Filhos de Gandhy durante Brasil x Croácia na Fan Fest de Salvador (Bruno Bonsanti/Trivela)

Os filhos são de Gandhi, mas a torcida foi pela família Scolari

Entre colombianos, alemães, holandeses, mexicanos e brasileiros que assistiam à estreia do Brasil no Farol da Barra, palco da Fan Fest de Salvador, destacava-se um grupo de aproximadamente dez pessoas vestidas com um turbante, roupas brancas e azuis e o rosto de Mahatma Gandhi nas costas. Nas mãos, instrumentos de percussão. Não eram indianos, sequer um grupo político, mas um bloco de carnaval afoxé, no ritmo de xá, e com muita influência da religião candomblé.

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Os Filhos de Gandhy foram fundados por 12 estivadores que estavam sem dinheiro em 1949, um ano depois da morte do líder indiano. Como o sindicato deles estava sob intervenção governamental, e com medo de represálias, usaram o “y” de propósito, para amenizar a conexão com o político e evitar represálias da polícia. Por que achavam que isso seria suficiente, apenas o fundador Almir Fia pode responder. Vamos tratar da outra pergunta óbvia: o que Gandhi tem a ver com estivadores brasileiros?

“Um dos fundadores, Vavá Madeira, viu os turbantes em um filme sobre Gandhi (não soube precisar qual) e chamou os amigos”, explica Robson Barcelar dos Santos, diretor de bateria do grupo. “Ele nunca derramou uma gota de sangue. Por isso, pregamos a paz”. Os hippies emprestaram o slogan “paz e amor” que aparece embaixo do rosto de Gandhi no escudo do grupo. ”Em reverência aos orixás, soltamos pombas brancas e milhos brancos. Somos conhecidos como o ‘tapete branco’ de Salvador”, continua.

Mas nem toda a influência de Gandhi do mundo impede um torcedor de xingar o lateral esquerdo que fez gol contra. As mãos foram para a cabeça e quase derrubaram os turbantes quando Marcelo abriu o placar para a Croácia. Essas mesmas mãos agarraram os instrumentos e batucaram exaustivamente no gol de empate, marcado por Neymar. No intervalo, foram o entretenimento do público no Farol da Barra, decepcionantemente longe de estar lotado para uma abertura de Copa do Mundo, e criaram o clima para os torcedores caírem no samba.

Os Filhos de Gandhy contam com 15 mil membros, segundo Barcelar dos Santos, mas poucos estavam na Fan Fest para representar o bloco. Eles tocam no Pelourinho de domingo, vão para o Farol da Barra na segunda-feira e depois voltam. Além de batucar e torcer pela seleção brasileira, fazem um trabalho social em Salvador. Segundo o site oficial do bloco, o objetivo é atender aproximadamente “600 crianças e adolescentes tendo em vista um trabalho socioeducativo e profissionalizante”. Ajudam jovens de comunidades carentes ou em situações de risco, ensinando inglês, informática, percussão, esportes e capoeira.

Aos poucos, a ansiedade deles foi sendo acalmada pelos gols da seleção brasileira. Tocaram outras vezes e comemoraram junto com a torcida a vitória por 3 a 1 sobre a Croácia, na estreia da Copa do Mundo. Mas, ao apito final, um trilho elétrico com guitarras eletrônicas de rock que alcançam um tom inatingível para um tambor entrou em cena. E ninguém mais conseguiu ouvir os Filhos de Gandhy.