Adaptado do texto publicado no Balípodo, em março de 2007

Como sede do Mundial de Clubes, o Marrocos já conhece o clube que o representará na competição, no final do ano. O Moghreb Athletic Tétouan venceu na última rodada o Berkane e contou com uma derrota do Raja Casablanca para ficar com o Marroquinão e garantir a vaga no torneio intercontinental. Pequeno clube do norte do país, o campeão tem até hoje como grande façanha o fato de ter disputado o Campeonato Espanhol.

Tetuan sempre esteve com um pé na África e outro na Espanha. A cidade surgiu como uma aldeia bérbere, mas cresceu bastante no século XV, quando se tornou abrigo para vários mouros e judeus expulsos de Al-Andalus (província árabe no sul da Península Ibérica) pelos cristãos. Essa ligação entre a cidade marroquina e a Europa nunca foi interrompida.

Os refugiados mantiveram a cultura andaluza no norte de Marrocos. Até hoje, a população tetuani usa a língua espanhola como forma de reforçar o orgulho por suas origens. Os judeus de Tetuan também fazem parte do processo, mantendo vivo o idioma sefardita (também chamado de ladino ou judeu-espanhol, variação do castelhano falada pelos judeus que vivam na Península Ibérica durante o domínio muçulmano). Esse fenômeno é combatido pelo governo marroquino com medo de reivindicações autonomistas na região.

Desde a expulsão dos mouros de seu território, espanhóis e portugueses sempre demonstraram intenções expansionistas para o outro lado do estreito de Gibraltar. A Espanha investiu várias vezes contra Marrocos e conseguiu estabelecer algumas colônias, como Ceuta, Melilla, ilhas Alhucemas e Vélez de la Gomera. Outras – como Tetuan – foram conquistadas e perdidas em diversas batalhas e negociações entre europeus e o sultanato marroquino (ligado ao Império Otomano).

Depois de muitas disputas diplomáticas e bélicas (não convém entrar em grandes detalhes) entre britânicos, espanhóis, franceses e até alemães, Marrocos não resistiu à forte influência europeia e acabou em mãos francesas e espanholas. Em 1911, o sultão marroquino não conseguia mais conter o caos em que estava o país e pediu ajuda à França. No ano seguinte, o domínio francês foi oficializado e, meses depois, Rif e Yebala (regiões ao norte do país) passaram para a Espanha no que ficou conhecido como Protetorado Espanhol de Marrocos, cuja capital era Tetuan.

O regime administrativo era misto. O governo espanhol controlava a região, mas havia um califa para lidar com questões religiosas e do dia-a-dia. Ou seja, o Marrocos espanhol tinha autonomia razoável e não tinha igualdade de tratamento em relação a outras regiões da Espanha. Sinal disso é que os muçulmanos nascidos na região não recebiam cidadania espanhola.

Claro que surgiram movimentos nacionalistas e independentistas. Assim, militares e até cidadãos espanhóis se mudaram para a região como parte da política de ocupação que partia do governo de Madri. Aos poucos, os europeus foram fincando raízes na nova casa.

Em 1917, espanhóis criaram dois times de futebol em Tetuan, o Sporting Tetuán e o Hispano-Marroquí. Cinco anos depois, as duas equipes decidiram unir forças e se fundiram. Como a maior parte dos fundadores torcia pelo Atlético de Madrid, o novo clube deveria homenagear os colchoneros. Assim, surgiu o Club Atlético de Tetuán, com nome, distintivo e camisa semelhantes aos do quase homônimo madrileno. Os jogadores e dirigentes eram quase todos de origem europeia.

Durante as primeiras décadas de vida, a equipe tetuani não teve grande destaque no cenário espanhol por disputar apenas competições regionais. Aos poucos, com a maior descentralização do futebol espanhol, o clube africano começou a ganhar espaço. Em 1950-51, o Atlético Tetuán conquistou o título do Grupo Sul da segunda divisão da Espanha e, claro, o direito a participar da elite do futebol espanhol. Na época, a independência marroquina e o fim dos protetorados franceses e espanhóis eram inevitáveis, e a turbulência política no país era enorme.

Estar no Campeonato Espanhol já era muito para um clube pequeno que tinha sede no norte da África. Tanto que a campanha foi discreta, com sete vitórias, cinco empates e 18 derrotas, 51 gols feitos e 85 sofridos. Os modestos 19 pontos deixaram a equipe na última posição, três unidades atrás do Las Palmas.

