Texto publicado originalmente em agosto de 2011

Poucos campeões não são lembrados. Além de terem o nome gravado em livros e listas dos vencedores, os próprios torcedores lembram-se dos vitoriosos. No futebol é assim. Mas alguns times especiais foram capazes de subverter esta lógica. Uma seleção chamou a atenção do mundo, e fez muitos torcedores lamentarem a vitória dos germânicos na final do Mundial de 1974.

Uma seleção revolucionária. Comandada em campo por Johan Cruyff, mas criada, pensada e montada por Rinus Michels. Um treinador que mudou não só o modo dos jogadores atuarem no futebol. Mas o modo dos próprios torcedores acompanharem uma partida.

Considerado o pai do “Futebol Total”, um estilo de jogo criativo baseado no conjunto, em craques atuando em todas as posições, rodando por todo o campo e passando com facilidade pelos adversários. Enfim, um homem eleito pela própria Fifa o “Treinador do Século”.

Jogador de um clube só

Marinus Michels nasceu na capital holandesa, em fevereiro de 1928. Cresceu perto do estádio Olímpico, ao qual teve toda sua carreira ligada. Aos nove anos, recebeu de presente de aniversário um par de chuteiras e um uniforme do Ajax. Em uma brincadeira com o pai, na mesma época, foi notado por um amigo da família que o levou para as categorias de base dos Ajacieden.

Mesmo contando com proposta do francês Lille, não pode transferir-se em virtude de obrigações militares com o exército holandês e viu a carreira estagnada pela Segunda Guerra Mundial.

Mas sua aguardada estreia pelos Godenzonen seria por muito tempo lembrada. Substituindo o machucado Lambregt Han, enfrentou o ADO Den Haag em um duelo que terminou com uma goleada por 8×3 e cinco gols do jovem atacante.

Sempre lembrado por seu trabalho duro e vontade de vencer, sua parte técnica também pouco deixava a desejar. Atuando durante toda sua carreira pelo Ajax, em doze anos no time principal foi duas vezes campeão nacional e totalizou 122 gols em 264 partidas da liga holandesa.

Pela seleção holandesa, à época pouco reconhecida no cenário internacional, foram apenas cinco partidas, todas com derrotas. Em 1958, com apenas 30 anos, foi obrigado a encerrar sua carreira devido a uma lesão nas costas.

De volta às glórias

Após abandonar os gramados ainda jovem, Michels decidiu seguir a carreira de treinador, pois não conseguia imaginar-se distante do relvado, fazendo outra coisa que não fosse ligada ao esporte.

Na década de 1960 iniciou sua carreira de técnico comandando pequenas equipes amadoras nos subúrbios de Amsterdã, entre elas o pequeno JOS Watergraafsmeer.

Sua postura e o passado no clube, chamaram a atenção do Ajax, que há cinco temporadas não conquistava a Eredivisie e chegara a flertar com o rebaixamento. Em 1965 assumiu o cargo de treinador do time principal do clube, que mantinha nos 20 anos anteriores a tradição de somente contar com técnicos estrangeiros.

E Michels não demorou a mostrar serviço. Trazendo nomes como o experiente iugoslavo Velibor Vasovi?, do Partizan-IUG, Heinz Stuy e Gerrie Mühren, além de aproveitar uma mágica geração de jovens que surgiam na base do clube, entre eles o meia/atacante Johan Cruyff, o zagueiro Barry Hulshoff e o lateral-direito Wim Suurbier, começou a moldar o time à sua forma e gosto.

Logo em sua primeira temporada tirou o time da fila com a conquista do título nacional com sete pontos de vantagem para o rival e então campeão Feyenoord. O título, o 11º primeiro do clube, tornou também os Ajacieden os maiores campeões nacionais pela primeira vez em sua história.

As conquistas não pararam por aí. Nos anos seguintes conquistaria o bi e o inédito tricampeonato consecutivo para os Godenzonen. Com um setor ofensivo mortal, surpreendeu o país com a marca de 122 gols marcados na campanha do bicampeonato, uma inacreditável média de mais de 3,5 gols por partida.

Ainda na década de 1960 vieram as conquistas da Copa da Holanda, em 1967, e a primeira final do clube na Copa dos Campeões da Europa, em 1969. Com uma campanha surpreendente, Michels apresentou o time holandês à Europa. Superando Nuremberg-ALE (com uma goleada por 4×0), Fenerbahçe-TUR, Benfica-POR e Spartak Trnava-TCH, alcançou a final contra o Milan-ITA, em Madrid. Contudo, sofreu seu primeiro revés, sendo goleado por 4×1 pelos italianos.

Hegemonia (inter)nacional

Nos anos seguintes, o time holandês conquistou novamente o título nacional, em 1970, e ainda duas Copas da Holanda, em 1970 e 1971, mas o fracasso na obtenção do título continental deixaria um gosto amargo para os Ajacieden.

