Quando se pensa no lendário Bayern de Munique dos anos 1970, os nomes citados são quase sempre os mesmos. Franz Beckenbauer, Gerd Müller, Sepp Maier e Paul Breitner se tornam menções obrigatórias, até pela importância que também tiveram na conquista da Copa do Mundo de 1974. Georg Schwarzenbeck, por sua vez, é um personagem bem menos célebre. Foi assim durante toda a sua carreira, na qual o defensor era costumeiramente retratado como o “guarda-costas” de Beckenbauer, responsável por carregar o piano para que o Kaiser imperasse. Ainda assim, Katsche (apelido que, no dialeto local, significa “hematoma”) é o quinto jogador que mais vestiu a camisa dos bávaros, com 554 partidas, além de também ter vencido a Copa de 1974. Era um coadjuvante que virou protagonista justamente na primeira final de Champions do Bayern, possibilitando uma reação memorável.

Nascido em Munique, Schwarzenbeck chegou ao Bayern ainda nas categorias de base. Foi promovido ao time principal em 1966/67, juntando-se a um elenco em desenvolvimento, que contava com outros tantos jovens talentosos. Formava-se o protótipo do futuro esquadrão, que naquela primeira temporada conquistou a Recopa Europeia em cima do Rangers. Katsche ainda era reserva naquele momento. Entretanto, ao deixar a lateral esquerda, logo se tornou titular incontestável no miolo da zaga. Não tinha tantos recursos, mas se saía muitíssimo bem fazendo o simples. Além disso, primava pela enorme imposição física, marcador duro para qualquer atacante. Desta maneira, virou uma engrenagem importante na máquina que se criou em Munique.

A partir de 1968/69, Schwarzenbeck se acostumou a erguer a salva de prata da Bundesliga. Foram quatro conquistas até 1974. Já em 1971, tornou-se titular da seleção alemã. Ascendeu a tempo de disputar a Eurocopa de 1972, compondo o miolo da defesa ao lado de Beckenbauer, no time que derrotou a União Soviética na final. A entrosada parceria com o Kaiser se repetiu centenas de vezes também no Bayern. E chegou ao seu ápice na Copa dos Campeões de 1973/74, que elevou o patamar dos bávaros, ao faturarem pela primeira vez o principal título do continente.

Os gols de Schwarzenbeck eram um tanto quanto raros, mas ele ganhou confiança naquela temporada. Balançou as redes sete vezes na Bundesliga, de longe sua campanha mais goleadora, e também um na Copa da Alemanha. Todavia, o zagueiro não parecia o mais apto a resolver a amarrada decisão da Champions contra o Atlético de Madrid, em Bruxelas. Era um jogo bastante difícil, que permaneceu sem gols por 114 minutos. No entanto, uma falta cometida por Katsche na entrada da área permitiu que Luis Aragonés abrisse o placar no segundo tempo da prorrogação.

O desespero batia sobre os alemães, principalmente em Schwarzenbeck. Tentando consertar seu erro, quase deu outro gol de presente ao Atleti, em lançamento errado a dois minutos do fim. Já nos segundos derradeiros, recebeu a bola de Beckenbauer e estufou o peito. Viu o caminho livre e avançou desde o campo de defesa. Então, diante da oportunidade, resolveu arriscar o chute de longa distância. Paul Breitner conta que, quando notou o companheiro armando o gatilho, apenas pensou: “Por favor, não chuta…”. Katsche o contrariou, para a felicidade de todos na equipe. O tiro rasante, de fato, não foi dos melhores. Mas com a visão encoberta, o goleiro Miguel Reina aceitou a bola defensável. O tento determinava o empate por 1 a 1 e, em tempos nos quais não existiam pênaltis na Champions, também o jogo-extra para dois dias depois. Melhor preparado fisicamente, o Bayern sequer precisou de sua estrela da sorte, goleando os colchoneros por 4 a 0 no reencontro e levantando a orelhuda pela primeira vez.

Poucas semanas depois, Schwarzenbeck foi titular em todos os jogos da Copa do Mundo de 1974. Na decisão contra a Holanda, teve papel essencial. Ao lado de Berti Vogts, fez o trabalho pesado para segurar a Laranja Mecânica, marcando individualmente Rob Rensenbrink, e ajudou a garantir a vitória por 2 a 1. O sucesso esportivo continuaria: faturou mais dois títulos na Champions e mais dois na Bundesliga, além de ser vice-campeão da Eurocopa em 1976 e de ter participado do Mundial de 1978. No final da década de 1970, assumiu até mesmo a braçadeira dos bávaros, após a saída de outros companheiros mais tarimbados. Neste momento, porém, seu declínio físico era visível. Aposentou-se em 1981, aos 33 anos.

Após pendurar as chuteiras, Schwarzenbeck se afastou do futebol. Montou seu próprio negócio e por quase três décadas teve uma papelaria. Mas, acima de tudo, continua sendo um dos jogadores mais respeitados na Baviera. O esforço de Katsche permitiu que os craques do Bayern brilhassem, e sua ousadia rendeu a consagração das lendas. Que não seja o mais lembrado por outras torcidas, a gratidão dos bávaros ele carregará para sempre.