Soren Lerby pode não ser o primeiro nome mencionado quando se fala da Dinamarca que assombrou o mundo nos anos 1980. O meio-campista, todavia, era uma das principais engrenagens naquela Dinamáquina. Dono de uma capacidade física invejável e de muita potência, unia a isso sua qualidade técnica. Era combativo, do tipo que não gosta de perder uma dividida e nunca aliviava. O porte digno de um He-Man intimidava os adversários, ainda mais quando estes percebiam suas meias sempre arriadas, sem caneleiras. O que hoje em dia é proibido e soa como loucura naqueles tempos, na realidade, transmitia uma mensagem clara: se você se atrevesse a bater de frente com aquela montanha, iria sofrer as consequências.

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Lerby, todavia, não era um mero brucutu – longe disso. Não possuía exatamente uma habilidade para os dribles, mas conseguia encurtar as distâncias com suas arrancadas carregando a bola. Dominava a arte dos passes, especialmente pelos lançamentos longos. E gostava se projetar ao ataque para definir as jogadas. Suas cabeçadas eram um perigo constante, mas não tanto quanto resolvia soltar a bomba de canhota, inclusive nas cobranças de falta. “Completo” é a melhor definição, até pela quantidade de gols a quem assumia encargos defensivos. Mas ele preferia ter “vencedor” como o nome do meio.

Afinal, a obsessão pela vitória era uma das marcas registradas de Lerby. Os gritos com os companheiros se repetiam com frequência, exigindo sempre o máximo. Do tipo que usa a voz também como um elemento rumo às conquistas. “Futebol é um jogo de sobrevivência. Você não precisa apenas de pessoas legais, você precisa de pessoas em campo que sejam vencedoras. Soren era um desses tipos. Você poderia não reconhecê-lo em campo – ele era um cara bacana fora de lá”, descreve Morten Olsen, seu companheiro de seleção. A dureza do meio-campista nas quatro linhas, aliás, não atrapalhava suas relações nos vestiários, tido sempre com um brincalhão.

Fato é que esta multiplicidade providenciou uma carreira excepcional a Lerby. Ele conquistou nove títulos nacionais em 15 anos como profissional, além de uma Copa dos Campeões. Foi ídolo num Ajax que se reconstruía, brilhou no Bayern de Munique e ainda voltou à Holanda para liderar o maior PSV de todos os tempos. Isso sem contar aquilo que representou por mais de uma década defendendo a seleção dinamarquesa. Talento nato que merece as devidas reverências, e mais no dia em que completa 60 anos de idade.

Nascido em Copenhague, Lerby chegou ao nível principal do futebol dinamarquês em 1975, defendendo o Fremad Amager – clube tradicional da capital, mas mediano. E em tempos nos quais ainda não existia profissionalismo no esporte local, estava claro que o futuro do prodígio decorreria além das fronteiras. Ao lado do amigo Frank Arnesen, o garoto de 17 anos foi se aventurar na Holanda. Conseguiu uma chance no Ajax e teve sua contratação referendada por ninguém menos que Rinus Michels, de volta aos Godenzonen.

O Ajax passava por um período de mudanças após o tricampeonato da Copa dos Campeões. Por isso mesmo, o novato se transformou em peça importante neste período. Teve algumas poucas chances em sua primeira temporada na Eredivisie. Já no segundo ano, ganhou a titularidade no então campeão nacional. Não sairia mais. Seu dinamismo se encaixava dentro do “futebol total” praticado pelos Godenzonen, assim como as exigências da equipe o ajudaram a se tornar um jogador cada vez mais completo.

A temporada 1978/79, em especial, foi marcante a Lerby. O garoto completou 20 anos durante a campanha. Ao lado de Arnesen, era um dos esteios no meio-campo, em time que contava com Ruud Krol, Piet Schrijvers, Ray Clarke, Simon Tahamata e Tscheu La Ling. Além de erguer a taça da Eredivisie pela primeira vez como titular, o camisa 6 teve grande contribuição na campanha, com 16 gols. Já no ano seguinte, desfrutou o bicampeonato. Foram mais dez gols e nove assistências do dinamarquês, que ainda arrebentou na Copa dos Campeões. O Ajax parou nas semifinais, eliminado pelo Nottingham Forest. Lerby terminou como artilheiro da competição, somando dez tentos em apenas oito partidas – cinco deles em goleada sobre o Omonia Nicósia. Inclusive, impôs a derrota à equipe de Brian Clough na visita a Amsterdã.

Ao mesmo tempo, Lerby se firmou na seleção da Dinamarca. Nome frequente nas equipes de base, ganhou a primeira chance no nível principal em maio de 1978, em duelo contra a Irlanda. Não apenas se estabeleceria no meio-campo, como também ganharia importância por contribuir à revolução do futebol no país. A amadorismo da federação naquele período logo se transformaria a uma noção mais profissional do esporte. Nisso, a chegada do técnico Sepp Piontek, em 1979, foi primordial à equipe nacional. Os dois jovens meio-campistas do Ajax se tornariam também homens de confiança do comandante, até pela realidade em que estavam inseridos. A intensidade aplicada no clube seria útil à versão dinamarquesa do futebol total.

