Quando o sorteio dos grupos da Copa do Mundo indicou que Portugal disputaria um jogo em Manaus, a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) entendeu que era hora de rever os critérios de escolha do local de concentração da seleção no Brasil. Estar geograficamente perto dos estádios onde atuará na primeira fase deixou de ser item prioritário, pelo simples fato de que, qualquer que fosse a escolha, ir à capital do Amazonas demandaria uma longa viagem.

Foi aí que Campinas ganhou força, por causa do Aeroporto Internacional de Viracopos. Quinta seleção que mais viajará durante a fase de grupos do Mundial, Portugal precisava de um lugar que ficasse o mais perto possível de um aeroporto que o permitirá decolar até as cidades-sede, em voos fretados. A lógica é simples: se será impossível evitar grandes deslocamentos aéreos, pelos menos as viagens terrestres serão encurtadas.

Viracopos fica apenas 17 quilômetros distante do luxuoso hotel Royal Palm Plaza Resort, onde a delegação ficará hospedada. O hotel, por sua vez, também está localizado bem próximo ao Centro de Treinamentos da Ponte Preta e ao estádio Moisés Lucarelli: sete quilômetros de distância de cada lugar. Ambos os locais serão utilizados pelos portugueses. O CT para a maioria dos treinos e o estádio para as atividades abertas ao público, exigidas pela Fifa.

A estratégia de logística deve ser a mesma para todas as partidas. A delegação viaja no dia anterior até a cidade do jogo e retorna a Campinas logo após a partida. A ideia é que os jogadores permaneçam o maior tempo possível na concentração do interior paulista, diminuindo assim os desgastes com mudanças de ambientes. Contando deslocamentos de ida e volta, Portugal deve viajar 13,2 mil quilômetros durante a primeira fase. Irá a Salvador (onde enfrenta a Alemanha), Manaus (onde pega os Estados Unidos) e Brasília (onde encara Gana).

Para ser escolhida pelos portugueses, Campinas superou a concorrência de outras 26 cidades, todas visitadas por membros da FPF. Quando iam aos locais, os dirigentes exigiam que a imprensa não fosse avisada e não davam pistas se gostaram do que tinham visto. Embora os indícios de que a escolhida seria Campinas já fossem fortes, boatos de outras possibilidades começaram a tomar força conforme o tempo ia passando e o anúncio oficial não era feito. No dia anterior à notícia definitiva, por exemplo, membros da Prefeitura de Sorocaba garantiam – numa reunião interna – que a cidade seria escolhida. Vinte e quatro horas depois, eles viram que não tinham a informação correta e perceberam como o sigilo funcionou bem entre portugueses e campineiros.

A proximidade com Viracopos foi fundamental para Portugal eleger Campinas como sua sede, mas não foi tudo. Pesou bastante também o que a FPF chamou de “vertente financeira”. Sem citar valores, a entidade revelou que conseguiu obter “condições especiais que garantem o financiamento total deste investimento com as verbas atribuídas pela Fifa”. Assim, pelo menos em tese, nenhum dinheiro gasto na permanência da delegação no Brasil sairá dos cofres da federação – o que, em época de crise financeira em Portugal, é uma ótima notícia.

Quem também não revela os valores de quanto arrecadará com a presença da seleção, mas não esconde sua felicidade, é o dono do hotel onde Cristiano Ronaldo e seus colegas ficarão hospedados. O português Armindo Dias tem 82 anos de idade, 57 deles vividos no Brasil. Chegou ao país para ser um representante da Lacta e transformou-se num importante empresário. Foi dono da fábrica de bolachas Triunfo e atualmente possui concessionárias de carro e hotéis.

O fato de o dono ser português e um empresário de sucesso certamente também colaborou para a escolha – e, talvez, para um pacote financeiro que seja bom para ambas as partes. Segundo o site do hotel, as diárias custam a partir de R$ 700, preço cobrado de visitantes comuns.

A delegação lusitana ocupará a área chamada de The Palms, que é um hotel reservado dentro do complexo do resort, com 116 apartamentos. O espaço será inteiramente destinado à concentração. Cada quarto possui TV LCD de 32 polegadas, DVD, acesso à internet por wi-fi e cabo, proteção acústica e ar condicionado que funciona por sensores de presença. Além dos serviços e do lazer que normalmente são fornecidos por hotéis de luxo, há ainda um heliponto e até uma capela, não por acaso dedicada à Nossa Senhora da Conceição, que é a santa padroeira de Campinas e de Portugal.

Parece claro que privacidade não vai faltar à seleção portuguesa durante sua estada em Campinas. Esse fator agradou ao técnico Paulo Bento, que conheceu pessoalmente as instalações e entregou uma camisa do time ao prefeito Jonas Donizette (PSB). “O local tem a privacidade e a segurança que a equipe exige. O Paulo Bento viu e, em consonância com a federação, escolheu esse local”, confirmou o vice-presidente da FPF, Humberto Coelho.

O que também não deve faltar é incentivo da colônia portuguesa de Campinas. Segundo dados da Casa de Portugal da cidade, a comunidade lusitana é de cerca de 9 mil pessoas no município. A entidade já se mobiliza para receber os atletas no aeroporto e a Prefeitura promete decorar a cidade com bandeiras lusas. “Quando uma seleção escolhe uma sede, traz com ela todo o interesse da imprensa e de diversas pessoas, juntas, vão alavancar a economia do município”, comemorou o prefeito. Ele ainda revelou que chegou a fazer reuniões com os portugueses à noite e aos finais de semana, para fechar os detalhes da permanência em Campinas.

Os detalhes da preparação da seleção portuguesa para a Copa ainda não estão completamente definidos. Falta saber, por exemplo, qual será o local de preparação em Portugal, antes da viagem ao Brasil, assim como a data em que o avião da delegação cruzará o oceano. Mas, se o sorteio não colaborou no quesito “distâncias a percorrer”, pelo menos os dirigentes parecem, ao menos por enquanto, estar acertando a mão na logística.