquanto o City (que já havia tido dois gols anulados na partida) voltaria a ficar em vantagem, ampliando para 4 a 2 com outro gol de Young e um de Lee, antes de o Newcastle diminuir outra vez, arrematando o placar em 4 a 3.

O Manchester United, que só voltaria a perder para o Sunderland em Old Trafford 46 anos depois (em maio de 2014), recuperaria-se da perda do campeonato ao se tornar, dali a 18 dias, o primeiro clube inglês a levantar a Copa dos Campeões, batendo o Benfica em Wembley. Mas para os torcedores do City, o orgulho de sua conquista não diminuiu. Afinal, se o rival agora era o time mais poderoso do continente, dentro de casa teria que aceitar que o dono da bola era o time de Joe Mercer e Malcolm Allison.

O início de um período vitorioso

E foi um título que premiou a equipe mais bem equilibrada em todas as linhas. Seu ataque foi poderoso, o segundo melhor do campeonato (86 gols, atrás apenas dos 89 marcados pelo United, enquanto o terceiro da lista, o do West Brom, balançou as redes 75 vezes). E sua defesa foi a quarta menos vazada, com 43 gols sofridos (só três a mais que Liverpool e Everton e dois a mais que o Leeds). Números que dariam aos Citizens a vantagem sobre qualquer adversário no desempate pelo goal average vigente da época.

As atuações estonteantes daquele ataque tinham razão não apenas na qualidade técnica, como também na versatilidade dos homens de frente. No quarteto ofensivo, todos sabiam jogar pelas pontas enquanto três (a exceção era Coleman, ponteiro mais ortodoxo) também tinham facilidade de atuar por dentro, o que confundia a marcação. Some-se a isso as chegadas fortes de Colin Bell vindo do meio-campo. Assim, era natural que os gols fossem bem distribuídos: Young foi o artilheiro da equipe com 19 tentos, Lee anotou 16, Bell e Summerbee marcaram 14 cada um, enquanto Coleman balançou as redes oito vezes.

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A base foi praticamente mantida pelos anos seguintes e levou o City ao seu período mais vitorioso antes da década atual. No ano seguinte, embora falhasse na tentativa do bicampeonato inglês e fosse surpreendido logo na primeira fase da Copa dos Campeões pelo Fenerbahçe, levantou a FA Cup pela quarta vez em sua história, ao derrotar o Leicester de Peter Shilton em Wembley. Aquela conquista encaminhou a de outra taça, a da Recopa Europeia na temporada seguinte, quando o clube deixou pelo caminho Athletic Bilbao, Lierse, Acadêmica de Coimbra e Schalke 04, antes de bater o Górnik Zabrze na final em Viena.

Antes de levantar seu único troféu europeu, o City também já havia vencido em março a primeira de suas quatro Copas da Liga, superando o West Bromwich Albion, também em Wembley. As duas taças de 1970, porém, seriam as últimas da parceria Mercer-Allison, rompida no ano seguinte em meio à disputa política no clube. Com Allison agora no comando, o time esteve bem perto de levar o campeonato novamente em 1972, mas, muito irregular na reta final, viu o título ficar com o Derby. A terceira conquista ainda teria de esperar longas quatro décadas.