O duelo entre Bayern de Munique e Besiktas, pelas oitavas de final da Liga dos Campeões, unirá povos irmanados. É impossível ignorar a presença massiva de turcos no cotidiano dos germânicos. Incluindo também diferentes grupos étnicos, como os curdos, a Turquia representa uma das três maiores populações de imigrantes na Alemanha, ao lado de russos e poloneses. São cerca de quatro milhões de pessoas com nacionalidade turca, que partiram ou nasceram ao novo país em busca de melhores oportunidades. E, mais do que qualquer outra massa estrangeira, a influência dos turcos se torna claramente perceptível através do futebol. Mehmet Scholl, Mesut Özil, Ilkay Gündogan e Emre Can são apenas alguns jogadores de origem turca que optaram por defender o Nationalelf. Enquanto isso, o número de alemães de nascimento que se desenvolvem no futebol local e escolheram a seleção da terra de seus pais é ainda mais numerosa. Nuri Sahin, Ümit Davala, Yildiray Bastürk, Ilhan Mansiz, Cenk Tosun e os irmãos Altintop simbolizam este grupo. O esporte, à sua maneira, serva como uma ferramenta poderosa de integração.

O movimento migratório da Turquia rumo à Alemanha se intensificou a partir dos anos 1960. Neste momento, a Alemanha Ocidental desfrutava de sua ascensão econômica, já recuperada dos escombros deixados pela Segunda Guerra Mundial. No entanto, a construção do Muro de Berlim e as relações ríspidas com a Alemanha Oriental obstruíam o caminho de parte da mão de obra do leste aos centros econômicos e industriais do lado capitalista. Assim, a partir de incentivos dados pelo governo alemão-ocidental, o número de migrantes turcos cresceu. Durante o processo de unificação da Alemanha, a partir do fim da década de 1980, existiram amplos debates sobre a integração desta nova população, assim como reflexos xenofóbicos a partir do surgimento de grupos neo-nazistas. Independentemente disso, a presença dos turcos na sociedade alemã já era uma realidade inegável.

A partir de 1990, as novas leis da Alemanha também facilitaram este enraizamento. As premissas para se adquirir os direitos comuns a um alemão não dependiam mais de laços sanguíneos. Assim, o trabalhadores turcos passaram a estabelecer residência fixa após oito anos no país, enquanto os seus descendentes poderiam se tornar cidadãos alemães a partir dos 18 anos. Na virada do século, a legislação ficou ainda mais ampla, ratificando a relação entre os países. Os turcos residentes há mais de oito anos ganham direito à cidadania, enquanto seus descendentes nascidos na Alemanha possuem dupla cidadania até os 23 anos, quando precisam escolher um dos lados.

E dentro deste contexto amplo, há o futebol. A massa migracional vinda da Turquia se aglutinou principalmente nos principais centros urbanos da Alemanha – não à toa, onde os clubes da Bundesliga também se concentram. A evolução do “pé de obra” turco não demorou a se refletir na elite do esporte local. A qualidade desses garotos, contando com a infraestrutura e a capacitação técnica recebidas nas categorias de base, permitiram que diversos jogadores alcançassem a primeira divisão.

O pioneiro foi o líbero Erhan Önal, que nasceu em Izmir e se mudou à Alemanha aos sete anos, defendendo o Bayern de Munique entre 1976 e 1978. Já o boom aconteceria mesmo a partir da década de 1990, simbolizado especialmente por Mehmet Scholl. Filho de pai turco e mãe alemã, o meia abriu as portas à geração de descendentes na seleção, estreando no nível principal em 1995. Multicampeão com o Bayern de Munique, disputou duas Eurocopas. Na outra via, Tayfun Korkut se tornou o primeiro alemão de nascimento a defender a seleção turca em uma competição internacional. Assim como Scholl, esteve na Euro 1996.

Nesta época, definitivamente, a presença de turcos na Alemanha se escancarava através da Bundesliga. E se por um lado as categorias de base dos clubes serviram para acolher os descendentes ou aqueles que migraram muito jovens, houve outro caminho adotado nesta integração: a criação de agremiações específicas para os turcos. A primeira delas surgiu em 1965. O Türkspor Berlim se manteve em regime amador por décadas, atravessando o seu ápice justamente nos anos posteriores à queda do Muro de Berlim. Durante o início da década de 1990, o time permaneceu por três temporadas na Oberliga Nordost, então equivalente à terceira divisão, fazendo campanhas intermediárias. A grande potência entre os turcos, todavia, era seu concorrente na competição nacional.

O Türkiyemspor Berlim foi criado em 1978, no distrito de Kreuzberg, lado ocidental da capital dividida. Chamava-se inicialmente Izmirspor, em referência à cidade turca de mesmo nome, e dava uma oportunidade para os migrantes se reunirem. De início, era apenas um clube amador, limitado ao lazer de seus integrantes. Mas a partir de meados da década de 1980, o negócio se tornou sério. A equipe passou a desfrutar do sucesso nas divisões menores e, em 1987, após o quarto acesso em um curto período, decidiu trocar de nome. Para não privilegiar apenas os originários de Izmir, se tornou então o Türkiyemspor – “minha Turquia”, em tradução livre.