A Dinamarca ficou no último lugar de seu grupo nas Eliminatórias da Euro 1980, mas já deu sinais de evolução no biênio seguinte. Ficou a quatro pontos da vaga na Copa de 1982, mas com o gosto de derrotar a Itália de Enzo Bearzot em Copenhague. Lerby estava em campo no triunfo histórico por 3 a 1 sobre os futuros tricampeões mundiais. Já no clube, mais gols e mais taças. O Ajax conquistou mais um bicampeonato holandês em 1981/82 e 1982/83. Se não tinha mais a companhia de Frank Arnesen, vendido ao Valencia, Lerby ganhava outros parceiros célebres. Um veterano Johan Cruyff voltou para seus últimos momentos como jogador no clube onde se criou. Enquanto isso, da base vinham promessas do calibre de Frank Rijkaard e Marco van Basten. E os laços do clube com a Dinamarca se reforçavam, trazendo Jan Mölby e Jesper Olsen. Pois era justamente o camisa 6 quem usou a braçadeira e ergueu aquelas duas taças, eternizando ainda mais sua figura.

A história de Lerby no Ajax terminou em 1983, vendido ao Bayern de Munique, que tentava recuperar seu terreno na Bundesliga. Era o escolhido para ocupar a lacuna deixada por Paul Breitner, aposentado. O primeiro ano não foi tão frutífero, com os bávaros precisando se contentar com a Copa da Alemanha e vendendo Karl-Heinz Rummenigge à Internazionale para resolver suas dificuldades financeiras. No entanto, a reconstrução viria já com a volta às glórias. O dinamarquês era protagonista no time bicampeão alemão em 1984/85 e 1985/86 – rumando ao tri na temporada seguinte, quando o meio-campista já tinha saído. Lerby somou 19 gols em 59 partidas naquelas duas campanhas. Destacava-se ao lado de Jean-Marie Pfaff, Klaus Augenthaler, Lothar Matthäus, Dieter Hoeness e outros ídolos do clube.

Concomitantemente, a seleção dinamarquesa chegava ao seu ápice. Após 20 anos de ausência, e sem contar com a sorte nos chaveamentos desta vez, o país reapareceu na Eurocopa em 1984. Derrubou Inglaterra, Grécia e Hungria nas Eliminatórias, com direito a uma vitória em pleno Wembley. E o papel foi digno na fase final, disputada na França. A Dinamarca ficou com o segundo lugar de seu grupo, após derrotar Bélgica e Iugoslávia, vencida apenas pelo timaço dos Bleus protagonizado por Platini. Já nas semifinais, o desafio era a Espanha. Lerby apareceu na área para aproveitar um rebote e abriu o placar aos sete minutos, mas Antonio Maceda buscou o empate durante o segundo tempo. Nos pênaltis, apesar de ter convertido sua cobrança, o meio-campista viu sua equipe sair derrotada.

Embalados, os dinamarqueses não esperariam muito para ratificar o sucesso. Ele se confirmou no biênio seguinte, rumo à Copa de 1986. O time de Sepp Piontek tinha um grupo cascudo nas Eliminatórias, que também contava com União Soviética, Suíça, Irlanda e Noruega. A Dinamarca fez campanha consistente, especialmente por suas vitórias dentro de casa, no Estádio Parken. Em junho de 1985, viu o Mundial em seu horizonte ao bater os soviéticos por 4 a 2. A goleada por 5 a 1 sobre a Noruega em Oslo, na penúltima rodada, deu tranquilidade. Já a classificação foi confirmada em um triunfo histórico sobre a Irlanda em Dublin. Histórico especialmente para Lerby.

Frank Stapleton arrancou o rugido da multidão em Dublin ao abrir o placar. Mesmo sem chances, os irlandeses estavam dispostos a botar tudo a perder e ajudar a Suíça, rival direta da Dinamarca pela vaga. A reação começaria pouco depois, com Preben Elkjaer Larsen. E os dinamarqueses, inspirados pelo lateral John Sivebaek e também por Michael Laudrup, goleariam por 4 a 1. Soren Lerby foi titular naquele jogo e permaneceria em campo por 59 minutos, substituído quando sua equipe anotou o terceiro. Porém, não ficaria para a comemoração. Após cumprimentar Sepp Piontek, foi direto aos vestiários, onde encontrou Uli Hoeness, então dirigente do Bayern. Seu clube também atuaria naquela noite e o “fominha” não queria perder.

