É difícil encontrar uma imagem que simbolize mais a Copa Libertadores do que aquela. Hugo de León recebe a taça com um rastro de sangue escorrendo pelo seu rosto, sinal da raça e da vontade que tanto significam ao torneio. Tudo bem, a marca de guerra não havia sido gerada em campo, apesar da batalha contra o Peñarol na final de 1983. O uruguaio, na verdade, se machucou ao apoiar na cabeça a base do troféu, onde existia a ponta de um prego. Mas a razão não importa tanto, diante da força que há naquela cena. Ainda mais porque, entre os zagueiros destemidos que lideraram grandes esquadrões na competição, De León foi um dos melhores. Um dos raros capitães a erguer o troféu mais de uma vez, o único por dois clubes diferentes. E soa como feliz coincidência que seu aniversário de 60 anos se complete nesta terça, dia de pontapé inicial na Libertadores, com seu Grêmio defendendo o tricampeonato.

A própria história de vida do veterano, aliás, se constitui de uma interessante sucessão de fatos providenciais. A começar por suas origens. Hugo de León nasceu em Rivera, cidade no interior do Uruguai que faz fronteira com o Rio Grande do Sul, acostumado com a língua portuguesa, os costumes gaúchos e mesmo as cores gremistas. Deu seus primeiros passos defendendo o pequeno Lavalleja, jogando inclusive como meia, além de pintar nas seleções regionais de Rivera. O talento notável o levou desde já a vestir a camisa celeste do Uruguai. Integrando a seleção sub-20 a partir de 1976, no ano seguinte conquistaria o Campeonato Sul-Americano da categoria, bem como participaria da edição inaugural do Mundial de Juniores. E aquela temporada seria mesmo especial ao garoto. Antes mesmo de completar 19 anos, passou em um teste no Nacional e se mudou para a capital, assinando com os tricolores.

Eram tempos de seca no Parque Central. O Nacional havia conquistado seu último título uruguaio em 1972. Desde então, viu o Peñarol dominar o topo da tabela e até mesmo o Defensor quebrar, em 1976, o duopólio que existia na liga desde a instituição do profissionalismo. A reconstrução do Bolso começou justamente em 1977, e com a participação de Hugo de León. Os tricolores voltaram a erguer a taça nacional naquela campanha. O jovem demonstrava o seu talento e logo ascenderia como uma das referências da equipe. Já em 1979, disputou a sua primeira partida pela seleção principal.

O ano de 1980 assinalou a guinada de De León. O zagueiro de 22 anos seria um dos esteios no Nacional que voltou a conquistar a América. Uma das lideranças da equipe, dividia o campo com lendas do porte de Rodolfo Rodríguez, Waldemar Victorino, Julio César Morales e Juan Carlos Blanco. Ainda não usava a braçadeira de capitão, honraria esta concedida ao ídolo Víctor Espárrago, um dos raros remanescentes do título continental de 1971. De qualquer maneira, a importância do jovem ficou evidente ao longo da campanha, na qual o Bolso sofreu apenas cinco gols em 12 jogos. Na decisão, brilhou ao ajudar a segurar – coincidências à parte – o futuro rival Internacional. Era a consagração do time de Juan Martín Mujica, outro personagem histórico dos tricolores.

A festa do Nacional em 1980 não se conteria à Libertadores. A equipe também conquistou o Campeonato Uruguaio, longe de ser ameaçada pela concorrência. E no final do ano, faturaria a primeira edição do Mundial Interclubes realizada no Japão, derrotando o Nottingham Forest. De León, todavia, não estava presente nesta façanha. Sua saída do clube era iminente. Na virada do ano, protagonizou seu último grande ato antes de deixar o país. O zagueiro integrou a Celeste que conquistou o simbólico título do Mundialito, competição organizada pela Fifa com as principais seleções do mundo e que comemorava os 50 anos da Copa de 1930. Ocasião que não apenas consagrou a boa geração dos charruas, mas também serviu de válvula de escape à população, diante da derrocada do regime militar no país.

De León, naquele momento, já tinha acertado a sua transferência ao Grêmio. Não à toa, após a vitória sobre o Brasil de Telê, deu a volta olímpica no Centenario com o manto gremista, recebido durante as negociações – o que gerou polêmica e seu afastamento da seleção por alguns meses. Seu desembarque ao Rio Grande do Sul estava atrelado à decisão da Libertadores de 1980, que deu visibilidade ao talento. E o rótulo de “carrasco do Inter” seria apagado com o tempo. A grandeza construída pelo uruguaio no Olímpico falaria por si. Logo em seu primeiro ano, serviu de referência à defesa montada por Ênio Andrade, conquistando o Campeonato Brasileiro de 1981. Primeiro passo aos sucessos que se ampliariam nos anos seguintes, para eternizar o defensor.