Isso por que, após ser o primeiro clube holandês a alcançar a final da Copa Europeia (e perder a decisão), o clube viu seu maior rival Feyenoord igualar o feito no ano seguinte. E mais. Conquistar o título, batendo o Celtic-ESC, e, sob o comando do austríaco Ernst Happel, tornar-se o primeiro time dos Países Baixos a ostentar a taça europeia.

Para contentar uma agora abalada torcida, Michels sabia que seria necessário não apenas igualar o feito do rival, mas superá-lo com folga, deixando claro qual era o verdadeiro dono do futebol no país.

E o título chegaria já em 1971. Com um time mais maduro, entrosado e já consciente das inovações táticas propostas por Rinus Michels, o Ajax superou com folga todos seus adversário e, vencendo a decisão sobre o Panathinaikos-GRE, em Wembley (ING), conquistou o título continental.

O ápice, entretanto, seriam os inéditos bi (conquistado sobre a Internazionale-ITA) e tricampeonato (derrotando a Juventus-ITA) continentais nos anos seguintes. Nos dois últimos, contudo, Rinus não estava mais lá. Havia aceitado um desafio maior. Mostrar seu estilo inovador não só para europeus, mas sim ao mundo. E conquistá-lo parecia apenas questão de tempo.

Desbravando a Catalunha

Logo após conquistar o título europeu, Michels assinou contrato para dirigir o Barcelona, um clube em profunda crise de conquistas, que passara toda a década de 1960 sem vencer a La Liga. Mal sabia o time catalão que estava dando ali o primeiro passo para formar a base do jogo que encanta o futebol mundial atualmente.

Nos primeiros dois anos na equipe espanhol, Michels viu seu time perder a Liga para seus rivais da capital (Real e Atlético), a exemplo do que ocorrera na década anterior. Percebeu, então, que para ter sucesso com os culés, teria de levar para a Catalunha o seu protótipo de “Futebol Total”.

E o primeiro passo para isso foi trazer seu maestro nos tempos de Ajax, Cruyff, que assinou com o Barça por uma quantia recorde à época: U$ 2 milhões. Além disso, reanimou atletas que já atuavam por lá, como os meias Carles Rexach, Marcial e Juan Manuel Asensi, e contratou o peruano Hugo Sotil.

Com seu modelo implantado ficou fácil conquistar sua primeira coroa na Liga. Em 1974, Michels levou o Barcelona ao primeiro título nacional sob seu comando, com uma vantagem de dez pontos para o vice-campeão Atlético, o melhor ataque (75 gols) e a melhor defesa (24).

Conquistando o mundo

O sucesso no futebol espanhol, aliado aos título conquistados anteriormente no Ajax, chamou a atenção da KNVB (Federação Holandesa de Futebol). A seleção holandesa era então comandada pelo tcheco František Fadrhonc, que, a despeito de obter a classificação para a Copa do Mundo após 36 anos, era criticado por não tirar o máximo proveito de um a talentosa geração que dominava o futebol do Velho Continente.

Escolhido para substituir Fadrhonc, que tornou-se seu assistente, Michels estreou no comando da Holanda em um amistoso contra a Áustria (1×1). Na fase final do Mundial da Alemanha, chamou a atenção do mundo com seu estilo aplicado pelo “Futebol Total”, ou Totaalvoetbal.

No selecionado nacional, Michels enfim aplicava à perfeição seu modelo de toques rápidos, habilidade e movimentação constante, com um exuberante preparo físico dos atletas. O onze estruturava-se num 4-3-3 dinâmico onde todos atacavam e todos defendiam, não havia posições fixas já que todos os jogadores circulavam com e sem bola num carrossel mágico que atordoava os adversários, hipnotizados pela qualidade técnica e táctica dos jogadores holandeses.

A circulação era a chave do sucesso com constantes variações de flanco e passes para trás, quando necessários, no intuito de criar pontos de ruptura na defesa adversária. A seleção holandesa praticava, já naqueles anos, a hoje em dia tão em voga pressão alta, procurando asfixiar o adversário no seu próprio campo e obter rapidamente a tão ansiada posse de bola.

É importante notar, contudo, que a seleção holandesa naquela forma fora algo montado apenas pouco antes do Mundial. Quando Michels assumiu o comando, a Laranja Mecânica estava dividida entre duas potências do país: os jogadores do Feyenoord e os atletas do Ajax. E havia apenas cerca de duas semanas para organizar o time. Michels juntou os jogadores no vestiário e disse: “Vamos atuar deste modo. Quem quiser, está no time. Quem não estiver a fim, arrume as malas”.