Lerby sequer tomou banho e entrou em um jatinho nas proximidades do Estádio Lansdowne Road, que o aguardava para levá-lo de volta à Alemanha. Pousou em Bochum, onde o time encararia o time da casa, pela Copa da Alemanha. Pegou um táxi e, diante do engarrafamento a caminho do estádio, se misturou aos torcedores caminhando a pé até o local da partida. Tomou uma ducha e foi direto para o banco, aguardando o chamado do técnico Udo Lattek. Entrou no intervalo e permaneceu em campo por mais 75 minutos, em duelo que seguiu para a prorrogação. O empate por 1 a 1 não confirmou a classificação do Bayern, mas a proeza do meio-campista por atuar em dois países distintos no mesmo dia é raríssima. Os bávaros, de qualquer forma, venceram o jogo-extra. Eliminaram Kaiserslautern e Waldhof Mannheim nas fases seguintes, antes de derrotarem o Stuttgart na final. Taça nas mãos, o dinamarquês poderia se concentrar na Copa do Mundo durante as semanas seguintes.

Lerby foi um dos pilares da Dinamáquina na Copa do Mundo de 1986. O camisa 6 compunha trinca poderosa ao lado de Michael Laudrup e Frank Arnesen, titular em todos os jogos da equipe de Sepp Piontek na competição e presente nos 360 minutos. Começou derrotando a Escócia por 1 a 0. Depois, participou da célebre demolição do Uruguai por 6 a 1, fazendo o segundo gol da partida. Em contra-ataque fulminante dos europeus, apareceu na área para completar o cruzamento de Elkjaer, autor de uma tripleta no encontro. Por fim, na rodada final da fase de grupos, auxiliou seus companheiros a baterem a Alemanha Ocidental por 2 a 1. Só não pôde evitar a dolorosa eliminação nas oitavas de final, diante do show de Emilio Butragueño, herói na goleada da Espanha por 5 a 1.

Depois do Mundial, Lerby não voltou à Alemanha. Teve uma curta passagem pelo Monaco, em campanha mediana na Ligue 1. E após um ano no principado, atendeu o chamado para disputar novamente o Campeonato Holandês. Mas não pelo Ajax. O PSV trouxe Frank Arnesen em 1985 e atraiu seu parceiro de sempre no meio-campo. Juntos, conseguiram dar a Eredivisie aos Boeren logo na temporada de estreia do camisa 6, em 1987/88. E fizeram muito mais no cenário continental. O PSV entrou na Champions como azarão, mas foi avançando. Primeiro, superou Galatasaray e Rapid Viena. Depois, colocou o regulamento sob o braço para deixar o Bordeaux de Aimé Jacquet e Real Madrid da Quinta del Buitre pelo caminho. Em ambos os confrontos, os holandeses empataram por 1 a 1 fora de casa, antes de se garantirem com o 0 a 0 no Estádio Philips.

Por fim, na decisão, o desafio era o Benfica de Mozer, Elzo, Mats Magnusson e Rui Águas. Outra vez, a consistência defensiva do PSV fez a diferença, com o empate por 0 a 0 se mantendo durante os 120 minutos. E na marca da cal, Lerby foi mais feliz do que na Euro 1984. Novamente converteu sua cobrança, a quinta, e celebrou o título continental com a vitória por 6 a 5. Era a consagração do PSV de Ronald Koeman, Eric Gerets, Wim Kieft e Hans van Breukelen, treinados por Guus Hiddink. Meses depois, perderia seu penal (não o decisivo) no Mundial Interclubes contra o Nacional de Montevidéu, com título dos uruguaios. Romário já reforçava o esquadrão holandês. Compensariam com o bicampeonato da Eredivisie em 1988/89, nona conquista de liga do veterano.

Naquela época, Lerby encerrou sua trajetória na seleção dinamarquesa. Participou da classificação para a Euro 1988, superando Tchecoslováquia e Gales nas eliminatórias. Mas o time de Sepp Piontek foi mal na fase final, perdendo os seus três jogos, contra Espanha, Alemanha Ocidental e Itália. Sem atuar na última partida, o camisa 6 fez apenas mais uma aparição pela equipe nacional. Despediu-se em novembro de 1989, chamado para tentar salvar a pátria nas Eliminatórias para a Copa de 1990. Entrou em uma fogueira encarando a Romênia em Bucareste, com a Dinamarca precisando ao menos do empate. A derrota por 3 a 1 botou um ponto final na história do meio-campista, após 67 partidas e dez gols.

Mesmo no PSV os dias de Lerby estavam contados. Sua última temporada foi a de 1989/90, ainda titular do clube. Aos 32 anos, pendurou as chuteiras. Depois disso, teria uma breve experiência como técnico, no Bayern de Munique. Substituiu Jupp Heynckes após sua primeira passagem pela Baviera, comandando os alvirrubros por 17 rodadas. Sequer terminou o campeonato, demitido pelos maus resultados. A equipe ficou em um impensável 10° lugar na Bundesliga. Então, o dinamarquês enveredou por outro caminho: virou empresário. E não se pode negar o seu sucesso, agenciando talentos do calibre de Wesley Sneijder, Dries Mertens e Toby Alderweireld. Certamente tem muita experiência a transmitir aos seus pupilos.