No ano seguinte, seria vice do Brasileiro, o que valeria a vaga na Copa Libertadores de 1983. O passo do capitão para a história tricolor, substituindo Emerson Leão como dono da braçadeira. De León foi um dos protagonistas naquela histórica edição da competição continental. Era um zagueiro reconhecido por sua firmeza e garra, mas que combinava a isso o tempo de bola preciso e à técnica apurada, contribuindo inclusive no apoio ao ataque. Fundamental ao time de Valdir Espinosa, desfrutou as classificações sobre Flamengo, Estudiantes e América de Cali nas fases de grupos. Já a decisão parecia feita ao capitão. Enfrentaria o Peñarol, seu rival nos tempos de Nacional.

Recebido como herói no retorno a Montevidéu, De León teve ótima atuação contra os aurinegros, transmitindo muita segurança no Centenario, apesar de ter falhado no lance que possibilitou o tento de Fernando Morena no empate por 1 a 1. A redenção aconteceu no Olímpico, com a vitória gremista por 2 a 1. O uruguaio seria um verdadeiro caudilho no coração da defesa. Quando o Peñarol empatou o jogo no segundo tempo, ele se dirigiu até o círculo central e motivou os seus companheiros em busca da vitória, algo que se tornou marcante. Evitou também a virada dos carboneros, salvando uma bola em cima da linha, instantes antes de César anotar o tento decisivo. E então, veio a imagem para a posteridade, com a taça nas mãos. Após a partida, o zagueiro revelou ter atuado com a camisa do Nacional por baixo da camisa do Grêmio, um talismã a quem “não tinha perdido clássicos”. Em promessa, raspou a icônica barba, ficando apenas com o bigode.

O final do ano reservaria ainda mais a De León. O zagueiro desta vez teve a oportunidade de disputar o Mundial de Clubes. Não só isso, conquistou a competição, derrotando o Hamburgo na final. O maior momento do clube passaria mais uma vez pelo capitão, com a taça nas mãos. A história do ídolo no Olímpico, porém, não se alongaria muito mais do que isso. Ele permaneceria na equipe vice-campeã da Libertadores de 1984, derrotada pelo Independiente na decisão, e também ganhou a Bola de Prata no Brasileiro daquele ano. Mas, neste momento, os problemas internos começaram a ruir a relação com a comissão técnica e o defensor preferiu deixar Porto Alegre. Apesar da relutância do clube em vendê-lo, não houve como recusar a proposta feita pelo Corinthians. Na época, se tornou a maior contratação feita por um clube brasileiro.

De León esteve distante da felicidade no Parque São Jorge, parte da “seleção de papel” que não vingou na realidade. Ainda teve uma rápida passagem pelo Santos e defendeu o Logroñés, da Espanha. A retomada de sua boa fase aconteceria na velha casa, o Nacional. E na competição que ele tanto gostava, a Libertadores. De León reforçou o time durante o torneio, e logo recebendo a braçadeira de capitão. Aos 30 anos, sua tarimba valeria demais, naquela que foi a última glória continental dos clubes uruguaios. Participou de todos os jogos a partir das quartas de final, derrubando o Newell’s Old Boys de Norberto Scoponi, Roberto Sensini, Tata Martino e Gabriel Batistuta na decisão. O veterano sacramentou a conquista, ao marcar o gol de pênalti que definiu a vitória por 3 a 0 no Centenario. No fim do ano, mais um Mundial, superando o PSV nos pênaltis, após o empate por 2 a 2.

Apesar da idade, De León recuperou o seu moral. Seria contratado pelo River Plate e, em curta passagem, conquistou o Campeonato Argentino. Pelas mãos de Óscar Tabárez, também retornou à seleção uruguaia, da qual esteve afastado desde as Eliminatórias para a Copa de 1982 por problemas internos. Uma pena que a Celeste tenha perdido o ápice do craque, mas ele ainda assim teria o gosto de figurar ao menos uma vez nos grandes torneios. Foi titular no vice da Copa América de 1989 e na Copa do Mundo de 1990. Apesar da qualidade de muitos jogadores, a Celeste de Óscar Tabárez caiu nas logo oitavas de final, eliminada pela anfitriã Itália. Seria o último jogo do zagueiro pela equipe nacional.

No fim da carreira, De León defendeu o Botafogo e passou pelo Japão. O último momento de glória? No Nacional, é claro. Do alto de sua experiência, o zagueiro conquistou o Campeonato Uruguaio em 1992, encerrando nova seca dos tricolores. Um adeus digno à toda a sua história. E ainda estaria à frente do Bolso mais uma vez, virando treinador no final da década. Em 1998, quebrou o pentacampeonato do Peñarol, com os tricolores se tornando os primeiros a faturarem na mesma temporada Apertura e Clausura. Voltaria a erguer o título uruguaio mais duas vezes, em 2000 e 2001. Não levaria a carreira no banco de reservas muito além, com passagens curtas por outros clubes, inclusive pelo Grêmio – demitido às vésperas da estreia na Série B de 2005. Nada que diminuísse sua aura.

Nos últimos anos, De León se tornou um símbolo de culto em seus dois principais clubes. E não tinha como ser diferente. O eterno capitão de Grêmio e Nacional é uma das figuras centrais em conquistas memoráveis. Assim, tornou-se também personagem histórico à Copa Libertadores. Que a edição de 2018 seja ungida com o sangue vertido Hugo de León, um mito de seis décadas de vida e que terá incontáveis décadas como lenda.