Na primeira fase, superou Uruguai (2×0) e Bulgária (4×1), além de empatar sem gols com os suecos. Na segunda fase, assombrou o mundo do futebol ao humilhar a argentina por 4×0 e derrotar os tricampeões mundiais brasileiros com facilidade (2×0), assim como a Alemanha Oriental (2×0).

Na final, os holandeses enfrentariam os donos da casa. Apesar do bom time alemão, poucos ousavam apostar no time germânico. Os comandados de Michels (e de Cruyff em campo), ostentavam um futebol mágico e estavam invictos na competição (cinco vitórias e um empate).

Mas o único revés veio no momento mais decisivo. Mesmo saindo na frente com Neeskens cobrando pênalti logo aos dois minutos, os holandeses viram os donos da casa virar ainda na primeira etapa, com Breitner (também de pênalti) e Müller. Durante todo o segundo tempo o time tentou a igualdade, mas a Alemanha levou o bicampeonato. O mundo assistira perplexo a queda de um time mágico.

Sobre a derrota, Michels diria: “O futebol não é de quem acerta mais, mas de quem erra menos. Ganha quem souber explorar melhor as falhas alheias. Foi o que fez a Alemanha”.

Síndrome de vice-campeão?

Logo após o Mundial, o técnico holandês deixou o cargo na seleção, retomando sua vaga no Barcelona. Com a perda da Liga para o Real Madrid na mesma temporada, contudo, rumou novamente para o Ajax. No time holandês, agora tendo como principal referência o atacante Ruud Geels, não conquistou o nacional, perdido para o PSV.

Em 1976, voltou à Catalunha, novamente ao Barcelona, onde permaneceu por duas temporadas, terminando com o vice-campeonato em ambas. No fim da década de 1980, aceitou o desafio de desbravar a liga norte-americana, assumindo o comando do Los Angeles Aztecs, em um projeto ambicioso que contava com a participação de seu pupilo, Johan Cruyff.

Em 1980, sem conquistar títulos e amargando vice-campeonatos em sequência, Michels fechou contrato com o alemão Köln, onde bateu novamente na trave com o vice da Bundesliga em 1982, mas, no ano seguinte, voltou a conquistar um título após nove anos, derrotando na final da Copa da Alemanha os rivais do Fortuna Köln.

Corrigindo um erro histórico

Em 1984, dez anos após o baque da derrota na final da Copa do Mundo, Rinus Michels voltou ao cargo de treinador Orange. A coragem para assumir novamente o desafio, Michels afirmava ter tirado do fato de que sentia ainda não ter cumprido sua missão pelo selecionado de seu país por não ter conquistado um título.

Apesar da fama após dois vices consecutivos em Copas do Mundo e um futebol técnico e vibrante, além, é claro, de uma geração cheia de talentos, a Holanda não possuía títulos. Suas conquistas resumiam-se a torneios não-oficiais, como Torneio Internacional de Paris, Campeonato Internacional Amador e até um Torneio Internacional de Consolação pós-Olimpíadas de Amsterdã, em 1928. Mas Rinus Michels seria o homem que mudaria essa história.

Após resultados iniciais fracos na primeira temporada, ele deixou o cargo por um ano, retornando em 1986, após passar por sua primeira cirurgia no coração, para preparar a seleção para a disputa da Eurocopa de dois anos depois, na Alemanha.

Seria ele o encarregado de tornar vencedora uma geração com Van Basten, Gullit, Bosman e Koeman. A segunda geração consecutiva de uma Holanda que muitos julgavam não ser tão poderosa como a primeira. Para outros, contudo, seria a segunda (e última) chance de Michels provar que poderia, de fato, aliar futebol-arte e conquistas.

No qualificatório, a Laranja Mecânica não deu chances aos concorrentes Grécia, Hungria, Polônia e Chipre, classificando-se de forma invicta com seis vitórias e apenas dois empates.

No torneio, os holandeses estrearam com uma derrota pelo placar mínimo para os soviéticos. Na segunda partida, um hat-trick e uma exibição memorável de Van Basten deram a vitória por 3×1 contra os ingleses. E na rodada final, um triunfo por um gol sobre os irlandeses deu a segunda vaga do grupo nas semifinais ao time.

Após superar os donos da casa em Hamburgo, com uma virada concretizada nos minutos finais por Van Basten, vingando a derrota de 1974, a Holanda reencontrou as algozes soviéticos na decisão. Uma cabeçada de Gullit e um voleio de Van Basten foram suficientes para evitar nova surpresa e, enfim, dar a primeira taça aos Países Baixos. O próprio Van Basten afirmaria depois que “todos sabiam que a verdadeira final fora a semi, contra os alemães”.