Jogando em casa, o Atlético Tetuán até obtinha bons resultados, como a vitória por 5 x 1 sobre o Racing de Santander, o 4 x 1 sobre o Atlético de Madrid e os 3 x 1 sobre Deportivo de La Coruña e Zaragoza. Outro resultado expressivo foi o empate em 3 x 3 com o Real Madrid.

O problema é quando o time saía da África. Como visitante, os tetuanis venceram o Deportivo de La Coruña por 3 x 2. E só. De resto, foram 14 derrotas como visitantes, algumas bastante contundentes, como o 0 x 8 contra o Atlético de Madrid e o 0 x 7 sofridos do Celta. Menos mal que, diante do campeão daquela temporada, a equipe vinda de Marrocos teve bom desempenho: 2 x 3 contra o Barcelona de Ramallets, Kubala e Segarra no Camp Nou.

De volta à Segundona, o Atlético Tetuán voltou a fazer boa campanha. Em 1952-53, foi terceiro colocado no Grupo Sul (atrás de Jaén e Murcia) e disputou a Liga de Ascenso, espécie de repescagem. O mini-torneio foi bastante equilibrado, com poucos pontos separando o líder do lanterna. Os tetuanis seguiam com a vocação de vencer na África e perderem do outro lado do estreito de Gibraltar.

Na última rodada, o Atlético precisava de uma vitória sobre o España Industrial em Barcelona para retornar à elite. Não deu. O empate em 1 x 1 deixou os africanos na quarta posição, com 10 pontos. Os dois primeiros colocados, Deportivo de La Coruña e España Industrial, ficaram com 11 (o España, como clube filial do Barcelona, não subiu, cendendo sua vaga ao Celta, terceiro da repescagem com 10 pontos e melhor saldo de gols que os tetuanis).

Em 1954-55, o Atlético Tetuán teve sua última grande participação na Segundona espanhola. A equipe africana foi segunda no Grupo Sul (atrás do Murcia) e foi para a Liga de Ascenso com clubes tradicionais, como Español (atual Espanyol), Granada, Oviedo, Real Sociedad e Zaragoza.

Curiosamente, os tetuanis reverteram sua tradição e conseguiram melhores resultados como visitantes. Na Europa, o Atlético venceu Real Sociedad (2 x 1) e Zaragoza (2 x 0), enquanto que, na África, caíram diante de Español (1 x 2) e Oviedo (2 x 3). Mesmo irregular, o time tinha chances de promoção até a partida derradeira. No entanto, perderam do lanterna em Granada (cidade com ligação histórica com Tetuan, já que era a capital da província de Al-Andalus).

Em 1956, o rei Muhammed V conseguiu finalmente que a independência de Marrocos fosse reconhecida por França e Espanha. Os espanhóis que viviam no protetorado voltaram à Europa ou foram para Melilla e Ceuta, duas colônias que permaneceram sob domínio de Madri.

Logicamente, esse processo afetou o Atlético Tetuán, que foi obrigado a se dividir em dois. A parte espanhola migrou para Ceuta e se juntou à Sociedad Deportiva Ceuta (atualmente na terceira divisão espanhola). Os muçulmanos continuaram em Tetuan e mudaram o nome do clube para Moghreb Athletic Tétouan, adotando o francês (segunda língua de Marrocos) e arabizando o distintivo.

Desde que se transformou em um clube marroquino e até o título deste final de semana, o único sucesso do MAT havia sido a conquista do Marroquinão há dois anos. O clube não tinha a mesma tradição dos rivais locais, sobretudo os da parte que fora administrada pela França, que disputavam o Campeonato Marroquino independente da liga francesa e já tinham torcida mais forte.

Logo em sua primeira temporada no novo país, em 1956-57, foi rebaixado. Nos anos 1960, conseguiu retornar à elite, mas não fez nada melhor que dois oitavos lugares. Nas décadas de 1970 e 1980, se transformou em um coadjuvante no cenário marroquino, com mais participações na segunda divisão do que na primeira. Isso só mudou nos últimos anos.

O primeiro título da era marroquino do clube aconteceu em 2005: a Groupement National de Football (GNF) 2, a Segundona de Marrocos. Em 2006-07, a diretoria investiu em jogadores com passagens em grandes clubes, como o artilheiro Benchrifa (ex-Wydad Casablanca), o defensor Ouchela (ex-FAR) e o experiente goleiro Chadili (ex-Raja Casablanca), todos com passagem pela seleção marroquina, além do atacante congolês Massouanga.

O clube, que até há poucos anos tinha apenas o marco de ser o único integrante de uma liga nacional africana que já disputou um campeonato de primeira divisão na Europa como grande conquista do passado, começa a se estabelecer como uma das forças nacionais, vencendo seu segundo título marroquino em três anos.