“Você constantemente ouve coisas discriminatórias porque tem cabelo preto, porque parece um pouco diferente… Todas as vezes sentia que não era igual. E então veio o Türkiyemspor. O clube mostrou em campo que, se tivermos condições iguais e direitos iguais, podemos vencer. Nós demos o sentimento de vitória a pessoas que estavam perdendo o tempo todo”, avalia Harald Aumeier, torcedor dos alviazuis, em entrevista à revista World Soccer. “O Türkiyemspor mostrou que os jovens podem vir aqui e ninguém vai discriminá-los. Você vem ao clube e você faz parte dele. Qualquer um é bem vindo”.

A temporada 1987/88 marcou a estreia do Türkiyemspor na Oberliga Berlim, então equivalente à terceira divisão. O time se firmou na parte de cima da tabela e costumava levar milhares de torcedores aos jogos contra clubes tradicionais da cidade. Quase 12 mil lotaram o Poststadion para o duelo contra o Hertha Berlim em 1988/89, e a multidão não era tão inferior diante do Tennis Borussia Berlim. Neste momento, os alviazuis chegaram a quatro decisões da Berliner Landespokal, a copa local. Conquistaram três títulos e, assim, se qualificaram às fases iniciais da Copa da Alemanha. Já em 1990/91, na melhor campanha pela terceirona, o time dos turcos ficou a um ponto de terminar em primeiro e se classificar ao pentagonal de acesso à segunda divisão.

A partir da reunificação da Alemanha, o Türkiyemspor fez parte da Oberliga Nordost, a nova terceira divisão, e se manteve no pelotão de cima. As aparições constantes na terceira divisão, inclusive, impulsionaram uma mudança importante na legislação esportiva na Alemanha. Até então, apenas três jogadores estrangeiros eram permitidos por elenco. No entanto, o exemplo do clube dos turcos garantiu que os atletas em atividade a pelo menos cinco anos no país seriam considerados também como “locais”. Em 1994/95, os alviazuis participaram da reformulada Regionalliga, quando acabaram rebaixados e retornaram à Oberliga, transformada em quarta divisão.

Desde então, o Türkiyemspor entrou em queda livre, limitado atualmente à sétima divisão. No início desta década, enfrentou sérios problemas financeiros, que levaram a agremiação ao processo falimentar. Ainda assim, o clube é reconhecido principalmente por seu trabalho com adolescentes e mulheres, oferecendo espaço a turcos, descendentes e a outros imigrantes através do futebol. Formado em Kreuzberg nos anos 1990, o atacante Ümit Karan é o maior exemplo. Após se profissionalizar, defendeu a seleção turca e foi ídolo no Galatasaray.

Durante os anos áureos do Türkiyemspor, aliás, existia até mesmo uma rivalidade longínqua. Fundado em 1975, o Türk Gücü simbolizava a comunidade turca em Munique. Treinado por Peter Grosser, ídolo do Munique 1860, o clube alcançou em 1988/89 a Bayernliga, equivalente local à terceira divisão. Havia uma competitividade para ver qual seria o primeiro representante dos turcos a alcançar a segundona. Entretanto, o rebaixamento em 1992 afastou o Türk Gücü do sonho. Mesmo em declínio, o elenco chegou a contar com Ilhan Mansiz (semifinalista da Copa de 2002 com a seleção turca) e foi a porta de entrada para Cacau na Alemanha, antes de se transferir ao Nürnberg. Lidando com as dificuldades financeiras, a agremiação se dissolveu em 2001, sendo recriada depois. Atualmente chamada Türkgücü-Ataspor, briga pelo acesso na sexta divisão.

E o trabalho destes clubes, no fim das contas, se tornou inspiração. Equipes de imigrantes turcos surgiram em outras cidades da Alemanha e da Europa, com destaque ao Türkiyemspor Amsterdã, que teve seu auge na terceirona do Campeonato Holandês. Já a experiência mais bem sucedida entre os turco-alemães nos últimos anos aconteceu com o Berlim Ankaraspor, que em 2006 estabeleceu uma cooperação com o Ankaraspor e manteve as cores do clube turco da 2011, chegando a conquistar a Berliner Landespokal. Rebatizada como Berliner AK, a equipe atualmente disputa a quarta divisão. Os melhores representantes turcos em 2017/18 são o Inter Türkspor Kiel e o Türkiye Wilhelmsburg, ambos na quinta divisão. E há mesmo uma filial do Besiktas em Berlim, militando no oitavo nível da pirâmide germânica.

Se os clubes não conseguem desfrutar a relevância de outros tempos, resta à população se inspirar nos jogadores. No elenco atual do Besiktas, há dois membros nascidos na Alemanha: Gökhan Töre e Tolgay Arslan. Ambos iniciaram suas carreiras no país natal, antes de seguirem por outros rumos e desembarcarem em Istambul. Certamente contarão com milhares de “irmãos” na torcida durante os duelos contra o Bayern de Munique. Turcos que não se esquecem de suas raízes, embora também saibam valorizar a terra que lhes dá uma oportunidade. Dentro de alguns meses, na Copa do Mundo, o coração deverá ter outras cores, para apoiar Özil, Gündogan, Emre Can, Kerem Demirbay e quem mais representar a suas origens através do Nationalelf. Uma Alemanha multicultural, tão presente no cotidiano e tão latente no futebol.