Após 14 anos, no mesmo estádio Olímpico, em Munique, Rinus Michels enfim alcançava o sucesso com seu estilo de jogo arrojado e, agora, vencedor. Na temporada seguinte comandaria o Bayer Leverkusen e, em 1990 voltaria novamente ao cargo de técnico da seleção nacional, onde quase repetiria seu truque na Eurocopa de 1992 ao alcançar as semifinais da competição e ser eliminado apenas nos pênaltis, para os futuros campeões dinamarqueses. Ao fim do torneio, abandonou a carreira, aos 64 anos.

Após sua aposentadoria, Michels manteve-se ligado ao futebol nomeadamente como membro, e mais tarde vice-presidente, do Comité para o Desenvolvimento Técnico da UEFA. Durante um período, atuou como professor de ginástica de uma escola para crianças com deficiências auditivas. Em 2005, após realizar sua segunda cirurgia cardíaca, em Aalst (BEL), não resistiu e veio a falecer.

Um treinador revolucionário

Conhecido como uma pessoa extremamente inteligente, Michels fazia de um bom livro sempre um acompanhante nas viagens e excursões de seus times. Brincalhão com seus jogadores, era autor de um vasto repertório de anedotas nas concentrações. Concentrações, aliás, que na Holanda de 1974 foram modificadas. Michels aplicou durante o Mundial o regime aberto de concentração para seus atletas.

Mas durante uma partida, Michels transformava-se. O autoritarismo e o estilo de comandar do técnico holandês renderam-lhe o apelido de “General”. E ele justificava-se: “O futebol profissional é algo parecido com uma guerra. E quem se comporta de maneira muito gentil perde”.

Maestro de seus times em campo e principal fruto do seu trabalho, Cruyff atribuía ao técnico a maior parte de seu sucesso no futebol: “Seja como jogador, seja como treinador, ninguém que me ensinou tanto quanto ele. Eu sempre admirava sua liderança”. Cruyff, aliás, simbolizava a perfeição da tática de Michels. Um jogador que parecia ter sido feito para o esquema do técnico, tendo uma capacidade inigualável de analisar uma partida ao mesmo tempo que a disputava.

Seu estilo de jogo, baseado num futebol envolvente, de muita movimentação, troca de passes constantes, posicionamento indefinido exatamente com o objetivo de confundir os adversários e um excelente preparo físico é, hoje, aliado a um forte investimento direcionado as categorias de base, o pilar de sustentação da filosofia implantada no Barcelona, que encanta e surpreende o mundo do futebol. Um estilo que tem entre seus principais propagadores seus pupilos da seleções de 1974/88.

Um jogo pensado muito antes dos apito inicial. Uma inteligência e um planejamento que faziam com que cada movimento adversário fosse previsto. Que todos os espaços do campo fosse preenchidos. Um jogo coletivo baseado na criatividade individual de cada um de seus jogadores.

Muitos afirmam que Michels não foi o primeiro a implantar o conceito de “Futebol Total”. Mas, sem dúvida, foi ele quem melhor percebeu que o futebol é um jogo simples. E somente inteligência aplicada com muito trabalho duro poderiam fazer a diferença. Reconhecia como poucos a ânsia pelo jogo bonito dos torcedores de seu país natal: “a única forma de nós holandeses ficarmos satisfeitos é jogando no ataque”.

Podia dedicar horas para montar um estratégia para uma partida e afirmava ser sua obsessão. “É uma arte em si compor uma equipe para uma partida, encontrar o equilíbrio entre os jogadores criativos e aqueles com poderes destrutivos. Entre a defesa, a ligação e o ataque – nunca esquecendo a qualidade dos adversários e das pressões específicas de cada partida”.

Técnico da Argentina na goleada por 4×0 na fase final da Copa de 1974, Vladisloa Cap afirmou surpreso: “nunca vi nada parecido. Meus jogadores jamais viram um time assim. É uma nova maneira de conceber o jogo. Eles são um rolo compressor”.

A Michels cabe também a proeza de ter aberto o mercado espanhol para treinadores e jogadores holandeses. O sucesso de sua troca de Ajax pelo Barcelona criou, mais tarde, um movimento também realizado por Johan Cruyff, Johan Neeskens, Louis van Gaal e Frank Rijkaard, entre outros.

Seu trabalho e sucesso coincidiu com as gerações mais brilhantes do futebol holandês, homens como Johan Cruyff, Rudi Krol, Johnny Rep e depois, mais tarde, Ruud Gullit, Marco van Basten e Frank Rijkaard. Não conquistou o título que mais almejava, a Copa do Mundo de 1974, mas 14 anos depois, no mesmo estádio em Munique, alcançou o ápice do futebol holandês.

Nomeado treinador do século pela Fifa, em 1999, o prêmio anual de melhor técnico da Holanda hoje recebe seu nome: “Rinus Michels Award”. Uma honra aos premiados, que podem, mesmo que por breves momentos, ser comparados ao melhor treinador que o futebol mundial já produziu.