Palitos decorados com os escudos de Remo e Paysandu (Divulgação Tatibitati Brindes)

Os gigantes que se escondem na Amazônia

Por Lucas Berredo

Em “Como o Futebol Explica o Mundo”, o jornalista americano Franklin Foer argumenta como a globalização contribuiu (por vias tortas) para reforçar o poder das instituições regionais no esporte. Isto é, ainda que Barcelona, Real Madrid e outras potências econômicas, ano a ano, ampliem sua influência no mercado da bola, algumas cidades mantêm viva uma espécie de “tribalismo futebolístico” – o apelo ao torcedor que se orgulhe de uma identificação étnica ou a defesa da cidade ou bairro em que nasceu. São os casos dos embates entre Celtic e Rangers, em Glasgow, ou Estrela Vermelha e Partizan, em Belgrado.

No Brasil, pode-se enumerar uma série de rivalidades semelhantes. Nenhuma dupla, entretanto, se confrontou tantas vezes e construiu uma concorrência tão peculiar quanto Remo e Paysandu. O Re-Pa, o dérbi de Belém do Pará, foi disputado 719 vezes desde 1914– um recorde no futebol mundial. O Leão Azul é o maioral no confronto, com 256 vitórias conquistadas (35,6% do total) e 928 gols marcados. O Papão da Curuzu tem 30 triunfos e 33 tentos a menos que o rival, mas se orgulha de possuir três títulos estaduais a mais.

Instalados numa região afastada dos grandes centros do país, Remo e Paysandu conquistaram, juntos, 87 das 101 edições do Campeonato Paraense – 86,1% do total. A história do confronto, que completa cem anos no próximo dia 14 de junho, engloba episódios e personagens tão esquisitos quanto memoráveis.

O remista, por exemplo, não esquece o jogo de 1972, quando o atacante Alcino – o “Motora” – driblou a defesa inteira do Paysandu, pôs a bola após a linha do gol e sentou na esfera. Já a Fiel alviceleste costuma relembrar a goleada de 7 a 0 em cima do rival – até hoje a maior goleada do clássico.

Alguns dos atores do clássico, especialmente os que atuaram entre os anos 50 e 80, também se tornaram ídolos do futebol brasileiro. Waldir Cardoso Lebrego, o Quarentinha, jogou pelo Paysandu entre 1950 e 1952 e depois se transferiu para o Botafogo, onde atuou com nomes como Garrincha, Gérson e Nílton Santos. Do outro lado, destacam-se Nelinho, lateral da Seleção Brasileira nos anos 70, Rosemiro, futuro ala do Palmeiras, e Giovanni, que vestiu os fardamentos de Santos e Barcelona nas décadas de 90 e 2000.

Apesar da rica história, Remo e Paysandu, a exemplo dos times europeus supracitados, não vivem suas melhores fases. Por uma sucessão de gestões ruins, o Papão, que chegou a disputar uma Copa Libertadores no início dos anos 2000, não participa da Série A do Brasileiro há nove anos; o Leão Azul, pelo mesmo motivo, sequer possui uma vaga assegurada na Série D do campeonato nacional.

Ainda assim, a rivalidade sobrevive. Prova disso se deu no ano passado, quando os gigantes paraenses colocaram 41.604 pessoas no Olímpico Edgar Proença – popularmente chamado de Mangueirão – para um confronto da primeira fase do Campeonato Paraense. A partida foi disputada sob um típico temporal do inverno amazônico e terminou com vitória azulina, por 2 a 1.

Longe dos clichês frequentemente abordados quando se fala da região – como a forte participação das torcidas nos clássicos –, a tradição do futebol paraense remonta ao início do século 20, quando Belém do Pará se tornara o centro da Belle Époque amazônica.

À época, a cidade, fortificada economicamente pelo ciclo da borracha, atraiu vários imigrantes britânicos e franceses, que trouxeram consigo a prática do ludopédio. Logo então o esporte se tornou popular na elite local e, já em 1908, o Pará organizou seu primeiro campeonato de futebol – o quarto Estado brasileiro, após São Paulo, Bahia e Rio de Janeiro, a ter seu próprio certame.

Inicialmente um clube de regatas, o Remo surgiu em 1905 e, oito anos depois, inaugurou seu departamento de futebol, vencendo o Estadual logo na temporada de estreia. No entanto, o Norte Club, vice do certame, não se contentara com o título azulino: os dirigentes do time perdedor acusaram uma irregularidade no empate de 1 x 1 com o Guarany e pediram para que o jogo fosse anulado. A Liga Paraense de Foot-Ball não acatou o pedido.

Da indignação com o suposto favorecimento à equipe azulina, os integrantes do Norte Club decidiram formar um novo time, que fosse capaz de encarar o emergente Remo em igualdade de condições. Daí surgiu o Paysandu, que ao contrário do rival, levou seis anos para conquistar seu primeiro Estadual.

A temporada de 2014 será especial para ambos os clubes. No domingo passado, o Paysandu completou cem anos de existência – com direito a goleada para cima do São Francisco, de Santarém –, e daqui a quatro meses, acontecerá o centenário do primeiro Re-Pa, vencido pelo Leão por 2 a 1.

Poderia ser um marco comemorado com mais pompa. Cairá no meio da Copa, no mesmo dia em que Manaus, a cidade escolhida para representar a Amazônia no Mundial, receberá Inglaterra x Itália. Bem que esse jogo poderia ser em Belém, celebrando em alta o 100º aniversário do clássico mais vezes disputado no planeta. Poderia ser, ao menos, festejado com remistas e bicolores disputando a Série A do Brasileiro – a última vez ocorreu em outubro de 1993 (empate de 1 x 1).

Enquanto isso não acontece, louvemos a história dos dois maiores clubes do Norte do país nesta semana tão importante para ambos.

Lucas Berredo, jornalista, conhece mais história do automobilismo até que o Emerson Fittipaldi e torce para o maior clube do Pará.